Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Cenário: O desafio de lidar com uma crise na região sem a ajuda dos EUA

Embaixador da Colômbia em Washington tenta induzir governo Trump a entrar na mais séria crise política e humana da América Latina em décadas

Jackson Diehl* / W. POST, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2018 | 05h00

Enquanto os venezuelanos fogem do país, os vizinhos latino-americanos enfrentam um teste crítico: é possível responder eficazmente, sem a ajuda dos EUA, a uma crise que ameaça a própria estabilidade? “É triste admitir, mas não temos condições”, disse o embaixador da Colômbia em Washington, Francisco Santos.

Desde sua chegada, há algumas semanas, Santos vem tentando fazer o impossível: induzir o governo de Donald Trump a entrar na mais séria crise política e humana da América Latina em décadas. Sob a desastrosa gestão de um regime socialista autoritário, a economia venezuelana viu-se reduzida à metade em cinco anos. Dois milhões já deixaram o país – e o êxodo continua. 

Santos diz que a Colômbia absorve 5 mil venezuelanos a cada dia, além do 1 milhão de refugiados que já estão no país. São números avassaladores para um país relativamente pobre que tenta se recuperar de décadas de violentas desordens. “Isso pode levar a Colômbia a uma crise de proporções nunca vistas”, disse o embaixador. “Não só a Colômbia, mas toda a América Latina pode ser desestabilizada.”

Entre 1890 e 1990, sabia-se bem o que acontecia frente a uma crise dessa magnitude na região: os EUA intervinham, forçando a realização de eleições, apoiando rebeldes, articulando golpes ou, se julgassem necessário, invadindo países. No entanto, Trump é o terceiro presidente americano que evita se meter na crise venezuelana.

O governo Trump vem tomando medidas paliativas, como sancionar altos líderes de Caracas e contribuir com fundos para melhorar a situação de refugiados. Mas os EUA têm tão pouco empenho em dar uma resposta à crise na Venezuela. Isso deixa na Venezuela um vazio que aliados dos EUA lutam para preencher e do qual seus adversários tiram vantagem. A China acaba de conceder mais um empréstimo, de US$ 5 bilhões, ao regime de Maduro e a Rússia está ajudando a Venezuela a manter suas refinarias e postos de gasolina nos EUA. 

Em termos práticos, uma invasão direta dos EUA à Venezuela estaria destinada ao fracasso. Ela arrastaria toda a América latina e, mesmo que houvesse pouca resistência armada, seria difícil encontrar ou montar um governo alternativo. Entretanto, alguns grupos da região começam pensar em uma intervenção humanitária multilateral, que se seguiria a um golpe palaciano contra Maduro – ou, talvez, a outra rebelião desesperada de uma população sem comida, remédios e energia elétrica. Os EUA estão tão despreparados para essa contingência quanto para arcar com as consequências do outros milhões de venezuelanos entrando na Colômbia. Santos está certo: é hora de começarem a se preparar. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É JORNALISTA

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