REUTERS/Jorge Silva
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Cenário: O círculo sinistro da Venezuela na espiral da morte

o país com as maiores reservas mundiais de petróleo tem de recorrer ao trabalho forçado para tentar se alimentar

 Matt O’Brien / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2016 | 05h00

A Venezuela está presa num círculo sinistro que derivou para uma espiral da morte. Os armazéns estão vazios e o povo passa fome. A culpa é do governo, que tentou revogar a lei da oferta e da procura e, no processo, acabou com qualquer iniciativa do comércio de vender coisas. Como resultado, o país com as maiores reservas mundiais de petróleo tem de recorrer ao trabalho forçado para tentar se alimentar. 

Assim, a Venezuela dá novo significado à expressão “a revolução devora-se a si mesma”. Como chegou a isso? Bem, a Venezuela, de qualquer modo, viveria tempos difíceis com a queda do preço do petróleo de US$ 110 para US$ 40 o barril, como ocorreu nos dois últimos anos. É porque o país tem menos uma economia que um setor de exportação de petróleo que subsidia tudo, respondendo por 95% dos ingressos do país. Mas, mesmo assim, a crise da baixa do petróleo golpeou mais a Venezuela do que qualquer outro petro-Estado. Para se dar um exemplo, o FMI calcula que a economia russa encolherá “apenas” 1,8% neste ano e a da Venezuela, 10%. Essa é a diferença entre uma recessão aceitável e o colapso total. 

A crise venezuelana é totalmente criada pelo homem. O melhor paralelo seria um ciclo de destruição que começasse com inflação, continuasse com o controle de preços, chegasse à escassez e, finalmente, às nacionalizações. É assim que funciona – ou melhor, não funciona. 

Inflação. Mesmo quando o petróleo pairava nos três dígitos, o governo venezuelano estava no vermelho. O problema foi que a petrolífera estatal parou de produzir como produzia quando o então líder Hugo Chávez tirou dinheiro da operação dos campos para pôr em gastos sociais. No começo, o regime estava apenas gastando mais do que tinha; mas, com a queda vertiginosa do preço do óleo, o gasto passou a ser mais do que o país conseguia pegar emprestado. Então, começou a fazer o que todo governo em bancarrota faz: imprimir o dinheiro de que necessita. O que fez com que a inflação fosse de 19% ao ano em 2012 para, segundo estimativa do FMI, 720% neste ano e uma projeção de 2.200% no ano que vem. 

Controle de preços. A Venezuela recorreu a uma estratégia para enfrentar o aumento generalizado de preços: fingir que isso não estava ocorrendo. O governo informou às empresas quanto estavam autorizadas a cobrar por seus produtos e então vendeu a um grupo de empresários dólares com tarifas baixas para que pudessem importar o que precisassem e continuassem vendendo a preços fortemente subsidiados. Na verdade, o que o governo está tentando é subjugar à força a inflação. Não está funcionando. 

Escassez. O problema é que, para negócios não subsidiados, não é lucrativo fazer estoque; e, para os subsidiados, também não é suficientemente lucrativo fazer isso. Por quê? Porque os empresários podem vender com mais lucro os dólares baratos que recebe do governo do que revender as supostas importações que fazem com esses dólares. Por isso o país enfrenta falta de tudo – de alimentos a remédios e papel higiênico.

Nacionalizações. Que fazer, então, quando os empresários se recusam a vender mercadorias com prejuízo? Fácil. Primeiro, o governo os responsabiliza pela crise; em seguida, ele mesmo passa a vender, com prejuízo. Foi o que aconteceu quando encampou as fábricas de papel higiênico, em 2013, e é o que ameaça fazer hoje com as maiores processadoras de alimentos. Mas isso significa desperdiçar ainda mais o dinheiro que o governo não tem – o que, por sua vez, significa imprimir sempre mais. E por aí vai. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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