REUTERS/Yoruk Isik
REUTERS/Yoruk Isik

Cenário: Chegada de fragata russa altera equilíbrio na costa síria

Armada com mísseis de cruzeiro Kalibr, que podem atingir alvos a até 2.300 km, e mísseis antinavio Oniks, com 300 km de alcance, Almirante Grigorovich é uma máquina de guerra capaz de fazer diferença

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2017 | 03h00

Na quinta-feira, a fragata lançadora de mísseis Almirante Grigorovich já estava em deslocamento desde o Mar do Norte em direção à base russa de Tartus, na Síria, quando houve o ataque da Marinha dos Estados Unidos contra a base aérea de Shayrat – 59 mísseis Tomahawk vingando as 86 mortes causadas pelo bombardeio químico na cidade de Khan Shikhoun. Ao menos 25 das vítimas no bombardeio com gás sarin, cuja responsabilidade foi atribuída pelos americanos ao regime de Bashar Assad, eram crianças. 

O navio russo de 4.100 toneladas navegava sem pressa, a 26 km/hora, quando recebeu a ordem de seguir em velocidade máxima para o Mar Mediterrâneo. E foi aí que a F-745 mostrou serviço: com as duas turbinas e os dois motores exigidos no regime máximo de segurança, a embarcação disparou a quase 60 km/hora e chegou ao porto militar com um dia de antecipação, segundo disse ontem o contra-almirante Viktor Bursuk, vice-chefe da Marinha. 

Armada com mísseis de cruzeiro Kalibr, que podem atingir alvos a até 2.300 km, e mísseis antinavio Oniks, com 300 km de alcance, é uma máquina de guerra capaz de fazer diferença. A fragata vai se integrar à flotilha de seis unidades que o presidente Vladimir Putin está mantendo na área em apoio ao regime de Bashar Assad e no combate ao Estado Islâmico. As missões são lançadas a partir de Tartus, uma instalação militar russa no território sírio em atividade há 46 anos. Desde 2015 a aviação de Moscou ocupa também o complexo de Hmeymim, no interior do país.

A Grigorovich é muito nova, construída no estaleiro Yantar entre 2010 e 2016. Rápida como as similares das frotas de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, a embarcação apresenta um grau de sofisticação tecnológica que a força naval não conseguia atingir desde o desmantelamento da União Soviética, em 1991. O casco mede 124 metros. O navio leva 200 pessoas a bordo – 150 tripulantes, um grupo de mergulhadores, um time das forças especiais e mais o esquadrão aéreo, que cuida do helicóptero de bordo, configurado para múltiplo emprego. 

Todos os sistemas são digitais, muito modernos. A fragata é fortemente informatizada. O armamento principal de ataque é o Kalibr, com ogiva de 400 a 500 quilos, cobrindo distâncias entre 1.300 km e 2.300 km. Pode ser acoplado à central eletrônica terrestre Bastion, para designação de objetivos eventualmente fora do alcance dos recursos da F-745. O conjunto é completado por um canhão de 100 mm, mísseis antiaéreos, metralhadoras pesadas, foguetes não guiados e torpedos de 533 mm. 

O grupo russo estacionado no Mar Mediterrâneo tem alto poder de fogo. Nos últimos meses fez parte da força-tarefa o porta-aviões Almirante Kuznetsov, revisto e entregue com melhorias em 2015. O gigante de 55 mil toneladas, 306 metros, 40 aviões de ataque e 1.993 tripulantes tem 32 anos e antes de ser salvo do desmanche por ordem direta de Putin, correu sério risco de virar sucata. 

Também foi intencionalmente identificado no atracadouro da base russa em Tartus o único exemplar em operação da antiga frota de seis mega submarinos atômicos Typhoon, o K-208 Dmitri Donskoi – impressionantes 48 mil toneladas servindo de plataforma para 20 mísseis nucleares intercontinentais Bulava com capacidade para carregar até 10 ogivas cada um. A tripulação do Donskoi é de 160 marinheiros e técnicos.

O centro Yanstar está construindo agora a quinta fragata da classe Grigorovich. A Índia comprou quatro unidades da versão de exportação – duas delas serão feitas por empresas especializadas indianas. A Rússia não revela valores. Especialistas do mercado internacional estimam que o preço de aquisição possa estar na linha entre US$ 550 milhões e US$ 600 milhões. 

Ontem, a chefe das operações das Forças Armadas americanas na Europa e na África, almirante Michelle Howard, afirmou que a atividade naval russa em águas do Mediterrâneo “supera os níveis da Guerra Fria”, acrescentando que a natureza das manobras ordenadas pelo Kremlin pode acabar “dividindo e distraindo” as atividades da Otan, segundo relatou a agência Reuters. Como exemplos, a almirante – que também chefia o Comando das Forças Aliadas da Otan – citou o envio do porta-aviões Kuznetsov à região, o aumento da frequência das patrulhas russas no Atlântico Norte e no Ártico, o envio de submarinos a regiões não programadas e movimentos no Mar Negro. Apesar das afirmações de Michelle, ainda segundo a Reuters, o volume de forças russas despachadas para o Mediterrâneo ainda é significativamente inferior ao movimento que se registrou no auge da Guerra Fria.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.