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Cenário: Devastada pelo vírus, América Latina terá o desafio da vacinação

Nenhuma região do mundo foi tão atingida pelo novo coronavírus; mesmo em tempos melhores, seu sistema de saúde é frágil

Andrea Navarro, Julia Leite e Simone Preissler Iglesias / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 04h00

Há alguns meses, um caminhão foi sequestrado por bandidos na região leste da Cidade do México e toda a carga foi roubada. Não eram joias ou dinheiro, mas doses de vacinas contra a gripe, que são tão escassas no México a ponto de surgir um mercado ilegal, o que para muitas pessoas é um mau presságio para as futuras doses contra a covid-19.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, que menospreza o uso de máscaras, prometeu que não tomará a vacina, o que leva as autoridades de saúde a se preocuparem com o fato de seus apoiadores seguirem seu exemplo. Na Bolívia, o governo aprovou o uso do dióxido de cloro – um alvejante – contra o vírus, considerado uma substância inútil e perigosa.

Nenhuma região do mundo foi tão atingida pelo novo coronavírus como a América Latina. Mesmo em tempos melhores, seu sistema de saúde é frágil. Neste ano de pandemia, com o Brasil contabilizando o segundo maior número de mortes no mundo e o México com a mais alta porcentagem de casos, os dois países vêm expondo uma desigualdade crescente, um aumento no número de crimes, declínio econômico e a desconfiança da população. Com 8% da população do globo e 30% das mortes por covid, a América Latina se defronta alarmada com a próxima fase da pandemia – a vacinação em massa.

“A distribuição da vacina será complicada nos países desenvolvidos, mas na América Latina temos de acrescentar a falta de transparência, de governança e a corrupção”, disse Sergio Litewka, diretor de bioética global da Universidade de Miami. “As mesmas pessoas que foram incapazes de lidar com a pandemia conseguirão administrar a vacina?”

Jorge Martín Rodriguez, professor de políticas de saúde pública na Universidade Javeriana, em Bogotá, diz que, provavelmente, só depois de 2022 ou 2023 a Colômbia estará protegida, algo que muita gente parece não entender. “Não tem se falado muito e é algo que precisamos chamar atenção. O risco só diminuirá quando alcançarmos imunidade de rebanho, idealmente por meio da vacina.”

Adolfo Rubinstein, ex-ministro da Saúde argentino, disse não esperar uma vacinação em massa no país até o segundo semestre de 2021, em parte por causa da necessidade de freezers de baixa temperatura. “Não há muitos disponíveis, particularmente em áreas rurais mais distantes.”

Em teoria, o Brasil poderá se sair melhor em vacinar seus 210 milhões de habitantes do que no trabalho errático que realizou para conter a doença. De acordo com especialistas, seu programa de imunização, que já tem cinco décadas e opera 35 mil postos de saúde, é sólido. 

O Uruguai tem as menores taxas de infecção e de mortalidade na América do Sul graças a um dos melhores sistemas de saúde da região e à adoção generalizada e precoce de medidas de distanciamento social. O presidente, Luis Lacalle Pou, declarou que o governo deverá ter uma vacina disponível em abril.

No Chile, que enfrentou meses duros com a covid, Josefina Bascunan, diretora da divisão de pesquisa e alianças estratégicas do Hospital del Trabajador, em Santiago, disse que a vacinação contra gripe foi bem neste ano e acredita que o governo conseguirá implementar uma forte estratégia de vacinação contra o novo coronavírus.

Já o Peru, que mais sofreu com a covid, apesar das rigorosas medidas de lockdown, agora vê a vacina com preocupação. Victor Zamora, que foi ministro da Saúde até recentemente, disse que o Congresso ainda não debateu nenhuma lei para apressar a aprovação de novas vacinas. “Não se deve esperar que este Estado politizado, fragmentado, burocrático e lento garanta a você uma logística moderna”, disse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

*SÃO JORNALISTAS

 

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