REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
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Cenário: Alto comparecimento sela unidade de ocasião da oposição

Enquanto buscam um referendo revogatório do mandato de Nicolás Maduro, os líderes da coalizão opositora precisam levar em conta a janela relativamente estreita para conseguir uma nova eleição – pela Constituição venezuelana, apenas uma deposição ainda este ano provocaria tal efeito

Felipe Corazza, O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2016 | 05h00

A Mesa da Unidade Democrática (MUD) conseguiu novamente encher as avenidas de Caracas com uma marcha significativa contra o chavismo e, especialmente, contra o relógio. Enquanto buscam um referendo revogatório do mandato de Nicolás Maduro, os líderes da coalizão opositora precisam levar em conta a janela relativamente estreita para conseguir uma nova eleição – pela Constituição venezuelana, apenas uma deposição ainda este ano provocaria tal efeito. De 2017 em diante, Maduro seria substituído por seu vice – o atual é Aristóbulo Istúriz.

O comparecimento elevado da militância, apesar das ameaças de repressão repetidas pelo presidente e de um decreto promulgado no ano passado autorizando as Forças Armadas a utilizarem munição real contra manifestantes, pesa a favor dos opositores. Por outro lado, a presença de um número elevado de pessoas no ato impõe à MUD a necessidade de encarar um de seus maiores problemas: a desunião interna.

Quando atos contra o chavismo foram convocados isoladamente por frações da coalizão – como a liderada por María Corina Machado –, o comparecimento não foi significativo. Como termômetro do equilíbrio interno da aliança, atos convocados por Henrique Capriles, candidato derrotado à presidência em 2012, por Chávez, e 2013, por Maduro, conseguiram adesão mais alta. Com as baterias do governo se voltando contra Leopoldo López, em 2014, durante o fracassado movimento conhecido como La Salida, outra frente de convocação se abriu. 

A prisão de López aumentou seu peso político dentro da liderança da coalizão – sua mulher, Lilian Tintori, afirmou durante uma visita a São Paulo que o marido está pronto e disposto a servir ao país. Ela respondia a uma pergunta sobre a possibilidade de, fora da cadeia, López concorrer com Capriles para ser o nome da MUD em uma hipotética eleição presidencial.

Após a vitória esmagadora da coalizão na eleição parlamentar de dezembro, menos de 12 horas se passaram até que praticamente todos os líderes de correntes internas da MUD se atacassem velada ou abertamente. No comando da Assembleia Nacional, o veterano Henry Ramos Allup também tem pretensões de liderar o país no pós-chavismo.

Com uma trama densa e complexa de desejos políticos divergentes, a MUD teve ontem uma demonstração de como será crucial superar a cisão interna para conseguir, efetivamente, mobilizar a população em meio à profunda crise venezuelana. Sem um projeto comum mínimo, a oposição se arrisca a perder rapidamente seu cacife político na hipótese de conseguir, finalmente, revogar o mandato de Maduro e disputar nova eleição.

 

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