Celulares são olhos do mundo

Câmeras integradas ao aparelho tornaram-se arma para registro e divulgação dos protestos

JENNIFER PRESTON & BRIAN STELTER, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Para alguns dos manifestantes que enfrentam as forças de segurança fortemente armadas do Bahrein na Praça da Pérola e ao seu redor, em Manama, a arma mais poderosa contra os fuzis e o gás lacrimogêneo tem sido a minúscula câmera de seus celulares. Transferindo as imagens da violência ocorrida esta semana a sites da internet como o YouTube, Facebook e Twitter, os manifestantes chamaram a atenção do mundo para suas reivindicações.

Uma novidade há menos de uma década, a câmera do celular tornou-se um instrumento vital para documentar a reação dos governos à inquietação que se alastrou pelo Oriente Médio e Norte da África. Reconhecendo o poder desta forma de documentação, os grupos de defesa dos direitos humanos publicaram guias e forneceram treinamento para possibilitar o uso eficiente das câmeras.

"Finalmente, vocês têm uma tecnologia de vídeo que cabe na palma da mão e o que uma pessoa registra pode dar a volta ao mundo", disse James E. Katz, diretor do Centro Rutgers para Estudos sobre Comunicação Móvel. "Esta é a faca na garganta de velhos regimes."

Na Tunísia, os celulares foram usados para captar imagens em vídeo dos primeiros protestos em Sidi Bouzid, em dezembro, o que contribuiu para que a agitação se alastrasse a outras partes do país. As imagens também levaram os produtores da TV Al-Jazira a começar a transmitir a revolta, o que derrubou o governo tunisiano em janeiro e preparou o caminho para os protestos no Egito.

Embora os celulares com câmeras sejam comercializados desde o final dos anos 90, somente quando o tsunami atingiu o Sudeste Asiático, em 26 de dezembro de 2004, a imprensa começou a dar a merecida atenção aos vídeos criados e postados por amadores. Em junho de 2009, vídeos de celulares da morte de uma jovem em Teerã, conhecida como Neda, foram divulgadas graças ao YouTube, galvanizando a oposição iraniana, e foram vistas em todo o mundo.

Agora, os meios de comunicação passaram a procurar e divulgar estas imagens. Garantir sua autenticidade continua sendo um problema, porque as fotos podem ser facilmente alteradas por computador, e vídeos antigos podem voltar a circular, como se fossem recentes. O YouTube está usando o Storyful, um site de agregação de notícias, para administrar as dezenas de milhares de vídeos sobre o Oriente Médio que foram transferidos nas últimas semanas, e destacar os principais no canal CitizenTube.

Os sites de hospedagem informaram que tiveram um aumento do material procedente do Oriente Médio e de visitantes à procura de conteúdo. Entre eles, destaca-se o Bambuser como uma maneira de fazer streaming de vídeo. Mans Adler, um dos fundadores, informou que tem 15 mil usuários no Egito, a maioria dos quais se registrou antes das eleições de novembro. E acrescentou que há mais de 10 mil vídeos no site que foram feitos na época das eleições, mostrando a atividade nas seções eleitorais, como uma espécie de iniciativa organizada. Depois disso, o grau de atividade se firmou em 800 a 2 mil vídeos por dia, e em seguida voltou a subir vertiginosamente para 10 mil, quando começaram os protestos em massa no Egito no mês passado, relatou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

SÃO JORNALISTAS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.