Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Cenário: Após resultado, reação de Pequim pode ser mais dura

Ampla maioria na eleição de Hong Kong sinaliza mais atritos com Pequim

Keith Bradsher / NYT , O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 06h00

HONG KONG - No período que antecedeu às eleições locais em Hong Kong, no domingo, Pequim e seus aliados na cidade estavam entendendo o voto como uma maneira de ouvir a voz da maioria silenciosa após quase seis meses de protestos cada vez mais violentos contra o governo. Agora, essa maioria falou – e foi esmagadoramente contra Pequim e seus aliados.

O campo da situação, apoiado por Pequim, sofreu uma derrota impressionante nas eleições para os conselhos distritais, com os defensores da democracia arrebatando 77%% das cadeiras. Pequim e seus aliados em Hong Kong, entre eles Carrie Lam, a governante em apuros, agora precisarão lidar com essa retumbante e escancarada demonstração de apoio ao campo da democracia e ao movimento de protesto.

“Esta eleição não diz respeito apenas às questões da qualidade de vida, é também um referendo direto sobre a legitimidade desse regime”, disse Cary Lo, conselheiro distrital recém-eleito que apoia a democracia, na segunda-feira. “Indicou que o governo de Carrie Lam perdeu a legitimidade”.

Todos concordam com um fato: a ampla maioria resultante das eleições coloca o Partido Comunista da China sob pressão ainda maior diante do movimento de protesto. As discordâncias estão no que isso pode significar.

Para o campo pró-democracia, isso significa atender às reivindicações da população de Hong Kong em geral por mais transparência no governo. Outros políticos estão preocupados com a possibilidade de a votação ser vista por Pequim como um sinal de que o território está se afastando ainda mais de suas garras, o que apontaria para uma reação mais dura.

Os manifestantes começaram sua campanha em junho, contra um projeto de lei, agora retirado, que permitiria extradições para a China continental. Desde então, suas demandas se transformaram em reivindicações mais amplas por expansão da democracia e investigação de suposta brutalidade policial.

Pequim e seus aliados locais estavam convencidos de que o movimento de protesto havia contrariado a população em geral ao bloquear estradas e linhas ferroviárias e assustar fregueses e turistas. O triunfo dos democratas nas eleições mostrou que os moradores de Hong Kong permanecem amplamente solidários ao movimento.

Os conselhos têm muito pouco poder efetivo. Servem para aconselhar o governo em questões locais, como a localização dos pontos de ônibus, e não em grandes questões, como a democracia. Mas a vitória dos democratas também significa que eles ganharão mais voz no comitê que virá a escolher o chefe do Executivo do território em 2022.

Os defensores da democracia estavam entusiasmados na segunda-feira, quando deixaram claro que continuariam desafiando as políticas do governo e se solidarizando com os manifestantes. Eles caminharam juntos para a Universidade Politécnica de Hong Kong, onde dezenas de manifestantes estavam cercados pela polícia havia mais de uma semana.

“Salve nossos irmãos e irmãs”, bradou Owan Li, um conselheiro distrital recém-eleito que também é membro do conselho de administração da universidade. “Mostramos à força policial que os campi das universidades não podem ser pisoteados”.

Movimento ganhou impulso de confiança

A vitória nas eleições para o conselho distrital deu ao movimento pró-democracia um impulso de confiança – e um novo apoio financeiro para seus ativistas (os membros do conselho ganham cerca de US$ 50 mil por ano pelo emprego de meio período). O campo agora analisará como aproveitar esse momento para angariar apoio para as eleições legislativas no ano que vem.

O campo pró-Pequim da cidade, por outro lado, acusou o golpe da derrota. Os líderes do principal partido político pró-Pequim se reuniram na segunda-feira para se curvarem em um pedido de desculpas televisionado. Uma federação de sindicatos pró-Pequim que sofreu duras perdas nas eleições distritais do domingo culpou veementemente as políticas de Lam, procurando se distanciar do governo impopular.

Lam deu poucas pistas sobre seu próximo passo, afirmando em comunicado que o governo de Hong Kong “ouvirá as opiniões dos membros dos conselhos com humildade e seriedade”.

Agora resta saber como Pequim irá reagir. E uma possibilidade é: não reagirá.

Os líderes em Pequim podem simplesmente ignorar o resultado das eleições e manter sua linha dura contra o movimento de protesto, que eles denunciam como obra das forças separatistas apoiadas pelo exterior.

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Lau Siu-kai, vice-presidente da Associação Chinesa de Estudos de Hong Kong e Macau, um poderoso grupo consultivo de Pequim, disse que o Partido Comunista já havia decidido, em uma reunião de alto escalão no mês passado, que supervisionaria Hong Kong mais de perto. É pouco provável que Pequim permita que o resultado das eleições locais afete essa decisão e que ceda às demandas dos manifestantes, disse ele em entrevista por telefone, na segunda-feira.

“A essência da decisão é fortalecer a liderança de Pequim no governo de Hong Kong e reforçar a proteção da segurança nacional”, disse ele. Tentando ver algo positivo em uma enorme derrota eleitoral, Lau disse que, com os democratas assumindo o controle de 17 dos 18 conselhos distritais da cidade – em comparação com nenhum antes – a oposição pode achar que o ativismo nos conselhos seja uma alternativa à violência.

Na China, a derrota do campo pró-Pequim só poderia ser vista como um repúdio ao jugo do partido sobre a região semiautônoma, apenas algumas semanas depois de o presidente Xi Jinping dar apoio entusiasmado a Lam.

A reação do governo chinês na segunda-feira foi surpreendentemente muda, como se as autoridades estivessem surpresas com os resultados. A rede de televisão estatal da China cobriu extensivamente a votação no domingo, mas depois ficou em silêncio quando ficou claro qual seria o resultado.

Embora não definam os resultados como vitória ou derrota, vários meios de comunicação estatais acusaram forças estrangeiras hostis de ajudar a oposição. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores disse que Pequim não aceitaria nenhum questionamento à sua soberania sobre o território. “Hong Kong é Hong Kong da China”, disse Geng Shuang, porta-voz do ministério.

Bonnie S. Glaser, diretora do Projeto Poder da China do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, disse por telefone que os resultados em Hong Kong mostraram como a liderança comunista não sabe entender o sentimento popular e os processos democráticos.

“Sempre que a China tentou lidar com a democracia, fracassou”, disse ela. “Eles são muito ruins para compreender as democracias e o funcionamento das sociedades democráticas." / RENATO PRELORENTZOU

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