Iranian Presidency Office / AP
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Cenário: Conflito regional não é apenas cenário de ensaio acadêmico

Um conflito regional a partir, por exemplo, de um ataque preventivo desfechado por Israel contra o Irã não é apenas uma possibilidade, mas um risco real

O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 05h00

O programa de foguetes balísticos nunca esteve na pauta do Acordo de Versalhes, de 2015, mas era mantido até agora em uma espécie de metabolismo de ciclo lento pelo presidente Hassan Rohani. A retirada dos EUA do pacto nuclear do qual participam Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha deve facilitar as atividades da aterrorizante vertente deixada de fora pelos negociadores.

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O Irã tem dez diferentes modelos de mísseis, com alcances de 45 quilômetros a 4,5 mil quilômetros. Os maiores, da classe Sejil, são bons o suficiente para levar cargas nucleares de 1 tonelada na cabeça de guerra. O estoque é grande, estimado pelos americanos em 800 unidades de diversos tipos. Podem cobrir alvos estratégicos em todo o Oriente Médio. 

Desde que o moderado Rohani assumiu, em 2013, caiu o número de testes a céu aberto: foram cinco – com o radical Mahmoud Ahmadinejad foram de 12 a 18. Todos bem sucedidos. Fora das discussões e dos acordos internacionais, o plano de desenvolvimento, consolidação, construção e preparação para uso imediato de uma força de mísseis nunca parou no Irã, nem mesmo durante o ataque cibernético de 2007, lançado provavelmente pelos EUA e por Israel, contra o complexo de Natanz, no sudoeste do país.

A pesquisa das máquinas de ultracentrifugação para enriquecimento de urânio sofreu um atraso de, talvez, seis a oito anos. A infraestrutura da central de engenharia dos lançadores balísticos não foi atingida.

O resultado mais claro do empreendimento é a sofisticada rede de bases militares, controlada pela Guarda Revolucionária, conhecida como Cidade dos Mísseis. Não se sabe quantas são nem qual é sua localização. O fato é que existem. Em alguns casos são formadas por imensos túneis interligados, onde permanecem estacionadas, carregadas e em regime de prontidão, dezenas de carretas que compõem as baterias de disparo.

Uma delas leva o próprio míssil. As outras, o combustível e os componentes eletrônicos de controle. Uma variante mais antiga contempla um salão de comando abobadado a 500 metros de profundidade, coordenando uma teia de silos subterrâneos de lançamento montados a profundidades menores.

O programa, iniciado em 1981 e elevado ao grau de prioridade na doutrina de Defesa do Irã em 1988, envolve 27 distritos industriais. Não há informações confiáveis quanto ao tamanho dos investimentos ou ao quadro de pessoal. Segundo relatório da BND, a discreta agência de inteligência da Alemanha, o processo é tocado por técnicos locais treinados no exterior com apoio de especialistas norte-coreanos, paquistaneses e por voluntários recrutados por movimentos islâmicos.

A possibilidade de um conflito regional a partir, por exemplo, de um ataque preventivo desfechado por Israel contra o Irã – com o suporte da Arábia Saudita – não é apenas cenário de ensaio acadêmico. Nos últimos dois anos, ações pontuais da aviação israelense têm fustigado grupos radicais da região, apoiadores do regime dos aiatolás. 

Ao menos dois campos de treinamento do braço armado do Hezbollah e uma central de comando, comunicações e logística do Hamas foram atingidas na Síria – ambos os comandantes locais eram ligados a Teerã. Na semana passada, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, apresentou 55 mil páginas e 183 CDs contendo o que considera “provas irrefutáveis das mentiras” do Irã a respeito do projeto de capacitação atômica. Netanyahu sustentou a percepção de que isso é uma grave ameaça a Israel. Ao longo da história recente, esse discurso tem terminado no campo de batalha.

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