Susan Walsh/AP
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Cenário: Em Washington, esperanças em acordo de paz no Afeganistão se esvaem

Mesmo as autoridades americanas mais otimistas admitem cada vez mais em público o que disseram anteriormente em privado: que as perspectivas de um resultado negociado, que poderia salvar parcialmente o projeto de 20 anos dos EUA no Afeganistão, estão desaparecendo rapidamente

Michael Crowley, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Enquanto os combatentes do Taleban fazem avanços surpreendentemente rápidos em todo o Afeganistão, autoridades do governo Biden dizem que continuam a depositar suas esperanças em um acordo de paz e de divisão de poder que interrompa a violência implacável no país. Eles enfatizam, pelo menos em suas declarações públicas, que o processo de paz poderia ter sucesso, mesmo com a retirada dos militares dos EUA do país e com os críticos dizendo que as negociações deveriam ser declaradas uma farsa e abandonadas.

No entanto, essa posição começa a mudar. Mesmo as autoridades americanas mais otimistas admitem cada vez mais em público o que disseram anteriormente em privado: que as perspectivas de um resultado negociado, que poderia salvar parcialmente o projeto de 20 anos dos EUA no Afeganistão, estão desaparecendo rapidamente.

O enviado especial do presidente Joe Biden para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, ofereceu uma avaliação pessimista do que chamou de situação difícil no país e as grandes lacunas entre os negociadores do Taleban e do governo afegão. “Eles estão distantes”, disse Khalilzad durante uma aparição no Fórum de Segurança de Aspen na terça-feira.

As autoridades em Washington parecem cada vez mais pessimistas. Na quinta-feira, o secretário de Estado Antony Blinken falou com o número dois do governo do Afeganistão, Abdullah Abdullah, e discutiu maneiras de acelerar negociações de paz e alcançar um acordo político, segundo o Departamento de Estado, em um comunicado.

Foi a última manifestação pública de apoio do governo Biden às negociações conhecidas como intra-diálogo afegão, que teve início em setembro como parte de um acordo entre o governo Trump e o Taleban que abriu caminho para a retirada das forças dos EUA. As reuniões entre os líderes do Taleban e funcionários do governo afegão continuam de forma esporádica em Doha, no Catar, incluindo uma sessão em meados de julho.

A perspectiva de um acordo de paz dá aos representantes da administração Biden uma justificativa em meio às acusações de que, ao retirar as tropas do país, eles abandonaram os aliados afegãos diante do risco de o Taleban conquistar e reinstalar um severo governo teocrático.

O esforço do governo Biden, nas últimas semanas, é para tentar afastar as desconfianças de que ele tenha explorado cinicamente as negociações de paz para ganhar tempo e fornecer cobertura política para a retirada americana.

“O Taleban deve parar esta violência contínua; eles devem parar com isso”, disse Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado, na quarta-feira. Ele disse que o Taleban tem um interesse inerente em evitar a guerra civil sem fim que provavelmente persistirá na ausência de um acordo de divisão do poder.

Mas Price reconheceu que o aumento da violência praticada pelo grupo - incluindo um recente atentado a bomba em Cabul do lado de fora da casa do ministro da Defesa - abalou a confiança em tais suposições. “Os líderes do Taleban continuam a dizer uma coisa, mas suas palavras soam vazias em meio aos ataques contínuos", disse Price.

Mesmo quando invadem vilas e cidades em todo o país, levantando dúvidas sobre se as forças de segurança afegãs podem defender grandes cidades, incluindo a capital, Cabul, os líderes do Taleban insistem que têm interesse genuíno em um acordo de paz.

No mês passado, o líder do Taleban, Mawlawi Haibatullah Akhundzada, disse em um comunicado que apesar dos ganhos e avanços militares de suas forças, o Emirado Islâmico favorece vigorosamente um acordo político no país.

Emirado Islâmico é como o Taleban chamava seu governo quando estavam no poder (1996-2001). A declaração veio enquanto os representantes do Taleban se reuniram com funcionários do governo afegão, incluindo Abdullah, para uma rodada de negociações em Doha.

As autoridades americanas dizem que a reunião teve pouco resultado, embora Khalilzad tenha tentado adotar um tom otimista depois.

“Há mais coisas que unem do que dividem as partes”, escreveu ele no Twitter. Mas quando os foguetes caíram perto do palácio presidencial em Cabul, quando as negociações foram concluídas, o presidente Ashraf Ghani se irritou, dizendo que o Taleban não tinha intenção, nem vontade de fazer a paz.

E em um discurso ao Parlamento nesta semana, Ghani – que se sentiu forçado a sentar-se à mesa de negociações pelos Estados Unidos – reclamou de um processo de paz “importado e apressado”. “O Taleban não acredita em paz duradoura ou justa”, acrescentou.

Ghani tem um interesse pessoal nas negociações. Um ponto crítico foi a exigência do Taleban de que ele deixasse o cargo como parte de uma transição para um novo governo. Ghani insiste que é o legítimo líder eleito do país.

Mas as demandas do grupo são mais amplas. Em um relatório sobre o processo de paz afegão no início deste ano, o think tank International Crisis Group descobriu que as autoridades afegãs temem que um acordo político, sob as presentes circunstâncias, possa destruir  a ordem constitucional erigida nas últimas duas décadas e essencialmente restauraria com o Taleban no poder.

Vanda Felbab-Brown, diretora da Initiative on Nonstate Armed Actors da Brookings Institution, em Washington, disse que as únicas negociações que o Taleban agora leva a sério são tentativas de fechar acordos não oficiais com senhores da guerra afegãos e outros mediadores do poder, em um esforço para afastar o apoio do governo e ajudar a organizar uma aquisição de grande parte ou de todo o território afegão.

“O Taleban não está interessado em negociar seriamente agora por causa do que está acontecendo no campo de batalha”, disse Felbab-Brown.

“Essencialmente, o que o Taleban colocou sobre a mesa (nas conversas com autoridades afegãs) em Doha são termos de rendição”.

A Rússia e o Irã recentemente receberam representantes do Taleban para negociações, um sinal de que esses países estão se posicionando para lidar com o grupo se ele assumir muito ou todo o poder político no Afeganistão.

Andrew Watkins, analista sênior do Afeganistão no International Crisis Group, disse que o governo Biden – ciente de muitos outros interesses concorrentes na região – parecia não estar disposto a pressionar China e Rússia na medida necessária para fazer esses países adotarem uma posição mais dura em relação ao Taleban.

Watkins disse que, por mais sombrias que sejam as perspectivas agora, é importante para as autoridades americanas manter vivo o processo de paz. Se o governo afegão puder endurecer suas defesas, defender grandes cidades como Cabul e lutar contra o Taleban até um impasse nos próximos meses, o grupo pode escolher retornar à mesa de negociações, disse ele. “Ainda há valor em manter vivo um canal aberto de diálogo”, disse ele.

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