AP/Michel Euler
AP/Michel Euler

Cenário: Fábrica do mundo, China ganhou mais com globalização

No momento em que Trump declara guerra ao livre-comércio, Xi Jinping se candidata à liderança do projeto de integração econômica global

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2017 | 05h00

Três dias antes da posse de Donald Trump, o presidente da China, Xi Jinping, fez sua estreia no Fórum Econômico Mundial de Davos com uma contundente defesa da globalização, em um discurso que refletiu a inversão de papéis entre o país que declarou a vitória do capitalismo depois da queda do Muro de Berlim e o Partido Comunista no comando da segunda maior economia do mundo.

No momento em que o novo presidente dos Estados Unidos declara guerra ao livre-comércio, Xi se candidata à posição de líder do projeto de integração econômica global e do multilateralismo. Líder do maior poluidor do mundo, o presidente chinês aproveitou sua ida à Suíça para também fazer um discurso de defesa do Acordo de Paris, pelo qual quase 200 países se comprometeram a combater o aquecimento global. “A Terra ainda é a única casa da humanidade”, disse o presidente chinês no escritório das Nações Unidas em Genebra.

Líder do maior poluidor do mundo em termos per capita, Trump deixou claro nas primeiras horas de seu governo que a questão climática não estará entre suas prioridades. Pelo contrário. Seu objetivo é acabar com regulações ambientais e estimular a produção de petróleo e gás. Em seu discurso de posse, Trump descreveu os EUA como um país explorado e roubado pelos demais e decretou o mote de sua administração: “De hoje em diante, só haverá a América em primeiro lugar”. 

É difícil imaginar que o timing da decisão de Xi de ser o primeiro presidente chinês a falar em Davos tenha sido uma coincidência. Ainda que não entregue de maneira explícita, sua mensagem foi clara: a China está pronta para ocupar o vácuo deixado pela esperada retirada dos EUA da liderança global em questões econômicas e multilaterais. 

Pequim ampliou seus tentáculos comerciais ao redor do mundo nas últimas duas décadas. Na América Latina, transformou-se no principal parceiro comercial de vários países, entre os quais o Brasil, onde também ampliou seus investimentos em anos recentes.

A realização das aspirações globais de Xi foi facilitada por uma das primeiras decisões de Trump: formalizar a saída de seu país da Parceria Transpacífico (TPP), o megatratado comercial que reuniria 12 países e 40% do PIB global, do qual a China estava excluída. Mas a retórica de Xi não é motivada apenas pelo desejo de protagonismo global ou uma visão solidária da humanidade.

A China foi o país que mais se beneficiou da globalização e da abertura de mercados mundiais e seria uma das grandes vítimas de uma onda protecionista. As reformas iniciadas há quatro décadas transformaram o país na fábrica do mundo e retiraram 400 milhões da pobreza. 

Empresas dos EUA e da Europa transferiram suas linhas de montagem ao país, atraídas pela ampla oferta de mão de obra barata. Em uma ascensão meteórica, o antigo Império do Meio transformou-se no maior exportador e na segunda maior economia do mundo. Apesar das promessas de reformas, Pequim continua a interferir na economia por meio de subsídios e da atuação de suas gigantescas empresas estatais e setores inteiros da economia continuam fechados a investidores estrangeiros.

Trump está certo ao se queixar de práticas comerciais desleais da China, mas sua receita de protecionismo, nacionalismo extremo e desdém por instituições multilaterais pode reduzir a influência internacional dos Estados Unidos e dar impulso à pretensão de Pequim de assumir a cadeira vazia de líder global. 

 

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