JOSE PATRICIO/ESTADÃO
JOSE PATRICIO/ESTADÃO

Cenário: Exercícios aéreos e controle de fronteira com a Venezuela

Manobras têm a ver com a situação de tensão na longa fronteira de 2 mil km com a Venezuela, por onde entra um fluxo crescente de imigrantes venezuelanos

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2017 | 05h00

O Esquadrão Escorpião, da Ala 7 da Força Aérea, em Boa Vista, está realizando há uma semana exercício de treinamento de todos os pilotos do grupo de combate. É também a etapa final do curso de formação de líderes da aviação da caça. 

A bordo dos A-29 Super Tucano, da Embraer, atuando em um cenário tático bem definido, os oficiais cumprem missões elaboradas – de ataque e de vigilância, fundamentalmente. Tem a ver com a situação de tensão na longa fronteira de 2 mil km com a Venezuela, por onde entra no Brasil um fluxo crescente de imigrantes venezuelanos. 

O ensaio é anual, mas, segundo um experimentado piloto da FAB, “nunca é rotineiro e não se pode negar que tem um ingrediente especial desta vez”. A manobra vai durar dois meses. Os aviões recolhem dados de observação. E simulam bombardeios, por exemplo, a pontes e estradas.

O Exército também está reforçando os procedimentos de controle na região, no eixo que leva de Pacaraima, a cidade brasileira mais próxima da divisa, até Stª Elena de Uairén, na Venezuela. O comando da 1.ª Brigada de Infantaria de Selva enviou 30 homens para expandir o número de militares do 3.º Pelotão Especial de Fronteira. Em terra, a preocupação é com os conflitos que possam surgir entre os mais de 1,1 mil refugiados do regime de Nicolás Maduro que estão no município sem nenhuma estrutura. 

Pior: existem na área centenas de passagens clandestinas, as ‘biqueiras’. As pessoas que utilizam essas ligações não tem documentos e acabam não sendo computadas pelas autoridades. “O resultado é a sobrecarga na precária rede local de saúde, atolada como nunca com casos de doenças infectocontagiosas, para as quais não está preparada, trazidas pelos forasteiros”, destaca um diretor de serviços da prefeitura. 

As equipes de estudos da Polícia Federal e do Pelotão de Infantaria avaliam o risco de haver saques nos mercados. Pacaraima tem 11 mil habitantes fixos e é um centro regional de entrepostagem de alimentos. Comerciantes brasileiros levam mercadorias para atender a demanda de venezuelanos que não encontram em seu país grãos, massas secas, enlatados, artigos de higiene e medicamentos básicos.

O potencial de incidentes é grande. Em outubro, dois caças Su-30 da aviação da Venezuela invadiram levemente, e apenas por alguns minutos, o espaço aéreo do Brasil, na linha da fronteira com o Estado de Roraima. Foram vistos por pessoas que passavam pela rodovia BR-174, ligação entre os dois países e ouvidos como trovões em dia de sol em uma área muito maior.

O voo irregular não foi reconhecido. Mas virou informação sob tarja vermelha em Brasília e esteve o tempo todo nas telas de radar da defesa aérea brasileira. A nova prioridade dos olhos e ouvidos eletrônicos da Defesa é a região norte, onde as operações de vigilância e reconhecimento da Força Aérea estão sendo gradualmente intensificadas. 

Dessa vez o episódio não provocou reação. Pela regra, a situação implica um protocolo rigoroso. Os invasores do espaço primeiro são abordados. Depois, são interceptados e orientados a seguir para pouso em local controlado. Se ainda assim resistirem ou adotarem atitude hostil, serão abatidos. A norma vale para todos os tipos de intrusos.

A divisa é observada regularmente pela inteligência militar; com maior atenção desde 2014, quando começou a crise econômica na Venezuela e o fluxo de imigrantes em direção ao Brasil passou de 14 por ano para 40 por dia em poucos meses – fora os clandestinos. 

Há um enorme cuidado do governo em evitar conceitos como o da militarização da fronteira ou o de intromissão em assuntos internos, fortes preocupações dos ministérios das Relações Exteriores e da Defesa. 

Poucos dias depois da tarde em que os poderosos jatos Sukhoi-30 venezuelanos estrondearam sobre a savana próxima a Pacaraima, a cidade brasileira na divisa binacional, em Roraima, a Base Aérea da capital, Boa Vista, recebeu de visita um esquadrão inteiro de jatos subsônicos A-1 AMX, apoiados por especialistas transportados em dois cargueiros C-130 Hércules.

Vários dos caças bombardeiros leves eram da versão RA-1, de reconhecimento, sensoriamento remoto, coleta de imagens e seleção de alvos no terreno, com o uso de sensores infravermelhos e câmeras 360 graus. Tudo isso sem perda da capacidade de ataque por meio de até 3 toneladas de bombas, foguetes e mísseis; mais dois canhões de 30mm. 

Em nota, a Aeronáutica informou que o deslocamento de aeronaves entre bases de diferentes regiões faz parte de um programa permanente “do treinamento e dos exercícios de rotina,visando a manutenção operacional de pilotos e tripulações”. É assim que funciona o esquema de alerta permanente.

A FAB mantém em Boa Vista o Esquadrão Escorpião, com turboélices A-29 Super Tucano, de combate leve e vigilância. Em Porto Velho, Rondônia, além dos A-29 ficam os helicópteros artilhados russos AH-2 Sabre. 

O grande complexo de Manaus abriga o Esquadrão Pacau, que emprega ao menos seis supersônicos F-5M. As duas instalações recebem regularmente os grandes aviões-radar do Esquadrão Guardião. 

Toda a coordenação é feita pelo Centro Integrado de Defesa e Controle IV (Cindacta) instalado em Manaus. A abrangência do sistema de radares e sensores de comunicação cobre 5,2 milhões de km², a medida de 67% do território nacional, envolvendo nove Estados: Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Amapá, Acre, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão.

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