Alexei Druzhinin / SPUTNIK / AFP
Alexei Druzhinin / SPUTNIK / AFP

Cenário: O elo entre a popularidade de Putin e sua política externa

Ideia de que líderes mundiais tomem decisões de política externa com base em questões internas não é incomum

Adam Taylor / W. POST, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2018 | 05h00

O mundo se viu diante de uma nova ameaça de um conflito aberto entre Rússia e Ucrânia, depois de Moscou fechar o acesso marítimo de Kiev ao Mar de Azov. A situação se soma a anos de tensão entre os dois países, depois da renúncia de um presidente pró-Kremlin, em 2014, e da subsequente anexação da Península da Crimeia. No entanto, apesar de o impacto da ação russa em nível global, seus motivos para uma atitude tão agressiva poderiam ser domésticos?

A economia russa está presa em uma estagnação de longo prazo. A proposta de reformar a previdência tem se mostrado impopular. Uma eleição regional, no mês passado, teve a derrota de vários candidatos do presidente Vladimir Putin. Para Kimberly Marten, especialista em Rússia do Barnard College, Putin pode estar provocando outra crise internacional para obter apoio doméstico. A ideia de que líderes mundiais tomem decisões de política externa com base em questões internas não é incomum, principalmente nos EUA, onde a prática foi retratada no filme Mera Coincidência, de 1997. 

Com Putin, no entanto, essas acusações têm sido particularmente persistentes. De fato, quando você compara as pesquisas de opinião na Rússia com atos de agressão externos, parece haver alguma correlação. Isso ocorreu pelo menos em duas ocasiões: a invasão da Geórgia, em 2008, e a anexação da Crimeia, em 2014. Na última, a aprovação do presidente cresceu 20 pontos porcentuais. Na primeira, 8 pontos. 

Em 2008, no entanto, o Putin era primeiro-ministro do então presidente Dimitri Medvedev. A aprovação do governo como um todo, naquela época, chegou ao recorde de 66%. Em 2014, esse número foi repetido. 

Putin tem uma longa reputação de cinismo, que, na verdade, data de seu primeiro mandato como premiê, ainda em 1999, com teorias não provadas do envolvimento do governo em ataques terroristas. Essa reputação persiste hoje, com a suspeita de interferência russa na eleição americana de 2016 e no assassinato de um ex-espião no Reino Unido. 

Mas seria mesmo tão simples? Claramente há problemas em analisar os números referentes à opinião pública em um país autoritário como a Rússia, onde grande parte da imprensa é alinhada com o governo. Mesmo com indicadores ruins, a aprovação de Putin é alta quando comparada com a de líderes ocidentais. 

No entanto, existe a questão de causa e efeito. Certamente, podemos teorizar que as ações da Rússia na Geórgia e na Crimeia levaram a um apoio com base no patriotismo. Mas será que o governo russo perseguiu esses objetivos? Nos dois casos, o Kremlin reagiu a eventos que não estavam totalmente sob seu controle. 

Outras ações provocativas dos russos em política externa, como a interferência na eleição de Donald Trump, ocorreram quando Putin estava com bons índices de popularidade. Na mais recente escaramuça com os ucranianos, a Rússia negou ter iniciado as agressões no Mar de Azov e disse que a Marinha ucraniana entrou irregularmente em águas territoriais russas, que, por um acordo de 2003, eram divididas. 

A chancelaria russa acusou a Ucrânia de provocar a situação para ganhos políticos. A aprovação atual de Putin, no momento, está mais baixa que os índices de 2014. De fato, em razão de outros problemas que a Rússia tem enfrentado no campo econômico, uma agressão geopolítica poderia alterar novamente esse quadro. / TRADUÇÃO DE LUIZ RAATZ

*É JORNALISTA

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