Cenário: Eleitores perceberão que se deixaram convencer por um mito

Cenário: Eleitores perceberão que se deixaram convencer por um mito

É simplesmente impossível dar uma importância simbólica a esse muro e à ideia de que o México pagaria por sua construção.

Paul Waldman, Bloomberg, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2017 | 05h00

Durante a disputa pela presidência, Donald Trump fez da construção de um muro ao longo de toda a fronteira com o México o ponto forte da sua campanha. Mas, como tantas promessas feitas por Trump, esta também deve esfriar ao confrontar a cruel realidade de governar.

Estou certo de que há muitos seguidores radicais de Trump que continuarão acreditando que seu adorado muro acabará sendo construído. Esta promessa o distinguiu de seus oponentes durante as primárias, motivou seus eleitores, atraiu pessoas que não votavam havia anos e definiu o tipo de presidente que ele supostamente seria e o país que deveria criar. Nada disso deve ocorrer.

É simplesmente impossível dar uma importância simbólica a esse muro e à ideia de que o México pagaria por sua construção. Tudo o que se refere a Trump tem a ver com xenofobia, sua visão de um mundo repleto de ameaças, a crença de que problemas complexos têm soluções fáceis e, sobretudo, o desejo de manter uma posição imponente e humilhar os outros, o que foi crucial para os eleitores que se sentem humilhados e derrotados.

Por isso, a ideia de que o México deve pagar pelo muro é importante – não porque os EUA precisam do dinheiro do México, mas porque obrigar os mexicanos a pagar mostrará o predomínio americano e fará com que eles paguem pela própria humilhação.

Mas vejam a que Trump ficou reduzido. No domingo, ele declarou no Twitter que “eventualmente, mas mais tarde, o México pagará, de algum modo, pelo tão necessário muro na fronteira”. É a manifestação de alguém que sabe que não conseguirá manter sua promessa.

Quais as razões dessa aparente boa vontade de Trump em retardar a construção do muro? Há a necessidade imediata de manter o governo funcionando. E também a constatação de que o muro é impopular, com pesquisas mostrando que 60% dos americanos são contra sua construção.

O muro é mais popular quanto mais distante estamos da fronteira, o que indica que as pessoas mais inquietas com a imigração não são aquelas cujas comunidades têm o maior número de imigrantes, mas as que receberam um número significativo de imigrantes pela primeira vez. Nenhum político que represente um distrito ou Estado na fronteira apoia a construção desse muro.

Todas as vezes que o assunto for discutido, governo e Congresso se verão diante da realidade de que um muro ao longo de 3.400 quilômetros de fronteira é impraticável, mesmo se estivermos dispostos a bancar seu custo. O resultado mais provável será o Congresso liberar algum dinheiro para erguer o muro em algumas áreas críticas, mas não terá nada a ver como o formidável muro de Trump. À medida que os meses passarem, os eleitores perceberão que se deixaram convencer por um mito. No mundo real, não haverá muro na fronteira e o México não pagará por ele. Não importa o que o presidente diga. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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