Lorne Campbell / Reuters
Lorne Campbell / Reuters

Cenário: O Brexit de Johnson poderá dividir o Reino Unido

Escócia já pensa em referendo sobre independência e as Irlandas falam em reunificação

Ishaan Tharoor / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2019 | 05h00

Em seu primeiro discurso como novo premiê britânico, Boris Johnson fez suas habituais bravatas: “Quem apostar contra o Reino Unido vai perder tudo o que tem, pois vamos restaurar a confiança na nossa democracia”, afirmou, reiterando sua promessa de conduzir a saída do país da União Europeia em 31 de outubro sem reticências nem restrições.

Na terça-feira, a libra atingiu seu patamar mais baixo em dois anos, uma reação ao alerta crescente quanto à possibilidade de o governo Johnson retirar o Reino Unido da Europa sem nenhum acordo. Seu gabinete está repleto de defensores radicais da saída, que, como Johnson, querem que o Reino Unido se retire da UE sem custos.

Um ministro já sugeriu que o governo vem trabalhando com base na “hipótese” de que o país tem de se preparar para uma saída “sem nenhum acordo”. Um cenário em que as tarifas imediatamente causarão um impacto sobre as exportações britânicas para o continente, o caos financeiro e atrasos nos controles das fronteiras, além de uma variedade sem fim de outros problemas.

Johnson, destemido, entrou num jogo arriscado com Bruxelas e Dublin.

No fim de semana falou duramente sobre suas intenções com relação ao Brexit, expressando sua oposição à “fronteira irlandesa” – um acordo vigente entre Reino Unido e UE preservando uma fronteira entre República da Irlanda e Irlanda do Norte que teoricamente manteria toda o território britânico na união alfandegária do bloco europeu.

Diplomatas europeus insistem que o atual acordo de saída, incluindo as condições relativas à fronteira irlandesa – tema de meses de penosas conversações entre Theresa May e os 27 membros da UE – não será renegociado. Johnson se diz indignado com a posição deles e tem afirmado que não se reunirá com os líderes da EU enquanto não reconsiderarem sua posição neste assunto.

Por outro lado, autoridades em Bruxelas podem estar esperando que Johnson se veja compelido a pestanejar primeiro e o Parlamento britânico tome medidas para bloquear uma saída sem nenhum acordo. Este também pode ser um cenário desejado por Johnson. Outro impasse em Westminster levaria a uma eleição geral antecipada que resultaria num Parlamento mais inclinado a apoiar o programa dele.

“O cenário mais provável é Boris ir a Bruxelas e a UE dizer não e Boris dizer: ‘Bruxelas está dando ordens para nós. Queremos um acordo, mas eles não nos permitem fazer um acordo’”, afirmou o professor Steven Fielding, da Universidade de Nottingham à Associated Press. “A ideia seria intensificar tudo isso e dizer então ‘venham e me apoiem no caminho para nosso glorioso Brexit – e convocar uma eleição’.”

Mas o quadro interno não é tão auspicioso para Johnson também.

Por dois dias consecutivos o premiê foi recebido por multidões de manifestantes protestando em seu tour pela Escócia e outras nações do Reino Unido. Na segunda-feira foi recebido friamente pela primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon e obrigado a deixar a residência dela em Edimburgo pela porta dos fundos para evitar os manifestantes enraivecidos.

“A população da Escócia não votou neste governo conservador, não votou neste novo primeiro-ministro, não votou em favor do Brexit e, certamente, não votará num Brexit catastrófico, sem nenhum acordo, que Boris Johnson está pretendendo”, afirmou a premiê antes da chegada dele.

Como reportaram meus colegas do Washington Post, o caos e os danos decorrentes de um Brexit sem nenhum acordo devem acelerar os apelos no sentido de um novo referendo de independência na Escócia – uma causa que tem o apoio do Partido Nacionalista Escocês de Nicola Sturgeon.

No dia seguinte, no País de Gales, Johnson encontrou um primeiro-ministro também hesitante. Mark Drakeford, membro do Partido Trabalhista, advertiu em uma entrevista ao jornal The Guardian que um Brexit sem acordo colocará em risco os setores de agricultura e de manufatura de Gales e “um modo de vida que existe há séculos”. E sublinhou que o estilo bombástico característico de Johnson está testando a unidade do próprio Reino Unido.

“Acho que a união hoje está mais em risco no Reino Unido do que em qualquer outro momento da minha vida política”, afirmou, sublinhando que Escócia e a Irlanda do Norte votaram quase unanimemente pela permanência na União Europeia.

Johnson viajou para Belfast na quarta-feira, encerrando seu tour.

Lá, ele se reuniu com líderes inimigos dos principais partidos da Irlanda do Norte, que não tem um governo local em funcionamento desde 2017, e anunciou novo financiamento para criação de empregos e oportunidades de negócios. Mas poucos se mostraram impressionados com este giro do premiê.

“As ambições do primeiro-ministro estão numa rota perigosa de colisão”, observou editorial do Financial Times, referindo-se ao desejo expressado por Johnson de fortalecer os laços entre as quatro nações que fazem parte do Reino Unido e desvincular rapidamente o país da União Europeia.

“O Brexit promete debilitar os vínculos entre as nações das ilhas britânicas. E na sua forma mais extrema, que parece ser a hipótese de trabalho do novo governo Johnson, ele vai infligir estragos consideráveis e desencadear um processo que terminará na dissolução da união”.

E o estrago mais intolerável seria no caso do Mar da Irlanda. Um Brexit que não incluir a fronteira irlandesa alimentará velhas tensões, explicou meu colega Siobhán O’Gray; “A fronteira é um caso extremamente delicado na Irlanda porque o acerto vigente foi negociado como parte do Acordo de Belfast assinado em 1998, que encerrou um período de 30 anos de conflito.

Durante este período, a violência sectária entre unionistas, que desejavam que a Irlanda do Norte continuasse a fazer parte do Reino Unido, e os nacionalistas, que queriam se integrar à República da Irlanda, deixou mais de 3.500 mortos. Hoje há temores de que a restauração de controles rígidos de fronteira provoque uma nova onda de tensões reminiscentes daquela era”.

É por isso que autoridades em Dublin e Bruxelas entendem que a questão da fronteira não pode ser negociada. Na terça-feira, quase uma semana depois de assumir o governo, Johnson fez sua primeira chamada telefônica para o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar.

Sua conversa, segundo informações, foi exasperada e não particularmente produtiva. De acordo com uma leitura irlandesa, Varadkar lembrou a Johnson de que a fronteira foi “uma consequência” de decisão política do Reino Unido de levar adiante o Brexit e a Irlanda tinha toda a força da União Europeia atrás dela.

Na sexta-feira Varadkar sugeriu a possibilidade de a Irlanda do Norte cortar seus laços com o Reino Unido na hipótese de um Brexit sem nenhum acordo. “Penso que veremos cada vez mais protestantes e unionistas liberais se perguntando onde se sentem mais em casa e, por isso, uma das coisas que, ironicamente, vai corroer a união do Reino Unido é um Brexit duro, tanto para a Irlanda do Norte como para a Escócia, e este é um problema que eles vão ter de enfrentar”, afirmou ele.

Não foi por acaso que o ex-premiê britânico Gordon Brown observou, durante um evento em Londres na semana passada, que Johnson poderá ser lembrado “não como o 55º primeiro-ministro do Reino Unido, mas como o primeiro-ministro da Inglaterra”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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