REUTERS/Jim Bourg
REUTERS/Jim Bourg

Cenário: desafio de Trump é manter moderação

Primeiros 40 dias de seu governo foram marcados por uma sucessão de confrontos não apenas com a oposição democrata, mas com a imprensa, a comunidade de inteligência dos EUA, aliados internacionais e estrelas de Hollywood

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2017 | 05h00
Atualizado 02 de março de 2017 | 10h51

WASHINGTON - Donald Trump falou pela primeira vez como um clássico presidente americano no pronunciamento que realizou a uma sessão conjunta do Congresso, na noite da terça-feira 28 de fevereiro. Depois de tomar posse há 40 dias com um discurso belicoso e sombrio, no qual prometia acabar com a "carnificina americana", ele adotou um tom otimista e conciliatório em seu pedido de unidade a um país fraturado.

A grande pergunta em Washington é quanto tempo a versão “paz e amor” de Trump sobreviverá sem o uso do teleprompter no qual leu seu pronunciamento. Os primeiros 40 dias de seu governo foram marcados por uma sucessão de confrontos não apenas com a oposição democrata, mas com a imprensa, a comunidade de inteligência dos EUA, aliados internacionais e estrelas de Hollywood.

O mesmo presidente que condenou ataques a centros e cemitérios judaicos na terça-feira havia se recusado a fazer o mesmo dez dias antes, durante entrevista coletiva na Casa Branca. Naquela ocasião, ele mandou um repórter que é judeu ortodoxo se calar e disse que considerava “ofensiva” a pergunta sobre o aumento dos casos de anti-semitismo nos EUA no período posterior à sua chegada à Casa Branca.

Depois de ignorar a história em seu discurso de posse -no qual não mencionou nenhum ex-presidente dos EUA- Trump fez referências na terça-feira a Abraham Lincoln e Dwight Eisenhower, lembrou grandes inventores americanos, condenou o ódio, exaltou os direitos civis e prometeu a "renovação do espírito americano".

Trump também projetou uma imagem digna de comandante-em-chefe das Forças Armadas, ao homenagear a viúva de um soldado morto em uma controvertida missão no Iêmen realizada nos primeiros dias de seu governo. Mas horas antes, em entrevista à Fox News, o presidente tentou se eximir de responsabilidade pela ação, insinuando que os generais que planejaram o ataque eram culpados pela morte do soldado. As declarações chocaram americanos acostumados a ver o comandante-em-chefe assumir as consequências pelos atos que autoriza.

A mudança de tom no discurso presidencial ocorreu em um cenário de baixa aprovação popular, no qual apenas 40% dos americanos veem de maneira positiva a performance de Trump. Historicamente, ocupantes da Casa Branca em início de mandato têm popularidade superior a 60%.

Pesquisa da CNN mostrou que 57% dos que assistiram o discurso gostaram do que ouviram, enquanto 70% disseram que se sentiram mais otimistas em relação ao futuro do país depois do pronunciamento. Resta saber se o tom de terça-feira sobreviverá ao instinto belicoso de Trump e a seu uso compulsivo do Twitter.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.