Frederik Von Erichsen/EFE
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Cenário: Chanceler alemã luta para não ceder votos à extrema direita

Merkel, que pediu na terça-feira ao partido para ajudá-la a conquistar um quarto mandato de chanceler nas eleições do próximo ano, disse à N-TV, após reunião de dois dias do CDU, que migrantes criminosos têm de ser presos e processados

Paul Carrel* - Reuters, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2016 | 05h00

Conservadores partidários da chanceler alemã, Angela Merkel, endureceram o discurso sobre a integração social de migrantes, aprovando uma resolução contra o casamento forçado, os chamados crimes de honra e reprimindo a dupla cidadania. Um dia depois de Merkel propor a proibição do véu muçulmano completo “quando for legalmente possível”, seu partido, a União Democrata Cristã (CDU) reforçou essa mensagem e salientou os valores que quer ver adotados pelos 890 mil migrantes que entraram na Alemanha no ano passado.

Merkel, que pediu na terça-feira ao partido para ajudá-la a conquistar um quarto mandato de chanceler nas eleições do próximo ano, disse à N-TV, após reunião de dois dias do CDU, que migrantes criminosos têm de ser presos e processados. Mas ela ressalvou: “Não podemos tirar conclusões sobre todos os que buscam proteção”.

Num sinal de como a política de “braços abertos” perdeu força desde o fluxo migratório de 2015, Jens Spahn, vice-ministro das Finanças e membro da cúpula do CDU, disse que as barreiras legais para a deportação precisam ser reduzidas. “Os que não forem refugiados, não estejam fugindo da guerra ou de perseguições no Iraque ou na Síria, devem voltar para seus países – e isso tem de ser feito de modo consistente”, disse ele à rádio Deutschlandfunk.

Adiantando-se às eleições do próximo ano, o CDU tenta retomar o relacionamento com seus aliados da Baviera, a União Social-Cristã (CSU), que é dura com a imigração, para recuperar o apoio que perdeu para a Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita. Merkel não quer se afastar muito do centro. 

Num indício de que a base do CDU está se deslocando para a direita, membros do partido adotaram uma moção que obriga jovens que cresceram na Alemanha, mas são filhos de pais estrangeiros, a decidirem aos 23 anos se assumem a nacionalidade alemã ou a dos países de seus pais. Os principais líderes do CDU exigiram dos membros do partido que rejeitem a moção, retomando um compromisso com os Social-Democratas (SPD), partido menor da coalizão governante, que permite aos interessados terem dois passaportes. 

Merkel mostrou que não marcha totalmente alinhada com a base de seu partido, insistindo que o acordo com o SPD não será abandonado antes das eleições do próximo ano e a campanha não deve focar nesse tema. Recentemente, o jornal Bild qualificou a reeleição de Merkel para liderar novamente o partido como uma “pequena vitória”. Segundo pesquisa do instituto Emnid, divulgada domingo, o apoio à coalizão CDU-CSU está em 37%, maior porcentual em dez meses e 15 pontos à frente do SPD. 

Em busca do apoio perdido dos extremistas da AfD, membros do CDU adotaram durante a conferência uma medida estipulando que o casamento forçado e os assassinatos pela honra sejam “processados rigorosamente”. A polícia alemã prendeu nesta semana um imigrante iraquiano suspeito de estupro, poucos dias depois de um refugiado afegão ser preso em outro caso de violação e assassinato.

A Alemanha registrou no último ano 1.475 casamentos de crianças. O Ministério da Justiça informou que suas estatísticas mais recentes mostram que houve uma condenação por casamento forçado em 2014, mas que isso não reflete necessariamente a real incidência desse tipo de crime. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É JORNALISTA

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