Kevin Lamarque/Pool via AP
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Cenário: Biden deve arcar com a responsabilidade de punir o governo russo

Silêncio de Trump sobre ataque cibernético sugere que qualquer retaliação será deixada nas mãos do futuro presidente

Eric Tucker, Frank Bajak e Matthem Lee*, Associated Press

19 de dezembro de 2020 | 03h00

Todos os dedos apontam para a Rússia como fonte do pior ataque hacker contra agências governamentais dos EUA. Mas o presidente Donald Trump, há muito temeroso de culpar Moscou pelas invasões cibernéticas, continua calado. A falta de qualquer declaração com o propósito de responsabilizar a Rússia lança dúvidas sobre a possibilidade de uma resposta rápida e sugere que qualquer retaliação – seja por meio de sanções, acusações criminais ou ações cibernéticas – será deixada nas mãos do futuro governo do presidente eleito Joe Biden.

“Imagino que o próximo governo vá querer um menu de quais são as opções para, então, escolher”, disse Sarah Mendelson, professora de políticas públicas da Carnegie Mellon University e ex-embaixadora dos EUA no Conselho Econômico e Social da ONU.

Sem dúvidas, não é incomum que os governos se abstenham de fazer acusações públicas por ações de hackers até que tenham evidências suficientes. Nesse caso, as autoridades americanas dizem que só recentemente tomaram conhecimento de violações devastadoras em várias agências governamentais, nas quais agentes de inteligência estrangeiros permaneceram por até nove meses sem serem detectados. Mas a resposta de Trump, ou a falta dela, está sendo observada de perto por causa de seu esforço infrutífero para derrubar os resultados da eleição de novembro e por sua relutância em reconhecer que hackers russos interferiram em seu favor na eleição presidencial de 2016.

Não está claro exatamente qual ação Biden pode tomar ou como sua resposta pode ser moldada em razão das críticas de que o governo Barack Obama não reagiu com agressividade suficiente para impedir a interferência em 2016. Em comunicado na quinta-feira, Biden deu algumas pistas dizendo que seu governo será proativo para prevenir ataques cibernéticos e impor retaliações.

As declarações do governo americano até agora não mencionaram a Rússia. Questionado sobre o envolvimento russo em uma entrevista na segunda-feira, o secretário de Estado, Mike Pompeo, reconheceu que a Rússia tenta constantemente invadir os servidores americanos, mas logo se voltou para ameaças da China e da Coreia do Norte.

Dentro do governo existem sinais de um reconhecimento claro da gravidade da agressão, que ocorreu depois que espiões cibernéticos de elite injetaram um código malicioso no software de uma empresa que fornece serviços de rede. Uma resposta pode começar com uma declaração pública de que a Rússia é considerada responsável, uma avaliação amplamente compartilhada pelo governo americano e pela comunidade de segurança cibernética. Mas essas declarações geralmente não são imediatas.

Acusações e repreensões públicas sempre fazem parte do manual. O ex-conselheiro de Segurança Interna de Trump, Thomas Bossert, escreveu em um artigo no New York Times que “os EUA, e idealmente seus aliados, devem atribuir pública e formalmente a responsabilidade por esses ataques”. O senador republicano Mitt Romney disse que o fato de a Casa Branca não se pronunciar era “extraordinário”.

Outra possibilidade é uma acusação federal, pressupondo que os investigadores possam acumular evidências suficientes para implicar hackers individuais. Esses casos exigem muita mão de obra e costumam levar anos e, embora possam acarretar poucas chances de processo judicial, o Departamento de Justiça considera que têm poderosos efeitos dissuasivos.

As sanções, uma punição consagrada, podem ter ainda mais peso e quase certamente serão consideradas por Biden. Expor a corrupção do Kremlin – e até mesmo como o presidente russo, Vladimir Putin, acumula e esconde sua riqueza – pode representar uma retaliação ainda mais temível. Os EUA também podem retaliar no ciberespaço, caminho facilitado por uma autorização do governo Trump que já resultou em algumas operações. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

* SÃO JORNALISTAS

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