REUTERS/Kevin Lamarque
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Cenário: Escândalos são prova de amadorismo do governo Trump

Revelações feitas pelo jornal 'Washington Post' de que conselheiro e secretário de Trump tiveram contato com embaixador russo comprovam erros atrozes que pessoas com a experiência exigida para estes cargos não deveriam cometer

Aaron Blake / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2017 | 05h00

Jeff Sessions é advogado. Foi secretário de justiça estadual e é o novo secretário da Justiça  dos Estados Unidos. Isso torna suas negações agora contestadas de contato com os russos completamente inexplicáveis. Como um homem versado em Direito presta declarações sob juramento e não é preciso nas suas palavras?

Isto mostra, novamente, que o governo Trump não consegue agir de modo justo e honesto. A grande dúvida é se isto se deve a uma real malevolência ou a uma total incompetência. E nenhuma das alternativas é boa.

Na quarta-feira o Washington Post revelou as reuniões não divulgadas de Jeff Sessions com o embaixador da Rússia nos Estados Unidos. Embora ele negue agora ter conversado sobre a campanha eleitoral com o embaixador,  na sabatina  ele simplesmente descartou qualquer tipo de contato com o governo russo.

Mas o que mais preocupa  é que, na verdade, ele negou o fato voluntariamente. Ninguém pediu para que o fizesse. O senador Al Franken, de Minnesota, perguntou a ele: "se houver prova  de que alguém ligado à equipe de Trump se comunicou com o governo russo durante a campanha, o que o senhor fará?"

Esta foi a pergunta que suscitou a negativa que agora persegue Sessions. Sua resposta foi vaga - sem nada que indicasse que ele se referia apenas a assuntos de campanha, como as suas negações hoje sugerem.

"Senador Franken, não tenho conhecimento de nenhuma atividade deste tipo", afirmou. "Fui considerado um emissário uma vez ou duas nessa campanha, e não fui - não tive nenhuma comunicação com os russos e não posso comentar o assunto".

Qualquer advogado dirá que, se ninguém pediu para você adotar uma postura, não o faça voluntariamente. Fazer  declarações sobre o que você fez ou no que acredita somente  alimentará futuras contradições e ataques. E quando não está absolutamente seguro ou teme ter esquecido de alguma coisa, simplesmente afirme: "não me lembro", ou "o máximo que consigo me lembrar". 

Jeff Sessions não fez isto, apesar de o seu encontro com o embaixador russo ter ocorrido quatro meses antes em seu gabinete no Senado e ele ter se reunido com o embaixador Serguei Kislyak em julho, próximo da Convenção Nacional Republicana.

Tudo isso leva a uma teoria desenvolvida por Adam Carolla que mencionei diversas vezes anteriormente:   "Estúpido ou Mentiroso. Você pode alegar que a pergunta feita por Franken durante a sabatina teve por objetivo inserir Sessions num contexto de campanha. Mas Sessions, que é advogado e sabe o que significa estar sob juramento e cometer perjúrio - continuou afirmando categoricamente que "não teve nenhum contato com os russos".

Mesmo que procure ocultar alguma coisa perversa nesses encontros com os russos, você vai negar de modo mais cuidadoso - de uma maneira que possa ser contornada mais tarde ou seja uma negação plausível. A declaração de Sessions é totalmente contraditória; se na verdade houve perjúrio, isto deve ser determinado.

Toda a situação lembra a saga curiosamente similar de Michael Flynn. Quando o Washington Post mostrou existirem evidências de que o assessor de segurança nacional de Trump debateu o problema das sanções contra a Rússia com Kislyak durante um telefonema feito em dezembro - possivelmente violando a lei - Flynn negou o fato.

Mas 24 horas depois afirmou que não conseguia se lembrar de ter discutido o assunto. E então, quando foi revelado que ele afirmou a mesma coisa para o FBI - também com o risco de cometer perjúrio - ele declarou que tinha discutido a expulsão de agentes russos dos Estados Unidos, que acreditava não ter nada a ver com as sanções, mas que, na verdade, tinha a ver com as sanções.

Assim temos Flynn, um oficial da inteligência experiente e mais do que familiarizado com as relações internacionais e com a análise sintática da informação, emitindo  declarações e negações completamente descuidadas - no melhor dos casos. Este é o indivíduo que Trump escolheu para ser o seu assessor de segurança nacional, e a resposta oferecida por ela foi de que não sabia a definição de "sanções".

Há muita coisa em comum entre as situações de Sessions e Flynn. Mas o que realmente une as duas é o fato de que temos pessoas no alto escalão do governo Trump que cometeram um erro atroz. Em suas posições e com suas supostas experiências, teriam de ter consciência disso.

Os críticos sabem certamente que algo execrável está ocorrendo - que as situações de Flynn e Sessions são provas conclusivas de que a Rússia está sendo acobertada. As investigações determinarão até que ponto isto é verdade.

De qualquer modo, isto tudo  indica também um total amadorismo, puro e simples. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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