REUTERS/Toby Melville/File Photo
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Cenário: Decisão põe credibilidade de May em questão 

Não bastasse a incerteza sobre a posição do Parlamento, a decisão da Justiça na prática bloqueia o Brexit

Andrei Netto / Correspondente, Paris, O Estado de S. Paulo

04 de novembro de 2016 | 05h00

A decisão da Alta Corte de Justiça de Londres representa um duro revés para o governo da primeira-ministra Theresa May, no poder desde julho. Ex-defensora do “Fica”, a campanha pela permanência na União Europeia, a premiê substituiu David Cameron em uma eleição interna no Partido Conservador. Desde então, seu lema tem sido o oposto de sua convicção: “Brexit é Brexit”, diz ela.

A frase enfática revela como May vê o Reino Unido: fora da União Europeia, sem dúvida. Sua determinação não tem apenas a ver com o resultado do plebiscito de 23 de junho, quando 17,4 milhões de britânicos – ou 51,89% dos eleitores – votaram pela ruptura. Uma pressão tão grande como a das ruas vem do interior de seu partido, influenciado por um sentimento de “euroceticismo”. 

O problema é que a determinação de May esbarra na tradição do sistema político britânico. Desde o século 17, a voz do Parlamento sobre os textos já aprovados pelo Legislativo é preponderante à da “Coroa”, como o Executivo é chamado. Ao manifestar o desejo de seguir o resultado do plebiscito, a premiê se vale do crescimento do sentimento populista no Reino Unido para também satisfazer as correntes eurocéticas do Partido Conservador. Mas, segundo a Alta Corte, ela contraria a Constituição britânica.

Trata-se de uma aposta arriscada para a líder que chegou ao poder sem passar pelo batismo das urnas. Na prática, a incerteza sobre o Brexit é agora maior do que nunca. Enquanto a Câmara dos Comuns (baixa) é controlada pelos conservadores, a Câmara dos Lordes (alta), não. Além disso, os parlamentares eram em sua maioria pró-Europa antes do plebiscito. Por outro lado, é difícil imaginá-los contrariando o voto popular. 

Não bastasse a incerteza sobre a posição do Parlamento, a decisão da Justiça na prática bloqueia o Brexit, já que um eventual debate aberto sobre o tema pode estragar os planos de Downing Street de preparar em segredo a melhor estratégia para negociar com a UE. Por essas razões, o jovem governo May é mais instável hoje do que nunca.

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