REUTERS/Dylan Martinez
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Cenário: Acordo contestado reflete personalidade da premiê britânica

Brexit estudado, cauteloso, prático e provinciano, é muito parecido com a própria Theresa May, segundo aqueles que a observaram ao longo dos anos

William Booth e Karla Adam / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2018 | 05h00

Pode ser doloroso assistir ao desdém e ao escárnio que recaíram sobre a solitária primeira-ministra britânica - e ainda assim as críticas continuavam. Porque este é o Brexit dela. Aconteça o que acontecer, bem ou mal, este notável momento britânico acontecerá por causa de Theresa May.

Nas últimas semanas, assim que ela revelou e defendeu seu plano de compromisso de sair da União Europeia (UE) devagar, May foi acusada de ser contraditória, uma traidora da causa, porque seu plano Brexit foi condenado por até mesmo seus amigos, como uma humilhação.

A filha do vigário da cidade de Maidenhead disse que estava “fazendo a coisa certa, não a coisa fácil”. May insiste que é ela quem “verá isso (Brexit) ser levado a cabo”.

Aqueles que a observaram ao longo dos anos dizem que é o estilo de governo de May, seu caráter e sua maneira de ver o mundo que produziu esta versão do Brexit, tanto quanto quaisquer linhas vermelhas traçadas pelos negociadores europeus.

May pode ser inabalável ou persistente, e faz suas escolhas, além de ser reservada e durona, de acordo com aliados e críticos. Ela pode ser uma desajeitada ativista, uma oradora sem inspiração que adere a um roteiro. Não há nada exuberante ou extravagante sobre ela, exceto seus sapatos com estampa de leopardo. Ela não suporta falar sobre seus sentimentos, especialmente à BBC. Ela ouve, estuda, decide e depois não pode mudar de ideia. Ela é toda dedicada aos detalhes, ao processo. May não é uma grande figura.

E assim, este Brexit estudado, cauteloso, prático e provinciano, é muito parecido com a própria primeira-ministra. Está a quilômetros de distância do tipo de Brexit cinematográfico, de capa e espada, “vamos com tudo” pelo qual ansiava o ex-ministro de Relações Exteriores Boris Johnson.

É por isso que o Brexit de May é um anátema para os “tories” defensores ferrenhos do Brexit, que na semana passada ameaçaram um golpe parlamentar, um voto de desconfiança que teria como meta privá-la do poder - porque a visão de May vincula a Grã-Bretanha às regras e regulamentos da UE por anos. Mas a conspiração contra ela parece ter fracassado, pelo menos por enquanto, com o seu refinado e aristocrático líder Jacob Rees-Mogg agora encarado como um tolo.

Desde seu desastroso desempenho na campanha das eleições gerais de 2017, na qual ela perdeu a maioria dos conservadores e teve que ser escorada por um partido sindicalista com uma causa única na Irlanda do Norte, May foi tachada como “alguém no corredor da morte” e “a pior premiê da história recente”. E, ainda assim, May continua no cargo.

Seu acordo Brexit sobreviveu às duas últimas tumultuadas semanas. Isso nos diz alguma coisa. O acordo de retirada de quase 600 páginas, que define os termos para a saída da Grã-Bretanha da UE em 29 de março, foi aprovado pelos líderes dos 27 estados membros da UE em Bruxelas, ontem. Agora, o Acordo de Retirada retorna para uma votação em dezembro no Parlamento britânico, onde novamente seus críticos dizem que o plano de May está condenado.

Mas está mesmo? Depois que seu acordo foi atacado selvagemente na semana passada no Parlamento, May confessou ao Daily Mail que tinham sido “dias muito pesados”. A primeira-ministra de 62 anos disse que seu marido, Philip, sua “rocha”, fez para ela um prato de feijões com torrada e serviu-lhe um bom uísque galês - e então ela seguiu em frente.

Alan Duncan, um membro do Partido Conservador do Parlamento que foi para a Universidade de Oxford com May, disse à primeira-ministra que ele não sabia como ela conseguia aceitar os abusos sofridos na Câmara dos Comuns. “Ela é firme e não sai do rumo, e eu acho que ela possui uma incrível resistência de aço”, disse ele. “Ela pode não ser a personagem mais empolgante do mundo, mas, meu Deus, esses grandes personagens não teriam as mesmas qualidades que ela tem mostrado.”

Tim Shipman, editor político do Sunday Times e autor do best-seller All Out War, sobre o Brexit, disse que “sem dúvida há uma dinâmica de gênero aqui, mas não é uma onde Theresa May é a vítima”. Shipman disse que falou com um ministro no começo da semana, o qual disse a ele que qualquer homem teria renunciado se tivesse passado pelo que ela tem vivido.

“Seus egos não seriam capazes de seguir adiante”, disse Shipman ao The Washington Post. “Mas sua falta de ego e seu desejo de mostrar a essas pessoas, as pessoas elegantes, as pessoas intelectuais, que ela é melhor do que eles... Essa é uma parte forte de sua motivação - isso e fazer a coisa certa, no modo prático, inglês e provinciano.”

Shipman acrescentou: “O que nós não sabemos é se ela habilmente guiou a nação para uma posição de segurança ou se, por ser reservada e teimosa e ao mesmo tempo aborrecendo alas inteiras de seu partido, ela afundou e levou o resto de nós com ela.”

May pode atestar suas motivações quinta-feira em suas observações ao Parlamento. “Em meio a essas difíceis e complexas negociações com a União Europeia, eu tenho um objetivo em mente: honrar o voto do povo britânico e entregar um bom acordo Brexit”, disse.

Seu concorrente mais persistente, Johnson, deixou o governo em desgosto em julho por causa dos planos de May para o Brexit. Agora como um comum integrante do parlamento e colunista do Telegraph, Johnson escreveu recentemente que o acordo proposto pela primeira-ministra - sob o título de “constrangedora proposta de troca” - “nada fez para encobrir o constrangimento de nossa derrota total”.

Johnson foi apenas um dos 20 funcionários do governo a abandonar May ao seu próprio destino. Seu irmão Jo Johnson, que votou para permanecer na UE no referendo de junho de 2016, deixou seu posto como ministro dos Transportes neste mês, advertindo que May havia fustigado o país com uma escolha terrível - “vassalagem” a burocratas sem rosto de Bruxelas ou ao “caos econômico” de ficar sem acordo, num cenário do “dia do juízo final” que ameaça as mercearias a ficarem com prateleiras vazias, com a escassez de remédios e a recessão.

Seu ex-ministro do Brexit, Dominic Raab, que também renunciou abruptamente, disse na sexta-feira que o acordo de May é “ainda pior” do que permanecer na UE.

Aqueles que a conhecem melhor, incluindo antigos assessores, dizem que a primeira-ministra nunca concordou com a ideia de que o Brexit poderia ser um renascimento glorioso. Em vez disso, ela tentou mitigar um possível desastre depois que os britânicos votaram 52% a 48% para deixar a zona de livre comércio mais rica do mundo.

May, que votou para permanecer na UE, disse que seu acordo “traz de volta o controle das fronteiras, do dinheiro e das leis”. “E faz isso protegendo empregos, protegendo nossa segurança e protegendo a integridade do Reino Unido.”

Sua linguagem revela um Brexit defensivo, um Brexit menos pessimista, um Brexit ansioso, um Brexit melhor que nada. “Pelo menos, acaba com a incerteza prejudicial”, diz uma coluna do Financial Times. Pode muito bem ser o melhor acordo que os europeus colocariam à sua disposição, mas ninguém parece muito inspirado por ele.

Nick Timothy, um dos ex-principais assessores de May, investiu contra o acordo considerando-o uma “capitulação” nas páginas do Daily Telegraph. Timothy nunca esteve longe de May até que foi forçado a deixar o governo quando ela se saiu mal nas últimas eleições.

“Se você acredita que as pessoas votaram no Brexit para controlar a imigração, e teme que isso traga apenas desvantagens econômicas, você pode considerar o projeto de acordo como o resultado menos ruim para a Grã-Bretanha”, escreveu Timothy. “Se você acredita que o Brexit pode restaurar a soberania abandonada, reformar nossa economia e mudar o país, você o achará um show de horror.”

De qualquer maneira, ele advertiu, “o texto não tem chance (de ser aprovado) na Câmara dos Comuns”. Mas ele não seria o primeiro a errar em relação a May.

Rosa Prince, autora de Theresa May: The Enigmatic Prime Minister, disse que o estilo inflexível de sempre de May nem sempre foi bem aceito pelos colegas de Westminster, mas que o público passou a admirar sua coragem. May “parece tranquilizadora e madura”, disse Rosa. “Finalmente alguém que está preparado para assumir a responsabilidade pelas coisas e mostrar alguma liderança.”

Sua biógrafa disse que May não é “insensível, cega ou robótica” em relação às críticas que recebeu. “Ela só tem uma forte capacidade de superar esse tipo de coisa”, disse ela. O que May quer é respeito, o que é mais importante para ela do que ser amada, disse Rosa. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* SÃO JORNALISTAS

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