Juan Ignacio Roncoroni/EFE
Juan Ignacio Roncoroni/EFE

Cenário: Animosidade complica relações entre Brasil e Argentina, duas grandes economias

Jair Bolsonaro, conservador que admira Donald Trump, é extremamente oposto em termos ideológicos a Alberto Fernández, que foi funcionário dos governos de esquerda de Cristina e Néstor Kirchner

Marina Lopes / Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2019 | 06h00

Chefes de Estado de toda a América Latina estarão hoje em Buenos Aires para a posse de Alberto Fernández. Mas o presidente do mais importante vizinho da Argentina planeja manter distância. À medida que a América do Sul derrete, suas duas maiores economias vinham sendo um oásis de relativa calma, administradas por presidentes alinhados, cooperando nas áreas de finanças, comércio e segurança. Agora, a crescente animosidade pessoal entre Jair Bolsonaro e Fernández está ameaçando essa estabilidade.

Bolsonaro chamou Fernández e sua vice-presidente, Cristina Kirchner, de “bandidos esquerdistas” e disse que sua eleição ameaça o bloco comercial regional do Mercosul. Fernández chamou Bolsonaro de misógino e racista. “Atualmente há uma verdadeira fragmentação na região, simbolizada e impulsionada pela fissão entre Brasil e Argentina”, disse Benjamin Gedan, vice-diretor do Programa Latino-Americano do Wilson Center, em Washington. “Você pode descrever o que está acontecendo com o Brasil e a Argentina como uma rivalidade regional, mas a realidade é que Bolsonaro é um extremista, e isso não apenas limita o soft power do país, como pode gerar algum conflito.”

Embora Argentina e Brasil tenham perseguido objetivos políticos divergentes, nas últimas décadas navegaram em águas ideológicas semelhantes, emergindo de ditaduras militares para estabelecer democracias bem-sucedidas, elegendo líderes esquerdistas durante a maré rosa da América Latina no início dos anos 2000 e, mais recentemente, apoiando políticos conservadores que buscam mercados abertos e acordos de livre-comércio.

Mas Bolsonaro, conservador que admira Donald Trump, é extremamente oposto em termos ideológicos a Fernández, que foi funcionário dos governos de esquerda de Cristina e do marido dela, Néstor Kirchner. Fernández, visto como mais moderado que Cristina, disse que repensará um acordo de livre-comércio com a Europa e criticou os EUA por aplaudirem a saída de Evo Morales da Bolívia.

Os dois países enfrentam diferentes desafios econômicos. A Argentina, que sofre com a inflação crescente, está contornando seu nono calote da dívida soberana. O Brasil está tentando ressuscitar a economia derrubando barreiras comerciais.

Estão em jogo US$ 25 bilhões em comércio entre os dois países, o livre trânsito de pessoas e mercadorias e cadeias produtivas integradas em toda a região. O Brasil é o principal mercado de exportação da Argentina, que é o principal consumidor de bens industriais do Brasil.

O cisma também está comprometendo anos de cooperação em questões regionais. Fernández diz que retirará a Argentina do Grupo de Lima, bloco de governos latino-americanos críticos ao presidente socialista da Venezuela, Nicolás Maduro. Bolsonaro ameaçou suspender a Argentina do Mercosul se Fernández não seguir as políticas de Mauricio Macri, ou retirar o Brasil do bloco se a Argentina não concordar em reduzir as tarifas de importação. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*É CORRESPONDENTE

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