Cenário: Até os inimigos do chavismo se preocupam com sanções dos EUA

Na Venezuela, alguns dos opositores ao líder chavista avaliam que se os EUA restringirem a compra e venda de petróleo do país poderá dar a Maduro alguém para responsabilizar pela crise

Anthony Faiola / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2017 | 05h00

É a “opção nuclear” contra a Venezuela: um embargo do petróleo que atingiria o governo de Nicolás Maduro no ponto mais sensível: seu bolso. À medida que a crise em Caracas se intensifica, essa opção está cada vez mais próxima de ser adotada. O governo de Donald Trump confirmou na semana passada que “todas as opções estão na mesa” - incluindo a proibição de importação de petróleo da Venezuela - caso Maduro não cancele a formação de uma Assembleia Constituinte.

Os Estados Unidos já impuseram sanções contra autoridades venezuelanas. Em fevereiro o Departamento do Tesouro congelou ativos do vice-presidente Tareck El Aissami, acusado de envolvimento com o narcotráfico. Mas o embargo do petróleo é um instrumento muito mais poderoso.

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O governo Maduro, apesar de toda a sua retórica antiamericana, depende da venda da commodity para os EUA para sobreviver. Com o colapso de grande parte da indústria durante o governo socialista, o petróleo hoje representa 95% das exportações do país. E o mais importante, muitos dos seus clientes não pagam em moeda forte. As exportações para a China são pagas na forma de empréstimos. O envio de petróleo para Cuba é feito a título de solidariedade para com o Estado socialista irmão.

Resta apenas os EUA, que compram aproximadamente um terço da produção venezuelana, ou 2,1 milhões de barris por dia. Como o petróleo bruto venezuelano é muito denso, Caracas também tem de importar o produto americano para processar seu petróleo destinado à exportação - o que torna a relação com os americanos ainda mais vital.

Por todas essas razões, argumentam os republicanos, um bloqueio do petróleo atingiria diretamente Maduro e obrigaria o governo a iniciar um diálogo sério com a oposição com vistas a eleições antecipadas.

Pessoas próximas das conversações afirmam que algumas autoridades do governo Trump defendem uma posição dura, incluindo até o embargo, mas os departamentos de Energia e de Estado insistem em opções menos violentas.

Na Venezuela, contudo, mesmo alguns inimigos de Maduro se mostram cautelosos, alertando que um embargo implica sérios riscos. Eis algumas das preocupações: o embargo pode fazer com que os EUA indiretamente acabem apoiando um presidente com tendências autoritárias que odeia os americanos. E as mesmas vendas de petróleo também vêm ajudando a sofredora população venezuelana.

O governo usa a moeda forte proveniente das suas vendas de petróleo para para financiar as importações de alimentos e remédios, que hoje estão em falta. Um embargo rapidamente exacerbará a inflação já galopante e também a escassez de produtos.

“Seria uma catástrofe para o país porque as pessoas passarão fome”, disse Angel Alvarado, deputado e membro do partido de oposição Primero Justicia. Ele observou que a Venezuela já é afetada pelos preços baixos do petróleo no âmbito internacional. “O bloqueio significaria menos dinheiro para importar alimentos.”

Mas outros analisam a situação de modo diferente: com o embargo Maduro terá quem culpar. Uma das grandes razões pelas quais a oposição está confiando nas ruas é que as pessoas culpam a corrupção e a má administração pela escassez de alimentos e a alta inflação. Se os americanos aprovarem um embargo, Maduro terá rapidamente um bode expiatório.

Numa região que já tem uma longa história de intervencionismo americano, mesmo os líderes de países vizinhos que criticam Maduro poderão ter mais dificuldade para condená-lo se ele transformar a situação numa disputa entre América Latina e Estados Unidos.

Maduro já vem procurando tirar vantagem da situação. “Mobilizaremos uma grande força anti-imperialista em 30 de julho e derrotaremos todos os planos intervencionistas do império e seus amigos na América Latina e no resto do mundo”, disse recentemente. O chavista acusa potências estrangeiras e venezuelanos ricos pela crise política e econômica que vive o país.

Com o tempo a Venezuela poderá encontrar novos clientes e os EUA poderão enfrentar dificuldades econômicas também.

Reorganizar uma cadeia de suprimento não é tão fácil e durante algum tempo o embargo do petróleo provavelmente afetará profundamente a Venezuela. Mas o governo poderá compensar parte das vendas perdidas direcionando as exportações para a Índia, um novo mercado potencial. E se o governo encontrar substitutos, os EUA correm o risco de perder um importante instrumento de pressão.

Ao mesmo tempo, a perda do petróleo venezuelano terá um impacto negativo nos Estados Unidos. Afetará as refinarias no Texas e na Louisiana cuja atividade está voltada para o refino do petróleo pesado produzido pelo país caribenho. Além disto, os consumidores americanos também terão de encarar aumentos nos preços da gasolina, mesmo que modestos, uma vez que as refinarias desejarão compensar os custos de importações de outros lugares.

Além do que, voltar a importar petróleo da Venezuela se Maduro cair, quando a ajuda dos EUA seria então vital para a recuperação do país, não seria nada fácil.

Então, quais são as alternativas? Carlos Vecchio, estrategista político do partido de oposição Voluntad Popular, encontrou-se recentemente com autoridades americanas e propôs várias alternativas. Entre elas, se destacam a ideia de não congelar as contas e ativos de membros corruptos do governo, mas publicar seus nomes de modo que a população venezuelana possa enxergar diretamente as evidências de corrupção; bloquear a venda de dívida venezuelana e outras transações do governo no sistema financeiro americano sem aprovação do Legislativo venezuelano; e proibir as empresas americanas de se envolverem em futuros projetos conjuntos no setor petrolífero venezuelano sem aprovação do Legislativo, forçando Maduro a frear seus ataques contra o Parlamento.

Segundo analistas, o governo Trump pode anunciar uma decisão a respeito nesta semana. Maduro e a população venezuelana estão aguardando. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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