REUTERS/Rick Wilking
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Cenário: A justiça deve chegar, mas justiça para quem?

A morte não é boa para ninguém, mas o que essas famílias enfrentam hoje é o terror de ver seus entes queridos morrendo em público e de maneira tão violenta

Lezley Mcspadden* / NYT, O Estado de S. Paulo

09 de julho de 2016 | 02h00

Chorei ao ver as terríveis imagens de vídeo de Baton Rouge e Minnesota. Estou desolada e enfurecida. Alton Sterling está morto. Philando Castile está morto. Meu filho, Michael Brown, foi morto há quase dois anos.

A morte não é boa para ninguém, mas o que essas famílias enfrentam hoje é o terror de ver seus entes queridos morrendo em público e de maneira tão violenta. Elas ficam prostradas ao ver estranhos julgando seu parente com base em alguns segundos de um vídeo.

 Alguém me perguntou o que eu diria à família de Sterling se tivesse a possibilidade. Não saberia o que dizer. Quando Michael foi morto, as pessoas procuraram conversar comigo, mas eu estava em estado de choque; não sabia como responder. Hoje sei o bastante para aconselhar as pessoas de bem a esperar antes de oferecer palavras amáveis. 

Eu e as mães com quem me encontrei ao longo do caminho – Sybrina Fulton, mãe de Trayvon Martin; Wanda Johnson, mãe de Oscar Grant III – tentamos nos ajudar uma à outra a enfrentar o martírio e faremos o mesmo no caso das famílias de Sterling e Castile. Quando os filhos são mortos, espera-se que as mães digam alguma coisa. Para ajudar a manter a paz. A mudar as coisas. Mas o que posso dizer? Somos ensinados a ser pacíficos, mas não estamos em paz. 

Acordo e me deito com esta dor todos os dias. Não tenho paz. Desde que perdi meu filho, morto a tiros pela polícia, fiz muita coisa. Criei uma fundação em honra de Michael. Fiz campanha em St. Louis para que fosse sancionada lei obrigando os policiais a usarem câmeras corporais. Jamais deixarei de falar sobre meu filho ou lutar por justiça para ele.

As pessoas distorceram as palavras das famílias de Sterling e Castile, para transformá-las em algo vil. Esses homens serão chamados de brutamontes ou pior. E isso já vem ocorrendo. Basta ler os comentários abaixo de qualquer artigo sobre as mortes deles e você ficará chocado com os comentários racistas das pessoas que insistem que eles obviamente mereciam morrer. 

O que eu diria para suas famílias? Quando estiverem prontas, se precisarem de mim estarei à disposição. Mas as pessoas a quem eu gostaria de me dirigir são aquelas que afirmam que a Justiça prevalecerá. Justiça para quem? Quando a Justiça chegar para quem não acionou o gatilho, então acreditarei em vocês. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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É MÃE DE VÍTIMA DE VIOLÊNCIA POLICIAL

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