Doug Mills/NYT
Doug Mills/NYT

Cenário: Caso da Crypto reflete dilema na produção de dados sensíveis 

Governos compradores pagavam pelos sistemas destinados a codificar seus segredos que traziam embutidas portas de acesso para os espiões americanos e alemães

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 05h00

Em 1977, a Crypto AG atendeu a uma determinação de seus dois acionistas, a Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos, e o Serviço Federal de Inteligência (BND), da então Alemanha Ocidental, para oferecer novas máquinas de criptografia à distinta clientela – ditaduras do mundo inteiro, particularmente as da América Latina, da África, da Ásia e do Oriente Médio.

Bons de conversa, os agentes comerciais convenceram os diversos serviços de inteligência a trocar os equipamentos CX-52, com 25 anos de uso, por versões mais modernas. Os CH-4605 custavam US$ 1,8 milhão, tinham maior capacidade, eram mais velozes e incorporavam certos recursos eletrônicos. Coisa básica para os padrões atuais. 

Entretanto, há 42 anos, os novos processadores eram a expressão do estado da arte. A tecnologia do projeto melhorava o desempenho dos equipamentos – e, claro, facilitava a quebra dos códigos internos pela ação pirata das duas grandes organizações controladoras. Uma manobra e tanto no delicado jogo da bisbilhotagem mundial: os governos compradores pagavam pelos sistemas destinados a codificar seus segredos e que traziam embutidas portas de acesso para os espiões americanos e alemães.

Os problemas começaram no fim do verão de 1977. O então presidente americano, Jimmy Carter, um democrata, conduzia uma política externa de condenação às prisões arbitrárias, à tortura e às execuções. A Operação Condor, reunindo governos militares sul-americanos, na troca de informações, no assassinato de líderes de oposição e na captura ilegal de refugiados era denunciada em Washington, Paris e Londres. 

A Crypto AG era fornecedora da Condortel, o ramo empresarial da organização. Em março, o então presidente do Brasil, o general Ernesto Geisel, rompeu um acordo bilateral de cooperação militar com os EUA que já durava 25 anos. Mais tarde, Geisel explicaria a medida: “O Congresso americano queria ser juiz dos problemas dos direitos humanos no Brasil. Eu não poderia aceitar isso. Era uma intromissão.” 

Na tentativa de relativizar a importância do acordo, Geisel revelou que o Brasil projetava, desenvolvia e construía blindados e lançadores de foguetes, “além de cerca de 120 outros equipamentos militares”, que eram exportados para países como Iraque, Líbia e Arábia Saudita. O presidente também mandou suspender as importações do setor.

Um oficial da reserva do Exército brasileiros, ex-analista de inteligência nos anos 70, ressalta que a discussão ética em torno do episódio da Crypto “vai ao nervo exposto de um dilema presente no trabalho da produção de dados sensíveis”. “Os excessos de um regime ou de um serviço, detectados no processo, devem ser revelados?”, questiona. Para o especialista, “o resto da história, a venda das máquinas e a manipulação dos informes, é apenas circunstancial.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.