EFE/EPA/YOAN VALAT
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Cenário: Novo presidente da França liderará Terceira Via na Europa

Emmanuel Macron representa movimento político que, por duas vezes nos últimos 25 anos, esteve às portas do poder na França

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 21h51

Bacharel em filosofia e mestre em administração pela prestigiada Escola Nacional de Administração, Emmanuel Macron, de 39 anos, é o oitavo presidente eleito da Quinta República da França, iniciada em 1958. Ex-inspetor de finanças no funcionalismo público e ex-banqueiro do Banco Rothschild, foi membro do Partido Socialista (PS) entre 2006 e 2009, legenda que abandonou antes de ingressar na carreira política.

Sua porta de entrada na vida pública foi o cargo de secretário-geral adjunto e conselheiro direto do presidente socialista François Hollande, a partir de 2012. Em 2014, foi nomeado ministro da Economia, da Indústria e do Digital, sendo responsável pelas primeiras reformas de flexibilização do mercado de trabalho.

Insatisfeito com a baixa capacidade de reforma do governo e da bancada do PS na Assembleia Nacional, Macron fundou em abril de 2016 o En Marche! (Em Movimento!), um novo movimento político de centro-esquerda. Sua matriz ideológica é social-liberal, a fusão de princípios social-democratas e liberais lançada pelo sociólogo britânico Anthony Giddens, professor da Universidade de Cambridge.

Seu mais importante livro, The Third Way: The Renewal of Social Democracy (A Terceira Via: a renovação da social-democracia, de 1998), é a fonte de inspiração do Instituto Montaigne, do think tank Terra Nova e do grupo Les Gracques, que reúne empresários e altos funcionários do Estado. Essas três organizações militam por reformas econômicas que liberem o mercado de trabalho, a exemplo do modelo de flexi-seguridade dos países nórdicos, sem destruir as bases do Estado de bem-estar social, como a educação e a saúde públicas e gratuitas. Outro ponto em comum das três instituições, que estão por trás do plano de governo de Macron, é o fato de que estimulavam uma aliança entre o PS e o Movimento Democrático (MoDem), principal legenda centrista da França. Mais do que uma aliança, Macron apostou na fusão, criando o En Marche!, um movimento prestes a se transformar em um partido que reunirá membros de centro-esquerda à centro-direita.

Nos últimos 25 anos, por duas vezes os partidários do social-liberalismo estiveram às portas do poder na França. A primeira foi com o socialista Jacques Delors, histórico presidente da Comissão Europeia, um dos artífices da integração e da moeda única, nos anos 90. A segunda tentativa ocorreria com Dominique Strauss-Kahn, ex-ministro das Finanças e diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja campanha ao Palácio do Eliseu foi abortada pelo escândalo sexual em Nova York, que o levou à prisão em 2011. Em lugar de Strauss-Kahn, quem venceu foi François Hollande, o presidente mais impopular da história contemporânea da França.

Em uma solenidade diante da pirâmide do Museu do Louvre, símbolo de alta cultura, o presidente eleito foi alvo de uma estratégia de comunicação política bem pensada para lhe emprestar uma estatura de “homem de Estado”, que os franceses tanto exigem de seus governantes. Macron chegou sob o som de Nona Sinfonia de Beethoven, adotada como hino da União Europeia. O símbolo fala por si: frente à nacionalista Marine Le Pen, Macron se coloca como defensor da França moderna, europeísta e integrada à globalização. Com a vitória, Macron torna-se o novo líder da Terceira Via na Europa - um prenúncio de reformas profundas no país e em Bruxelas.

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