AP Photo/Eduardo Verdugo
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Cenário: López Obrador assume riscos ao receber Evo Morales

No México, houve uma divisão imediata. Na Cidade do México, os dois principais tópicos de tendências no Twitter foram #EvoBienvenido e #EvoNoEsBienvenido

Kevin Sieff, Gabriela Martínez e Rachelle Krygier / W.Post , O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 06h00

Nos últimos anos, Evo Morales contestou os limites de mandatos e prendeu líderes da oposição, mas cultivou um forte aliado no México: Andrés Manuel López Obrador, um ex-ativista que fez carreira política defendendo os direitos dos indígenas, uma causa que o conectou ao boliviano. 

Quando López Obrador foi eleito presidente do México, no ano passado, convidou Evo para sua posse. Evo retribuiu, chamando o mexicano de “brilhante esperança”. Até esta semana, essa lealdade parecia de pouca relevância geopolítica. Mais uma conexão retórica entre as vanguardas do populismo latino-americano, um grupo cada vez menor de líderes, na era do brasileiro Jair Bolsonaro, do colombiano Iván Duque e do chileno Sebastián Piñera

No domingo, Evo foi forçado a sair do poder e o governo mexicano imediatamente lhe ofereceu asilo político. Sua fuga para o México permite que Obrador reafirme sua lealdade esquerdista, depois de um ano em que implementou uma série de políticas anti-imigração, por pressão dos EUA, e pressionou pela aprovação de um novo acordo de livre-comércio com os americanos (Nafta).

Em tais ações, muitos viram Obrador se afastando da esquerda. Ao receber Evo, ele toma partido ao lado de um dos conflitos políticos mais voláteis da região.

“Irmãs e irmãos, parto para o México grato pelo desapego do governo daquele irmão que nos deu asilo para proteger nossas vidas”, tuitou o boliviano, na noite de segunda-feira. “Causa-me dor abandonar o país por razões políticas, mas sempre estarei presente. Em breve voltarei com mais força e energia.” 

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Carlos Bravo Regidor, analista político mexicano, disse que dar asilo a Morales foi a “coisa certa a fazer”. “Mas se foi certo para os interesses da política externa mexicana, eu não sei. Onde isso deixa o México? Agora fazemos parte do eixo bolivariano?”, questiona. No México, houve uma divisão imediata. Na Cidade do México, os dois principais tópicos de tendências no Twitter foram #EvoBienvenido e #EvoNoEsBienvenido.

Alguns analistas aprovaram a oferta de asilo, desde que esta não venha com uma mensagem ideológica. A Constituição do México não permite a reeleição de um presidente, fazendo com que a tentativa de Evo de permanecer no poder na Bolívia seja preocupante para muitos. 

“Espero que, com isso, o governo mexicano não esteja enviando a mensagem de que há apoio para permanecer no poder além dos limites do mandato”, disse Emilio Alvarez Icaza, senador e ex-ativista de direitos humanos. “Se esta é apenas uma resposta humanitária, eu a apoio. Mas, se o governo quiser legitimar o prolongamento do mandato de Obrador, eu sou contra.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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