Ilana Panich-Linsman|NYT
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Cenário: Massacre no Texas muda percepção sobre o ‘Black Lives Matter’

Movimento, que teve imagem associada ao atirador Micah Johnson, viu surgirem na semana passada slogan pró-polícia e mensagens iradas dirigidas a ativistas

Michael Barbaro e Yamiche Alcindor / NYT, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2016 | 21h14

Foi como um divisor de águas num movimento criado recentemente, e ainda disperso, pelos direitos civis. Dentro do “Black Lives Matter”, a revolta nacional provocada pelos vídeos que mostravam policiais matando negros em Minnesota e Louisiana foi uma prova inegável de que a mensagem de indignação e exigência por justiça do grupo finalmente se impunham.

O governador branco de Minnesota, Mark Daylon, aderiu ao argumento fundamental do grupo, mas então, num instante, tudo mudou. Agora o “Black Lives Matter” enfrenta talvez a maior crise de sua história: procura distanciar-se de um atirador afro-americano em Dallas que resolveu assassinar policiais brancos e tenta refutar um coro de detratores que acusam o grupo de inspirar o ataque.

“O que vi em Dallas foi devastador para o nosso trabalho”, disse Jeddiah Brown, um pastor de Chicago que despontou como ativista do movimento no ano passado. Ao ser informado do ataque contra a polícia, ele disse que imediatamente se deu conta de que o nascente consenso nacional estava “se desagregando”. Para os que tinham alguma dúvida ou animosidade em relação ao “Black Lives Matter” – entre eles as associações de policiais e líderes conservadores – o ataque de Dallas é a arma que, certo ou não, estão ansiosos por utilizar.

O deputado estadual Bill Zedler, republicano, criticou energicamente a influência do grupo sobre o atirador de 25 anos, Micah Johnson. “Não há dúvida de que a retórica do ‘Black Lives Matter’ encorajou o autor dos disparos contra os policiais de Dallas”, escreveu ele no Twitter.

Um problema maior para o movimento, apoiado por vários liberais, é a possibilidade de o ato de Johnson comprometer o apelo do movimento junto a um grupo maior de americanos, que tem demonstrado simpatia por sua causa após a imprensa divulgar por anos o assassinato de negros pela polícia.

Nos dias que antecederam o massacre em Dallas, Aesha Rasheed, 39, ativista de New Orleans, pensou que finalmente a América branca e negra estava olhando as mesmas imagens com o mesmo horror: dois policiais da Louisiana espancando e atirando em Alton Sterling; e Philando Castile, 32 anos, no interior do veículo, encharcado de sangue, depois que o policial atirou nele pela janela. 

Depois do massacre em Dallas, ela afirmou: “As coisas mudaram completamente”. Agora, ela teme que episódios envolvendo negros sejam negligenciados e eclipsados.

Num sinal de alarme, dada a instabilidade da situação, os líderes de várias organizações ligadas ao movimento negro emitiram declarações formais descrevendo o autor do massacre de Dallas como um atirador solitário, sem vinculação com a causa do grupo.

“Alguns estariam dispostos a usar esses acontecimentos para asfixiar o movimento pela mudança e calar um discurso vibrante sobre os direitos humanos dos negros”, afirma um comunicado do “Black Lives Matter”. “Nós devemos rejeitar tudo isso”.

O mundo talvez espere um período de reflexão e comedimento por parte do grupo. Mas o confronto público, não violento, em lugar da conciliação privada, é fundamental para a missão do grupo. O estilo provocador por vezes inflamou aliados do movimento.

O movimento nasceu como slogan depois da absolvição de George Zimmerman da acusação de assassinato de Trayvon Martin, na Flórida, um adolescente negro desarmado. Hoje, são pelo menos 37 grupos atuando sob o nome do movimento, e milhares de participantes se identificam com sua causa.

Na mídia social, os ativistas do grupo viram surgir desesperados na semana passada um slogan enfurecido contra os assassinatos dos policiais de Dallas e mensagens iradas dirigidas a ativistas e manifestantes. A hashtag #blacklivesmatter foi seguida por #bluelivesmatter, referência aos policiais. 

Enquanto comentaristas conservadores acusavam o movimento de ser “um grupo terrorista que comete crimes de ódio”, ativistas refletiam sobre as reiteradas tentativas em toda a história americana de desacreditar os grupos e os líderes dos movimentos pelos direitos civis. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* Michael Barbaro e Yamiche Alcindor são jornalistas

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