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Cenário: A insatisfação das Forças Especiais que apoiam Ortega

A garantia do apoio militar a Daniel Ortega está longe da unanimidade no Batalhão de Forças Especiais do Exército (FE), principal alicerce armado que sustenta o ex-líder revolucionário

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2018 | 05h00

O regime de Daniel Ortega, quatro vezes presidente da Nicarágua, é sustentado principalmente pelo Batalhão de Forças Especiais do Exército (FE) e pela Policia Nacional, submetida diretamente ao  gabinete do ex-líder revolucionário que governa o país desde 2007.

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No total, as Forças Armadas nicaraguenses somam 14 mil soldados, um efetivo significativamente menor que os 45 mil alistados regularmente durante os 11 anos da revolução sandinista, entre 1979 e 1990. Os 800 combatentes das FE cuidam da segurança presidencial, controlam os voos do pequeno avião oficial usado por Daniel Ortega, um bimotor Cessna 404 em versão executiva e, garantem as lideranças de oposição, também treinam os paramilitares que, há pouco mais de dois meses, reprimem manifestantes contrários ao governo – desde 18 de abril, ao menos 351 pessoas morreram nos confrontos.

A garantia do apoio militar a Daniel Ortega, um líder de 72 anos, violento e sem discurso, está longe da unanimidade na tropa. Oficiais jovens, formados em cursos de especialização fora da Nicarágua – no leste europeu principalmente – reivindicam a criação de uma estrutura de Defesa moderna, voltada para a segurança das fronteiras e a repressão ao narcotráfico. 

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O país é usado sem muita dificuldade como entreposto regional pelos cartéis mexicanos de drogas. Por mensagens postadas nas plataformas sociais da internet e em sites de informação abrigados na Ásia, os descontentes denunciam o estilo truculento do convívio com os dissidentes políticos e o abandono do programa de recuperação das capacidades do exército, da aviação e da marinha, uma forte promessa de campanha de Ortega.

O desgosto se justifica. Em 1983 a força aérea recebeu da União Soviética 15 caças MiG-17 e encomendou 48 supersônicos – 24 Mirage, na França, e 24 MiG-21, na URSS. Não recebeu nenhum. O lote mais antigo, dos MiG-17, foi desativado. Em março a aviação militar começou a negociar com a Rússia o fornecimento de seis MiG-29 usados, modernizados. O conflito interno congelou as discussões. 

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A situação se repete no Exército, equipado com velhos tanques T-55 soviéticos, produzidos na extinta Checoslováquia há 37 anos. Mísseis, canhões e fuzis são da mesma época. Radares e sensores de vigilância não usam sistemas eletrônicos. Apenas o aeroporto de Manágua opera um núcleo digital de controle do tráfego aéreo. Sem isso, o terminal deixaria de receber voos internacionais e aeronaves de grande porte.

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