Cenário: Decreto não reverterá separação de milhares de famílias

Só no ano passado, 72,4 mil pessoas deportadas declararam ter um ou mais filhos nascidos nos EUA; muitos ficaram para trás

Cláudia Trevisan, Correspondente de O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2014 | 02h02

WASHINGTON - Seis anos após chegar à presidência dos EUA e com um recorde de 2 milhões de deportações, o presidente Barack Obama decidiu agir de maneira unilateral em relação ao crônico problema de imigrantes em situação ilegal e adotar medidas que podem beneficiar até 5 milhões de pessoas. Os milhares separados de suas famílias e expulsos dos EUA na gestão democrata devem estar se perguntando por que ele demorou tanto a tomar a decisão. Ou por que embarcou em uma estratégia fracassada de aplicar a lei com rigor na esperança de convencer os opositores republicanos a aprovarem uma ampla reforma de imigração, emperrada na Câmara dos Deputados.

A política de deportações recorde de Obama provocou a desestruturação de centenas de milhares de famílias. Só no ano passado, 72,4 mil pessoas deportadas declaram ter um ou mais filhos nascidos nos EUA, grande parte dos quais ficou para trás. 

Há um ano, viajei para Tijuana, no México, para onde são mandados muitos dos que são expulsos dos EUA. Em um abrigo para mulheres, entrevistei inúmeras mães que haviam sido deportadas depois de viverem nos EUA a maior parte de suas vidas e terem visto seus filhos nascer no país. Pequenos descuidos, como infrações de trânsito, provocaram o seu encontro com agentes da lei. Algumas foram detidas pela manhã e deportadas na tarde do mesmo dia. 

Há um ano, Obama participou de um evento sobre a reforma de imigração em San Francisco, na Califórnia, Estado que concentra a maior população latina dos EUA. Enquanto o presidente discursava, estudantes na plateia começaram a gritar "pare as deportações". Alguns enfrentavam o drama da separação familiar em suas próprias casas. Um deles fez um apelo ao presidente: "Minha família será separada no dia de Ação de Graças. Por favor, use seu poder executivo. Você tem o poder de parar as deportações", gritou o sul-coreano Ju Hong, de 24 anos, trazido aos EUA por seus pais 13 anos antes.

Obama respondeu com o mesmo argumento usado pelo opositores republicanos que atacaram seu decreto: "Se pudesse resolver todos esses problemas sem passar leis no Congresso, então eu faria isso. Mas somos uma nação de leis". Um ano mais tarde, ele mudou de ideia e concluiu que tem sim o poder de suspender deportações e evitar que famílias continuem a ser separadas. No entanto, não poderá trazer de volta os que já foram expulsos.

Mais conteúdo sobre:
Estados UnidosImigração

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.