REUTERS/John Vizcaino
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Cenário: Como um ex-refém veria o acordo com os guerrilheiros?

A primeira pessoa com quem gostaria de falar quando ouvi a notícia de que o governo da Colômbia e as Farc haviam firmado um acordo de paz era meu pai

Annie Correal* / NYT, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2016 | 05h00

A primeira pessoa com quem gostaria de falar quando ouvi a notícia de que o governo da Colômbia e as Farc haviam firmado um acordo de paz era meu pai. Em 1999, meu pai, Jaime Correal Martinz, foi sequestrado pela guerrilha. Capturado por uma gangue quando voltava para casa do trabalho, foi levado para as montanhas fora de Bogotá e entregue ao grupo rebelde que o manteve refém, exigindo pagamento de resgate, por mais de oito meses.

Enquanto minha madrasta, Samantha, negociava com os rebeldes e cuidava de meus irmãos Nicolas e Lorena em Bogotá, e eu concluía meu segundo ano de faculdade nos EUA, meu pai era levado de campo em campo, escondido na selva enquanto aviões militares sobrevoavam a região. Ele dormiu em 38 lugares diferentes.

Ele não foi sequestrado por alguma razão particular. Na época, os sequestros para obtenção de resgate eram constantes na Colômbia, uma das maneiras pelas quais os rebeldes financiavam a insurgência, juntamente com o tráfico de cocaína, e ele era considerado um homem rico. O que acharia meu pai do acordo de paz firmado com seus sequestradores? No período em que esteve nas mãos dos rebeldes, sua empresa de viagens fechou. Perdemos tudo. E nos colocávamos entre aqueles que tiveram sorte.

A notícias de que as Farc concordaram em entregar as armas permanentemente, se dissolverem e se juntarem ao sistema político é motivo de comemoração por alguns na Colômbia. A paz, sonho ilusório de milhões que marcharam pelas ruas, parece finalmente estar ao alcance. Mas, no dia 2 de outubro, quando os colombianos finalmente devem aprovar o acordo de paz nas urnas, a decisão não será simples. Com base nesse acordo, os combatentes das Farc serão anistiados por crimes como tráfico de drogas. O acordo enfrenta uma forte oposição política e muitos colombianos estão furiosos.

Ao voltar para casa, meu pai raramente se referia ao tempo em que foi mantido preso pelas Farc. Certa vez, num supermercado, apontou para uma embalagem de bolachas. “Era o que nos davam para comer durante as marchas.” Uma outra vez, disse-me que as botas de borracha eram bom travesseiro.

Meu pai viu a complexidade do conflito de perto: a capacidade das Farc de serem cruéis, mas também a impotência, se não inocência, de alguns combatentes. Alguns dos guardas armados tinham somente 13 anos. Muitos foram retirados de suas casas e obrigados a se juntar ao grupo ainda crianças. Um deles ajudou para sua libertação.

Quando meu pai completou 265 dias em cativeiro, um tiroteio irrompeu perto de sua tenda. Era o Exército, com cerca de 60 soldados. Quando o ruído dos tiros parou, um soldado, usando uma bandana chegou perto deles e disse: “vocês estão livres.”

Depois do resgate, minha família imediatamente se mudou para o Panamá. Raras vezes voltamos à Colômbia, mas meu pai continuou acompanhando o noticiário. Nos anos seguintes, as Farc sofreram uma longa série de derrotas, que acabaram levando às negociações de paz. Durante o processo, meu pai mostrava-se cético com relação à guerrilha, mas otimista. 

O acordo é algo que ele, uma vítima das Farc, endossaria? Infelizmente não é possível falar com ele e lhe perguntar. Meu pai morreu em junho, depois de vários AVCs, aos 63 anos. No final, o conflito sobreviveu a ele, mas apenas por alguns meses. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA

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