Eitan Abramovich e Pablo Porciuncula/AFP
Eitan Abramovich e Pablo Porciuncula/AFP

Cenário: Mais uma mudança de poder à vista na América Latina

Com os governantes passando por dificuldades em toda a América Latina, a guinada à direita no Uruguai ficou clara nas eleições gerais de 27 de outubro

Ken Parks/ W.Post, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2019 | 07h00

Os uruguaios elegerão seu presidente no domingo, 24, e as pesquisas sugerem que o Partido Nacional, de centro-direita, está prestes a encerrar 15 anos de governo de esquerda, em mais uma mudança de poder na América Latina.

O ex-senador Luis Lacalle Pou, filho de um ex-presidente, é o atual favorito para se tornar o próximo líder do Uruguai. Político de carreira com quase duas décadas de Congresso e uma candidatura à presidência fracassada em 2014, Lacalle Pou tem como principal proposta política a restauração da confiança dos investidores, por meio de cortes de gastos. Os assessores do candidato da oposição prometem reduzir US$ 900 milhões em gastos desnecessários apenas em 2020.

Com os governantes passando por dificuldades em toda a América Latina, a guinada à direita no Uruguai ficou clara nas eleições gerais de 27 de outubro. Revigorada, a oposição se aproveitou do descontentamento dos eleitores com a economia estagnada e o desemprego e a criminalidade crescentes para acabar com o domínio da Frente Ampla no Congresso.

A economia do Uruguai não parou de crescer desde 2003, permitindo que a Frente Ampla expandisse o gasto com programas sociais, aposentadorias e assistência médica. No entanto, o afrouxamento fiscal gerou déficits insustentáveis que nem mesmo repetidos aumentos de impostos conseguiram compensar.

O candidato da Frente Ampla, Daniel Martinez, ex-governador de Montevidéu, venceu Lacalle Pou no primeiro turno da corrida presidencial, em 27 de outubro, mas outros candidatos da oposição já se uniram ao candidato do Partido Nacional, empurrando-o para a liderança.

Com o acesso do Uruguai ao crédito barato ameaçado por um déficit geral do setor público próximo de 5% do PIB, Lacalle Pou prometeu restaurar a ordem das finanças do país.

Medidas de combate ao déficit em outros países da América do Sul provocaram uma reação de alguns grupos poderosos e de eleitores nos últimos meses.

'Austeridade selvagem'

O descontentamento social que varreu a região se infiltrou na campanha presidencial do Uruguai, com Martinez alertando aos eleitores que uma vitória da oposição significaria anos de uma austeridade “selvagem” que poderia desestabilizar o país.

“Acreditar que a redução do estado pode ser feita sem custo social para a maioria é, no mínimo, ilusório. Você sabe como isso acaba? Como acabou na Argentina, no Brasil, como o que está acontecendo em nossa amada América Latina”, disse Martinez, 62 anos, a seus correligionários no discurso de encerramento de sua campanha, na quarta-feira.

Lacalle Pou, por sua vez, disse aos eleitores que as políticas da Frente Ampla trouxeram aumento de impostos e do desemprego e falências.

“Formador de equipes”

O candidato da oposição não carrega a bagagem ideológica dos políticos uruguaios mais velhos, os quais atingiram a maioridade durante a Guerra Fria, nem adotou seu estilo de liderança rígido e impositivo, de acordo com Pablo da Silveira, membro do círculo íntimo de Lacalle Pou que supervisionou a elaboração de suas propostas políticas.

“Ele é um formador de equipes. Delega muito”, disse Silveira, escolhido pelo candidato para ser ministro da Educação.

Nascido na elite política do país, Lacalle Pou não esconde seu passado privilegiado. Mas seu opulento estilo de vida – incluindo uma casa em condomínio fechado e uma paixão pelo surf – não chegou a ser um problema político em um país bastante cético quanto às pompas da riqueza.

Poucos dias depois da votação do mês passado, ele anunciou uma coalizão de cinco partidos, que abarca o centro da esquerda para a direita, o que daria à presidência 17 dos 30 assentos no Senado e 56 dos 99 na Câmara.

Se Lacalle Pou vencer no domingo, o tempo de vida da coalizão dependerá, em grande parte, de seu desempenho como presidente, disse a cientista política e consultora Fernanda Boidi.

“Se o governo não se sair bem, haverá motivos para desembarcar mais cedo”, disse ela. “Conforme nos aproximarmos do próximo ciclo eleitoral, os líderes da coalizão terão mais incentivo para romper com Lacalle Pou."

As habilidades de liderança do candidato do Partido Nacional e a coesão da aliança provavelmente serão postas à prova se, como presidente, ele tentar cumprir suas promessas de campanha de eliminar gastos desnecessários e revisar os sistemas de pensão e educação pública.

“O próximo ano será muito turbulento, porque teremos de tomar decisões se quisermos mudar as coisas”, disse o parlamentar do Partido Nacional Jorge Gandini em entrevista. Ele alertou que provavelmente haverá uma “reação” da esquerda.

Propostas políticas

Martinez:

Criar 90 mil novos empregos; capacitar pelo menos 400 mil pessoas;

Apoio governamental a setores de rápido crescimento;

Reduzir o déficit por meio de reforma da previdência social e crescimento mais rápido;

Policiamento mais eficaz, reabilitar criminosos condenados.


Lacalle Pou:

Reformas na previdência social e na educação pública;

Preços de combustível e energia mais baixos, para deixar as empresas mais competitivas;

Atacar o déficit cortando gastos desnecessários, sem aumento de impostos;

Policiamento mais eficaz, reabilitação de criminosos condenados. 


TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.