REUTERS/Shannon Stapleton
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Cenário: Como uma paralisação do governo afeta a vida dos americanos?

A vasta máquina do governo federal começou a ratear, mas, como acontece com um porta-aviões quando suas hélices param de girar, grande parte da burocracia continuará funcionando por algum tempo

Mark Landler, New York Times, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 05h30

Um batalhão de infantaria da Guarda Nacional da Carolina do Norte cancela manobras planejadas por um ano. Amostras de vírus de gripe deixam de ser coletadas e testadas. Uma equipe mínima se prepara para responder a um dilúvio de perguntas sobre a nova tabela do imposto de renda. 

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A vasta máquina do governo federal começou a ratear na manhã de sábado, horas após o Senado não conseguir aprovar um acordo para concessão de recursos. Mas, como acontece com um porta-aviões quando suas hélices param de girar, grande parte da burocracia continuará funcionando por algum tempo e alguns serviços essenciais, como Forças Armadas, correios e previdência social, não sofrerão interrupção. 

Dezenas de milhares de funcionários federais foram despertados com a informação de seus departamentos (ministérios) de que, salvo por uma ação do Congresso, eles entrarão em férias coletivas no início da próxima semana. A paralisação não será uniforme: o Departamento de Educação vai deixar em casa 3.934 funcionários, enquanto no Pentágono toda a força uniformizada, e metade dos funcionários civis, continuarão a trabalhar. Mas, por enquanto, nem mesmo as tropas continuarão sendo pagas. 

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Na Casa Branca, três quintos da equipe que serve ao presidente Donald Trump entrarão em licença provisória. O Conselho de Segurança Nacional trabalhará a plena força, mas cerca de 60% dos funcionários mais próximos ao presidente entrarão em férias coletivas. Outros continuarão indo à Casa Branca ou trabalharão em casa com computador, mas por um máximo de quatro horas diárias, e apenas para manter a ordem. 

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Especialistas em funcionamento do governo disseram que a sensação de confusão e quebra de rotina foi amplificada pela lentidão governista em notificar agências encarregadas de providenciar funcionários temporários, pela alta rotatividade nos quadros federais e pela falta de planejamento para fazer frente a uma paralisação que poucos na Casa Branca esperavam que viesse a ocorrer. 

“Seria ruim em qualquer época, mas será pior agora”, disse Max Stier, presidente da Parceria para o Serviço Público, grupo sem fins lucrativos que acompanha as atividades do governo federal.” A maioria dos órgãos fez um péssimo trabalho de comunicação com seus funcionários e não providenciou apoio”, afirmou ele.

Entretanto, milhões de americanos não sentirão efeitos em seu cotidiano, e algumas das mais visíveis paralisações anteriores nos serviços públicos – o fechamento de parques nacionais , por exemplo – não ocorrerão agora. O Departamento do Interior informou que atrações como o Grand Canyon e o Memorial da 2ª Guerra Mundial, no National Mall, continuarão abertas para visita, embora o Serviço Nacional de Parques feche seus escritórios e pare de fornecer serviços como limpeza de salões, coleta de lixo e conservação de estradas. 

Na última vez que o Congresso não chegou a um acordo orçamentário, em 2013, durante o governo Obama, um grupo de veteranos de guerra, ajudado por parlamentares republicanos, derrubou piquetes e visitou o Memorial da 2ª Guerra. Desta vez, disse Heather Swift, porta-voz do Departamento do Interior, “os americanos, e especialmente nossos veteranos, que vierem à capital encontrarão os memoriais de guerra e os parques abertos”. 

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Em casa, as agências de correios, que desde os anos 1970 financiam suas operações com a venda de selos e outros serviços, continuarão abertas. O governo continuará a dar assistência a mais de 100 milhões de idosos, incapacitados e cidadãos de baixa renda por meio do Midicare e do Medicaid. Já os programas de benefícios não são diretamente afetados pela paralisação de pagamentos.

O governo Trump disse que funcionários federais continuarão a repassar aos Estados as verbas do Programa de Seguros para a Saúde Infantil, utilizando dinheiro não gasto em meses anteriores. Entretanto, os fundos estão se esgotando em muitos Estados e alguns governos já notificaram os pais de que seus filhos podem em breve ficar sem cobertura se o Congresso não tomar providências. 

Embora a Administração da Seguridade Social vá dar férias a mais de 10 mil de seus funcionários, outros 52 mil estarão a postos para pagar benefícios e executar tarefas essenciais. Cerca de 62 milhões de americanos, incluindo aposentados e incapacitados, recebem benefícios da Seguridade Social. 

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Funcionários federais também garantiram que não haverá interrupção no programa de vales para merenda escolar, agora conhecido como Programa de Assistência à Nutrição Suplementar. Os serviços de segurança alimentar e inspeção continuarão inspecionando produtos como carne, frango e ovos. 

O secretário da Defesa, Jim Mattis, prometeu num memorando a sua equipe que tentará mitigar os efeitos da paralisação para os militares, pessoais e financeiros. Entre estes estão a perda de US$ 100 mil em benefícios para famílias que perdem um membro em serviço, bem como o pagamento de viagens para funerais e o transporte de corpos a partir da base da Força Aérea em Dover, segundo a organização sem fins lucrativos Programa de Assistência a Sobreviventes de Tragédias. 

As guerras, porém, vão prosseguir. “Continuaremos a executar operações diárias através do mundo – navios e submarinos continuarão no mar, nossos aviões continuarão a voar e nossos combatentes continuarão a perseguir terroristas no Oriente Médio, África e Sul da Ásia”, escreveu Mattis. 

Apesar de cerca da metade do quadro de trabalho do Departamento de Saúde e Serviços Humanitários entrar em férias coletivas, o órgão disse que não serão interrompidos serviços envolvendo segurança de vida e proteção de propriedade. Esses serviços incluem a linha telefônica para prevenção de suicídios, assistência a pacientes nos Institutos Nacionais de Saúde, fiscalização e recolhimento de produtos e outros serviços de proteção ao consumidor da Food and Drug Administration. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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