'Celebrar fim do comunismo é equívoco'

Líder checo acredita que há algo 'parecido' com a doutrina soviética se apresentando de forma disfarçada na Europa

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2014 | 02h02

"Celebrar o fim do comunismo é um equívoco", pois "algo parecido está voltando, com outras bandeiras e outras cores." O alerta é de Václav Klaus, o primeiro chefe de governo da República Checa depois do fim do bloco soviético. Klaus voltou a exercer a presidência do país entre os anos de 2003 e 2013. O economista, conhecido por declarações polêmicas e por não acreditar em mudanças climáticas, foi um dos idealizadores dos projetos para o país durante a Revolução de Veludo, em Praga.

Nos dias atuais, Klaus afirma estar "decepcionado" com os rumos que seu país e todo o Leste Europeu tomaram. "Eu sinceramente esperava morar em uma sociedade muito mais livre e democrática que a que existe hoje", declarou ao Estado.

Com duras críticas à União Europeia (UE), Klaus alerta que a quantidade de regulações sobre o mercado impostas por Bruxelas chega a ser superior ao que Moscou impunha a Praga. Abaixo, os principais trechos da entrevista, concedida em Genebra:

Como o sr. avalia o que está ocorrendo entre a Ucrânia e a Rússia e qual o impacto disso para a região, 25 anos depois da queda do Muro de Berlim?

Se a Europa esperava que a Rússia ficasse para sempre como nos anos 90, pode esquecer. O que Moscou viveu nos anos 90 era apenas um momento da história que não perduraria. Hoje, o que a Rússia faz é atuar de forma normal e racional. Precisamos, portanto, ter uma relação de governo normal e racional com Moscou. Achar que podemos educar a Rússia sobre o caminho que ela deve tomar e como deve se comportar é um grande erro. Na verdade, eu nem aceito dizer essa frase. Não temos direito de dizer isso. A Rússia é um grande país, que sofreu com o comunismo.

O sr. foi um dos principais pensadores econômicos do Leste Europeu no momento da transição há 25 anos. Como aconteceu aquela mudança?

A transição levou uma década para ocorrer.

Qual foi a maior dificuldade?

O sistema de um planejamento central da economia pelo Estado entrou em colapso. Precisávamos encontrar proprietários privados para assumir setores inteiros. Levamos anos para privatizar todas as estatais. No meu país, não existia um só salão de cabeleireiro que não fosse do Estado. Não existia um café privado e nem uma oficina de carro que não fosse do Estado. Mudar isso tudo levou tempo.

O sr. é um dos principais críticos da UE. Por quê?

Vivemos hoje uma economia mais regulada e mais subsidiada que antes da queda do Muro de Berlim. Eu jamais imaginaria isso. O controle sobre a economia era algo tão desacreditado no início dos anos 90 que eu jamais pensaria que isso tudo voltaria, mas estávamos errados. As falhas do governo ao administrar uma economia são muito maiores que as falhas que o mercado provoca. A mão invisível do Estado é muito mais perigosa que a do mercado.

Pessoalmente, como o sr. se sente 25 anos depois da queda do bloco comunista?

Decepcionado. Há 25 anos, alertei sobre o risco de criar expectativas erradas. As desigualdades sociais são importantes hoje. Tínhamos expectativas exageradas naquele momento. Lamento dizer, no entanto, que eu sinceramente esperava morar em uma sociedade muito mais livre e democrática do que a que existe hoje. Vivemos em uma sociedade altamente regulada, com elevados impostos, uma fascinação por medidas contra o mercado. Isso tudo mostra que não aprendemos com a história e nem com o comunismo. Celebrar o fim do comunismo é um equívoco. Algo parecido está voltando, com outras bandeiras e cores.

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