Reuters
Reuters

CENÁRIO: Kim envia ao politburo sinal de que pressão externa será inócua

A retomada da pressão contra os vizinhos próximos e o Ocidente sinaliza que turbulências estão ocorrendo no interior do regime de Kim

Felipe Corazza*, O Estado de S. Paulo

17 de março de 2016 | 07h00

Quando, em novembro de 2014, a Coreia do Norte decidiu soltar o missionário Kenneth Bae, cidadão americano de origem sul-coreana, da prisão, o gesto foi encarado como um sinal unilateral de abertura de Pyongyang ao diálogo. Condenado em 2013 a 15 anos de trabalhos forçados, Bae era acusado de operar pela derrubada do regime da família Kim por meio do proselitismo religioso e cooperação com outros conspiradores que teriam bases na China. Juntamente com ele, foi libertado outro cidadão americano, Matthew Todd Miller, que rasgou seu passaporte americano durante uma visita ao país asiático – gesto interpretado pela Justiça norte-coreana, por incrível que pareça, como uma “tentativa de espionar o sistema carcerário” do país.

O relaxamento das prisões de Bae e Miller trouxe um alívio à diplomacia americana, representada na Coreia do Norte pela Suécia, e a perspectiva de um diálogo finalmente produtivo entre todas as partes envolvidas nas negociações com a Coreia do Norte – uma retomada do chamado “diálogo de seis partes” com os norte-coreanos, envolvendo EUA, China, Rússia, Japão, Coreia do Sul. 

Formando um pacote que reverte drasticamente tal perspectiva, a condenação de Otto Frederick Warmbier soma-se ao lançamento de um novo foguete espacial em fevereiro (a justificativa oficial norte-coreana foi a colocação em órbita de um satélite, mas tais operações são sempre vistas pelos países envolvidos como um teste de desenvolvimento de mísseis balísticos), à suspeita de um teste nuclear com bomba de hidrogênio em janeiro e às declarações recentes de Kim Jong-un sobre avanços no programa de miniaturização de ogivas nucleares – prometendo um teste atômico para as próximas semanas.

A retomada da pressão contra os vizinhos próximos e o Ocidente sinaliza que turbulências estão ocorrendo no interior do regime de Kim. A opção pela radicalização, já feita no passado inúmeras vezes, mostra que as novas sanções impostas pela comunidade internacional após o teste com a suposta bomba de hidrogênio provocaram aperto na forma, praticamente única, de sustentação no poder exercida pela família: o investimento pesado no setor militar, destinando recursos à casta superior das Forças Armadas em detrimento da população civil.

Kim precisa acalmar o politburo de seu Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte com demonstrações de força e garantias explícitas de que sua prioridade continuará sendo a escalada militar, enquanto sua população depende quase que exclusivamente de ajuda externa de organizações como a ONU para se alimentar. Desta vez, a pena de trabalhos forçados de Warmbier pode ser a forma que o líder encontrou para dizer a seus generais que continua fiel às bases do regime mesmo com as pressões externas que vêm crescendo e partindo até do maior aliado do país, a China. Há três dias, o representante especial da ONU para a questão dos direitos humanos na Coreia do Norte, Marzuki Darusman, afirmou que Kim e outras autoridades do país precisam ser processados em cortes internacionais. A condenação de Warmbier, que aguardava julgamento, é a resposta que Pyongyang envia a Genebra.

*É SUBEDITOR DE INTERNACIONAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.