Cristina VEGA / AFP
Cristina VEGA / AFP

Cenário: Futuro do presidente do Equador está nas mãos do Exército

Os indígenas estão nas ruas agora após anos de frustração por Lenín Moreno impulsionar a mineração e ignorar suas promessas de preservar suas terras

Elías L. Benarroch, EFE

10 de outubro de 2019 | 10h00

QUITO - O presidente do EquadorLenín Moreno atravessa seu pior momento desde que foi eleito, em maio de 2017. Milhares de manifestantes exigem que ele volte atrás no corte dos subsídios aos combustíveis, uma exigência para que o FMI libere um pacote de ajuda. “Exigimos a revogação das medidas econômicas”, disse Guillermo Churuchumbi, ex-presidente do movimento indígena Kayambi. Para ele, o objetivo é “diálogo”, não o fim do governo de Moreno.

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Desde os anos 90, os povos indígenas adquiriram um poder político considerável no Equador. Por meio de suas organizações, eles conseguiram obter uma grande capacidade de influenciar muito além de sua representatividade demográfica – eles são 7% da população (segundo levantamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, levando em conta apenas aqueles que ainda vivem em tribos).

Essa relevância ocorre em razão de sua idiossincrasia, caracterizada pelo espírito andino de resistência, tomada de decisão coletiva e um forte poder de mobilização, que se traduz em uma massa de dezenas de milhares de pessoas dispostas a alcançar o objetivo definido por seus líderes comunitários.

Em sua estratégia, bloqueiam estradas – às vezes sem nem sequer ocupá-las –, criam uma crise de abastecimento urbano e levam o caos para as grandes cidades. Eles garantem que fazem tudo guiados pelo interesse coletivo das nacionalidades, 13 no total. Churuchumbi explica que a suposta relação do movimento com o “correísmo” é totalmente infundada e garante que as acusações são uma trama de “conspiradores” que querem derrubar Moreno.

Os indígenas estão nas ruas agora após anos de frustração por Moreno impulsionar a mineração e ignorar suas promessas de preservar suas terras. Educação, água, poluição, petróleo e mineração se tornaram componentes explosivos de uma bomba-relógio perfeita prestes a explodir. Nos últimos dias, o presidente estendeu a mão para a Confederação de Nacionalidades Indígenas da Equador (Conaie), mas foi rejeitado. Para o analista Santiago Basabe, os povos indígenas têm dificuldade para superar um discurso atrasado, muito ligado ao vandalismo, aos saques e à destruição do patrimônio público.

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A luta da Conaie se soma à dos sindicalistas e à da oposição, que nos últimos dias também protestam contra o pacote econômico de Moreno. As medidas causaram um aumento no preço dos combustíveis, entre eles o diesel, que é o oxigênio dos agricultores e afeta diretamente os povos indígenas, já que 70% deles vivem em áreas rurais.

A pressão indígena provou ser eficaz há duas décadas, quando derrubou o presidente Jamil Mahuad, em 2000. Eles também desgastaram a presidência de Lucio Gutiérrez, de 2003 a 2005, e causaram alguns problemas para Rafael Correa, principalmente depois que ele, em 2013, decidiu abrir a Reserva Natural Yasuni, na Amazônia, à exploração de petróleo.

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A grande questão é qual será o impacto dos indígenas agora, no governo de Moreno, que mantém apoio de empresários e do Exército. As manifestações, a repressão em meio a um estado de exceção, as eventuais vítimas e a desordem social serão decisivas para o presidente, que, em um gesto sem precedentes na história política equatoriana, mudou temporariamente a sede do seu governo para Guayaquil. O futuro de Moreno depende, mais do que nunca, do apoio crucial das Forças Armadas.

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