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Celeiro de jihadistas

Líbia se tornou terreno para radicalismo principalmente depois que o Ocidente e a Otan tiveram a ideia de arrasar o país com bombas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2017 | 05h00

Policiais de Manchester descobriram rapidamente alguns contatos do assassino de meninas. Essas pistas levaram à Líbia, de onde o autor do massacre era originário e onde vive seu pai - preso em seguida -, assim como seus irmãos. Assim, os olhos se voltam para a Líbia, que se tornou um celeiro de jihadistas, principalmente depois que o Ocidente e a Otan tiveram a ideia de arrasar o país com bombas e, de passagem, em 20 de outubro de 2011, matar o coronel Muamar Kadafi. O ditador era um personagem perigoso, mas o único capaz de impedir a Líbia de mergulhar no caos.

Na verdade, as primeiras manifestações do flagelo líbio remontam a muito antes, 1995, quando foi criado o Grupo de Combatentes Islâmicos (GICL), do qual um dos membros era o pai de Salman Abedi, o terrorista de Manchester. O GICL recrutava quadros entre líbios que haviam lutado contra os soviéticos no Afeganistão. A meta da organização era tirar Kadafi do poder - se preciso, assassinando-o. Desde 1998, porém, o GICL é considerado inativo.

Após o 11 de Setembro, Kadafi aliou-se aos Estados Unidos contra o terrorismo. Mas a intervenção militar de franceses, ingleses e Otan, coroada com a morte de Kadafi, representou um apoio decisivo aos grupos rebeldes. As diferentes brigadas revolucionárias dividiram os despojos do país. Nada ajuda mais os jihadistas que o caos. Hoje, Al-Qaeda e Estado Islâmico (EI) disputam como hienas o que sobrou da Líbia.

O EI anda meio sem rumo, uma vez que seus patrocinadores no Iraque e na Síria foram sendo pouco a pouco expulsos de seus feudos pela ofensiva dos aliados. A Al-Qaeda, em compensação, após uma longa fase de decadência, recobra as forças, recebendo ajuda da parte de suas células que se ocultam no Saara líbio, no sul do país. A operação deflagrada no Mali em 2013 pelo então presidente francês François Hollande teve o efeito de empurrar para o norte os jihadistas da chamada Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI).

A autoria do atentado de Manchester foi reivindicada pelo EI. Pode ser, pois os terroristas, caçados no Iraque e na Síria, voltam a seus países de origem (França, Inglaterra, etc.) ou atacam onde seja possível. Estão condenados a produzir a morte, sob pena de desaparecerem - cada um tem seu modo de fazer publicidade. Há dois meses, em 4 de abril, o grupo jihadista homenageou, por meio de seu porta-voz, Abou Hassan al-Mahajir, os “membros da organização em combate no território da Líbia”.

Serviços de inteligência franceses acompanham com atenção essas adaptações do EI às dificuldades que atravessa no Iraque e na Síria. Um ano atrás, o chefe da Diretoria Geral de Segurança Interior da França, Patrick Calvar, já constatava que a partida de jovens franceses para Síria ou Iraque havia estagnado. Ele deu a entender que outras alas estavam em via de formação, particularmente na Líbia. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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