AP Photo/Patrick Semansky
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Cenário: Diante de Ernesto Araújo, militares são os não belicistas

A posição do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de apoio às propostas dos Estados Unidos em relação à Venezuela, está incomodando os militares brasileiros

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2019 | 05h00

A posição do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de apoio às propostas dos Estados Unidos em relação à Venezuela, está incomodando os militares brasileiros. Sob condição de anonimato, integrantes das Forças Armadas consideram belicista a posição do chanceler, contrária à dos militares de que qualquer ideia intervencionista é errática pelas consequências à população.

O comando militar acredita que, mais do que derrubar Nicolás Maduro da presidência da Venezuela, os Estados Unidos têm grandes interesses comerciais. Por isso, pressionam todos os atores a apoiá-los nesta empreitada. Esses mesmos militares lembram que justamente por isso todos os passos a serem dados pelo governo brasileiro têm de ser muito pensados e calculados.

Estudos que respaldam os militares mostram que, pelo menos no momento, os brasileiros não têm nada a ganhar com o endosso a atitudes extremas, como ceder território brasileiro para tropas americanas entrarem na Venezuela ou agir no país vizinho. Sem contar que tudo isso depende de aprovação do Congresso.

De acordo com generais, “a divergência de conduta e de discurso entre olavistas (seguidores do guru bolsonarista Olavo de Carvalho, de quem Ernesto Araújo é discípulo) é gritante”. Para outro oficial, hoje houve uma inversão de papéis e quem está fazendo a “boa diplomacia”, na avaliação deles, são os militares, que não são belicistas e rechaçam qualquer possibilidade de intervenção no país vizinho. “Só fala em intervenção quem não sabe exatamente o que é isso, ou quais as suas consequências naturais”, comentou outro militar, ao reconhecer que o presidente Jair Bolsonaro, no início, chegou a “embarcar um pouco nessa onda”, mas depois reviu sua posição ao avaliar todos os problemas que poderia causar. 

Para os militares, o Itamaraty em um primeiro momento achou que a ação do presidente autoproclamado Juan Guaidó, de antecipar as manifestações para chamar os venezuelanos para as ruas, teria sido vitoriosa, porque teria apoio da cúpula militar.

Notícias divulgadas nos últimos dias dão conta de que o ministro Ernesto Araújo, em sua viagem aos EUA, na segunda-feira, quando se encontrou com secretários americanos, teria discutido a possibilidade de o Brasil ser usado como porta de entrada para a Venezuela. Para militares, se esse gesto realmente ocorreu, foi classificado como “ingenuidade”, “imaturidade” ou “irresponsabilidade”.

Procurado, Araújo disse, por meio de sua assessoria, que não discutiu essa possibilidade. “De forma nenhuma”, afirmou, negando ainda que defenda a tese de apoio à presença de tropas americanas em solo brasileiro para chegarem até a Venezuela. “Nunca propus isso”, emendou. 

 

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