Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Cenário: Fim de um experimento terrível

Não que Trump nunca tenha feito nada de bom; mas isso não chegou nem perto de valer o preço de deixar nosso país mais dividido, mais doente do que em qualquer outro momento na história moderna

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 05h00

Pessoal, acabamos de sobreviver a uma barbaridade realmente louca: quatro anos de um presidente sem vergonha, apoiado por um partido sem força de vontade, amplificado por uma rede sem integridade, que vomitava teorias de conspiração mentirosas, levadas diretamente aos nossos cérebros por redes sociais sem ética - tudo isso aquecido por uma pandemia impiedosa.

É impressionante que o nosso sistema não tenha explodido, porque o país realmente se parecia com um motor gigante superaquecido. O que vimos no Capitólio no dia 6 eram os parafusos e porcas começando a se soltar. A saída de Donald Trump da Casa Branca e o esvaziamento do poder de seus apoiadores no Senado não estão de maneira nenhuma ocorrendo cedo demais.

Nem a posse de Joe Biden. Ele tem um trabalho duro pela frente. Isso porque nem começamos a ter consciência do tamanho do dano que Trump causou - armado com Twitter e Facebook e potencializando o poder de intimidação da presidência e a covardia de tantos que sabiam bem o que estava acontecendo - à vida pública do nosso país, suas instituições e à imunidade cognitiva.

Foi um experimento terrível, absolutamente terrível.

Não que Trump nunca tenha feito nada de bom. Mas isso não chegou nem perto de valer o preço de deixar nosso país mais dividido, mais doente - e com mais gente ruminando teorias de conspiração - do que em qualquer outro momento na história moderna. Precisamos ser simultaneamente reunificados, desprogramados, reorientados e reconfortados. Todos no país precisamos ir a um retiro de fim de semana para redescobrir quem somos e relembrar os laços que nos unem - ou que já nos uniram no passado.

Acho sinceramente que podemos voltar a ser a melhor versão de nós mesmos, mas cabe a todos nós fazer com que isso aconteça. Como?

Para mim, a característica mais marcante da presidência de Trump foi que, ano após ano, ele continuou nos surpreendendo negativamente. Ano após ano ele mergulhou cada vez mais fundo em novas maneiras de quebrar regras, mentir e manchar as reputações de todos que entravam em sua órbita. Mas em nenhuma ocasião - nem uma - ele nos surpreendeu positivamente com algum ato de bondade, autocrítica ou diálogo com oponentes.

O caráter dele foi o seu destino, que se tornou o nosso também. Bem, trago boas notícias. Podemos nos recuperar, contanto que todos nós - políticos, mídia, ativistas - nos concentremos em fazer o que Trump nunca conseguiu: surpreender positivamente uns aos outros.

Surpresas positivas são uma força muito subestimada na política e na diplomacia.  Elas quebram as amarras do pessimismo e desafiam os limites do que consideramos possível. Elas nos recordam que o futuro não está escrito, mas é uma questão de escolha - de permitir que o passado enterre o futuro ou que o futuro enterre o passado.

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Ainda me lembro de onde estava quando Anwar Sadat chegou a Israel, surpreendendo o mundo com sua vontade de estabelecer a paz. Isso me encheu de alegria e trouxe uma nova noção a respeito das possibilidades para o Oriente Médio.

Na verdade, eu surpreendi Trump uma vez. Nunca relutei em concordar com ele quando ele fazia algo que eu considerasse correto. Então, depois que ele e Jared Kushner estabeleceram um acordo que normalizou as relações entre Israel e os Emirados Árabes, escrevi uma coluna elogiando o pacto. Poucos dias depois meu celular tocou. Era o presidente Trump. Suas primeiras palavras foram, “Não consigo acreditar que o New York Times deixou você escrever algo tão legal”.

Evidentemente, o jornal não manda no que escrevo, então Trump ficou chocado ao pensar que eu tinha escrito aquilo por livre e espontânea vontade. Isso o fez repensar, mesmo que por um breve momento, quem eu sou e o que meu jornal é. As surpresas fazem isso. Se Trump tivesse saído de seu personagem em relação a algum grande tema, como meio ambiente ou imigração, eu também o teria elogiado. Mas ele teimou em não fazê-lo.

Uma pena, porque, como jornalistas e como cidadãos, adoramos ser positivamente surpreendidos por nossos líderes.

Tenho assistido ao senador Mitt Romney repetidamente colocar seu juramento de defesa da Constituição acima de seu partido e de seus próprios interesses políticos. Ao longo desse caminho, passamos a nos conhecer. Não concordamos em tudo, mas existe um respeito mútuo. Romney recentemente me apresentou em uma palestra que concedi remotamente a uma coalizão bipartidária de ação para a questão do clima em Utah. Isso surpreendeu algumas pessoas e talvez as tenha feito olhar para o tema de outra maneira. É surpreendente o que pode acontecer quando surpreendemos positivamente.

A deputada Liz Cheney me surpreendeu muito positivamente quando, semana passada, colocando o país e a constituição acima do próprio partido e de suas ambições pessoais, votou pelo impeachment de Trump. Eu a conheci quando ela trabalhava em questões ligadas à democracia no Oriente Médio. Senti vontade de retomar o contato.

Em maio do ano passado, após a morte de George Floyd nas mãos da polícia, o rapper Killer Mike foi convocado pela prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, para ajudar a conter a violência nos bairros negros. Ele me surpreendeu quando repreendeu os manifestantes violentos em Atlanta:

É seu dever proteger seu lar e não incendiá-lo por raiva de um inimigo. É seu dever fortificar seu lar para transformá-lo em um espaço de refúgio em tempos de organização. E agora é o momento de planejar, combinar, desenvolver uma estratégia e se mobilizar. É hora de derrotar nas urnas os promotores de quem não gostamos. É hora de cobrar a responsabilidade das prefeituras, dos chefes de polícia e delegados. ...

“Gostaria de agradecer à prefeita por nos tratar como uma mãe negra e nos mandar para casa, e quero agradecer aos meus amigos por me convencerem a vir aqui.”

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Assim, tenho dois pedidos a fazer a cada americano: dê a Joe Biden a oportunidade de nos surpreender positivamente, e desafie a si mesmo a surpreendê-lo.

As empresas americanas precisam nos surpreender dizendo a Rupert e Lachlan Murdoch que sua emissora promoveu a Grande Mentira que levou ao saque do Capitólio, e elas não vão mais anunciar suas marcas em nenhum programa que dissemine teorias da conspiração.

A melhor notícia que recebi essa semana diz que o diretor executivo da My Pillow, Mike Lindell - ávido defensor de Trump e frequente anunciante da Fox, que promoveu alegações desmentidas segundo as quais a eleição de 2020 teria sido fraudada - informou que lojas como Kohl’s, Bed Bath & Beyond, Wayfair e outras redes de varejo deixarão de comercializar os produtos dele. Fico feliz por elas.

Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg precisam nos surpreender parando de uma vez por todas com a prática de promover (em nome do lucro) noticias que causam indignação e divisão em detrimento de um conteúdo jornalístico mais equilibrado e crível.

Não há na esquerda nenhum equivalente aos supremacistas brancos de direita e outros extremistas que acabam de saquear o Capitólio. Nem de longe. Mas os liberais surpreenderiam muita gente na direita (e talvez até convencessem alguns a apoiar Biden) se rejeitassem claramente o politicamente correto quando este sufoca opiniões dissidentes e denunciassem não apenas a violência policial - uma prioridade, sem dúvida -, mas também as fontes da violência nos bairros habitados por minorias, que aterrorizam igualmente os moradores negros, latinos e brancos. Vejo isso acontecer todos os dias em minha cidade, Minneapolis.

E agora que a ameaça de Trump ficou para trás, todos nós, que trabalhamos no jornalismo, devemos voltar à tarefa de separar notícias de opiniões. Precisamos de mais espaços a partir dos quais americanos de todo o espectro político tenham a sensação de receber notícias diretamente - sem toques de indignação, linguagem divisiva ou lacração; isso fica para as seções de opinião.

Finalmente, como eu disse, antes de irmos com tudo para cima de Biden, que tal darmos a ele alguns meses para nos surpreender positivamente? Vamos dar a ele a chance de colocar o país à frente do seu partido e cumprir seu juramento presidencial.

Na verdade, sugiro repetirmos todos em casa o juramento dele: “Juro solenemente,… no limite das minhas capacidades, preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos.”

Quem sabe, se todos fizermos isso, se todos dermos a Joe uma chance de nos surpreender positivamente, talvez possamos romper o terrível e febril ciclo político que tomou conta do nosso país juntamente com a covid-19. Isso não seria uma surpresa agradável? / TRADUÇÃO DE AUGUSTO PACHECO CALIL 

*É COLUNISTA E ESCRITOR

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