Lucas Jackson/Reuters
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Cenário: O fracasso do presidente - Trump poderia ter visto o que estava por vir

Enquanto Trump minimizava repetidamente a gravidade do vírus e se concentrava em outros assuntos, diversas figuras dentro de seu governo identificaram a ameaça, soaram alarmes e deixaram claro que era necessário tomar medidas agressivas

Eric Lipton, David E. Sanger, Maggie Haberman, Michael D. Shear, Mark Mazzetti, Julian E. Barnes/NYT, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 04h00

WASHINGTON - “De um jeito ou de outro, vai ser muito ruim”, escreveu Carter Mecher, conselheiro médico do Departamento de Assuntos de Veteranos de Guerra, na noite de 28 de janeiro, num e-mail para um grupo de especialistas em saúde pública espalhados pelo governo e pelas universidades. “Já está difícil de acreditar no tamanho da projeção do surto."

Uma semana depois de o primeiro caso de coronavírus ter sido identificado nos Estados Unidos e seis longas semanas antes de o presidente Donald Trump finalmente tomar medidas enérgicas para confrontar o perigo que o país estava encarando – uma pandemia que agora se prevê que irá ceifar dezenas de milhares de vidas americanas – Mecher estava exortando os altos escalões da burocracia da saúde pública do país a acordar e se preparar para a possibilidade de atitudes muito mais drásticas.

“Vocês zombaram de mim quando berrei que era para fechar as escolas”, escreveu ele ao grupo, que se autodenomina ‘Red Dawn’, uma piada interna baseada no filme de 1984 (que no Brasil recebeu o título Amanhecer Violento), sobre americanos que tentam salvar o país depois de uma invasão estrangeira. “Agora estou berrando: fechem as universidades."

Não que ele fosse uma voz solitária. Por todo o mês de janeiro, enquanto Trump minimizava repetidamente a gravidade do vírus e se concentrava em outros assuntos, diversas figuras dentro de seu governo – desde os principais assessores da Casa Branca até especialistas do gabinete e das agências de inteligência – identificaram a ameaça, soaram alarmes e deixaram claro que era necessário tomar medidas agressivas.

O presidente, no entanto, demorou para entender a escala do risco e agir de acordo com as circunstâncias, preferindo se dedicar a postar nas redes, proteger os ganhos da economia e menosprezar os alertas das autoridades. Foi um problema, disse ele, que surgiu do nada, impossível de prever.

Mesmo depois de Trump tomar sua primeira atitude concreta, no final de janeiro – limitando as viagens à China – a saúde pública muitas vezes teve de competir com considerações políticas e econômicas nos debates internos, adiando decisões já atrasadas de levantar mais dinheiro junto ao Congresso, obter os suprimentos necessários, resolver as falhas nos testes e, sobretudo, manter boa parte da nação em casa.

Como se desdobrou logo depois de seu impeachment na Câmara e no meio de seu julgamento no Senado, a reação de Trump foi influenciada por sua desconfiança e desdém por aquilo que ele chama de “Estado Profundo” – exatamente as pessoas de seu governo cujos conhecimentos e vasta experiência poderiam guiá-lo com mais rapidez na tomada de decisões que teriam retardado o avanço do vírus e, provavelmente, salvado vidas.

A tomada de decisões também foi atrapalhada por uma longa disputa dentro do governo a respeito da melhor maneira de lidar com a China. De início, o vírus ficou em segundo plano, atrás do desejo de não chatear Pequim durante as negociações comerciais.

Mas, depois, o impulso de marcar pontos no jogo contra Pequim deixou as duas maiores potências do mundo ainda mais apartadas no enfrentamento de uma das primeiras ameaças verdadeiramente globais do século 21.

Os equívocos de Trump se destacaram com notável transparência em seus esforços diários para dominar as telas de televisão e as conversas nacionais.

Mas dezenas de entrevistas com autoridades e ex-funcionários, bem como a análise de e-mails e outros documentos, revelaram muitos detalhes inéditos e uma imagem mais completa das raízes e da extensão de sua reação errática frente ao vírus mortal que se espalhava:

O gabinete do Conselho de Segurança Nacional responsável por rastrear pandemias recebeu, no início de janeiro, relatórios de inteligência que previam a propagação do vírus pelos Estados Unidos e, em poucas semanas, começou a estudar alternativas, como manter os americanos trabalhando de casa e fechar cidades do tamanho de Chicago. Trump evitaria tais medidas até março.

Apesar de ter negado o fato semanas depois, à época Trump foi informado de um memorando de 29 de janeiro, produzido por seu conselheiro comercial, Peter Navarro, o qual descrevia com detalhes impressionantes os potenciais riscos de uma pandemia de coronavírus: até meio milhão de mortes e trilhões de dólares em prejuízos econômicos.

O secretário de saúde e serviços humanos, Alex Azar, alertou diretamente Trump sobre a possibilidade de uma pandemia, durante um telefonema em 30 de janeiro, o segundo alerta a respeito do vírus que ele enviava ao presidente em duas semanas. A bordo do Air Force One, viajando para eventos no centro-oeste do país, Trump disse que Azar estava sendo muito alarmista.

Em fevereiro, Azar anunciou publicamente que o governo estava implementando um sistema de “vigilância” em cinco cidades americanas, para medir a propagação do vírus e possibilitar que especialistas projetassem os próximos focos da doença. A implementação foi adiada por semanas. A lentidão desse plano e as falhas bem documentadas no desenvolvimento da capacidade de realização de testes no país deixaram as autoridades governamentais praticamente sem ideia de quão rapidamente o vírus estava se espalhando. “Estávamos pilotando o avião sem instrumentos”, disse um funcionário.

Na terceira semana de fevereiro, os principais especialistas em saúde pública do governo concluíram que deveriam recomendar a Trump uma nova abordagem, a qual consistiria, entre outros pontos, em alertar a população americana sobre os riscos e exigir medidas como distanciamento social e trabalho de casa. Mas, em vez disso, a Casa Branca se concentrou em postar mensagens nas redes sociais, e outras semanas cruciais se passaram até que o presidente aceitasse, com relutância, os pareceres dos especialistas – período durante o qual o vírus se espalhou praticamente sem restrições.

Em meados de março, quando Trump enfim concordou em recomendar o distanciamento social em todo o país, efetivamente paralisando grande parte da economia, ele pareceu chocado e desanimado aos olhos alguns de seus contatos mais próximos. Um assessor o descreveu como “confuso” e “derrotado” pela maneira como a crise se desenrolara. A economia na qual ele havia apostado as fichas de sua reeleição de repente estava em frangalhos.

Ele só recuperava a arrogância, contou esse assessor, para conduzir seus briefings diários na Casa Branca, nos quais muitas vezes tentou reescrever a história dos últimos meses. Em dado momento, o presidente declarou que “sentia que era uma pandemia muito antes falarem que era uma pandemia” e, em outro, insistiu que tinha de ser o “animador da torcida do país”, como se isto explicasse por que ele não preparou a população para o que estava por vir.

Os aliados de Trump e alguns funcionários do governo dizem que as críticas são injustas. O governo chinês enganou os outros países, dizem eles, insistindo que o presidente ou não estava obtendo as informações necessárias, ou as pessoas ao seu redor não estavam sabendo comunicar a urgência da ameaça. Em alguns casos, argumentam eles, alguns dos funcionários de quem ele estava recebendo os alertas não tinham muito crédito aos seus olhos, mas, assim que as informações chegaram às suas mãos por outros canais, ele tomou as atitudes corretas.

“Enquanto a mídia e os democratas se recusavam a reconhecer a gravidade desse vírus em janeiro e fevereiro, o presidente Trump tomou medidas ousadas para proteger os americanos e liberar todo o poder do governo federal para conter a propagação da doença, expandir nossa capacidade de realização de testes e acelerar o desenvolvimento de vacinas, mesmo quando ainda não tínhamos ideia do verdadeiro nível de transmissão ou disseminação assintomática”, disse Judd Deere, porta-voz da Casa Branca.

Houve momentos decisivos ao longo do caminho, oportunidades para Trump se antecipar ao vírus, em vez de apenas correr atrás dele. Aconteceram debates internos que lhe apresentaram escolhas firmes e situações em que ele poderia ter feito perguntas mais profundas para entender melhor o problema. A maneira como ele lidou com esses momentos pode decidir sua campanha de reeleição. E certamente definirá seu legado.

A ilusão da contenção

Na última semana de fevereiro, já estava claro para a equipe de saúde pública do governo que escolas e empresas de regiões com focos da doença teriam de fechar as portas. Mas, no meio da turbulência da Casa Branca de Trump, foram necessárias mais três semanas para se convencer o presidente de que o fracasso em agir rapidamente para controlar a propagação do vírus teria consequências terríveis. 

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Quando Robert Kadlec, a principal autoridade de resposta a calamidades do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, convocou a força-tarefa do coronavírus da Casa Branca, em 21 de fevereiro, sua pauta era urgente. Havia rachaduras profundas na estratégia do governo para impedir a entrada do vírus nos Estados Unidos. Eles teriam de fechar o país para evitar que a doença se espalhasse. A pergunta era: quando?

Já havia um pico alarmante nos novos casos em todo o mundo e o vírus estava se alastrando pelo Oriente Médio. Ficara evidente que o governo havia desperdiçado a chance de fazer testes para rastrear o vírus no país, e um programa de vigilância em menor escala, o qual pegaria carona num sistema federal de rastreamento da gripe comum, também nascera morto.

Em Washington, o presidente não estava preocupado, pois previa que, em abril, “quando fica um pouco mais quente, o vírus vai desaparecer milagrosamente”. Sua Casa Branca ainda não havia solicitado ao Congresso um orçamento adicional para se preparar para o potencial custo das infecções em larga escala em todo o país, e os fornecedores dos serviços de saúde estavam ficando cada vez mais aflitos com a disponibilidade de máscaras, respiradores e outros equipamentos.

A próxima decisão de Trump poderia redirecionar dramaticamente o curso da pandemia – e a quantidade de pessoas que iriam adoecer e morrer.

Com isso em mente, a força-tarefa se reunira para um exercício de simulação – uma versão de jogo de guerra contra uma pandemia de gripe que o governo havia rodado no ano anterior. O exercício precedente, também conduzido por Kadlec e chamado de “Contágio Vermelho”, previra 110 milhões de infecções, 7,7 milhões de internações e 586 mil mortes devido a um surto hipotético iniciado na China.

Diante da probabilidade de uma pandemia de verdade, o grupo precisava decidir quando abandonar a “contenção” – o esforço para manter o vírus fora dos Estados Unidos e isolar toda e qualquer pessoa infectada – e adotar a “mitigação”, para impedir a propagação do vírus dentro do país até que uma vacina estivesse disponível.

Uma das questões da pauta – às quais o New York Times teve acesso – era quando Azar, o secretário do departamento, deveria recomendar que Trump adotasse as medidas protocolares de mitigação, “como fechamento de escolas e cancelamento de eventos de massa”, medidas que um plano de combate a pandemias da era Bush identificara como os próximos passos necessários.

O resultado do exercício foi alarmante. O grupo – que contava com Anthony Fauci, do Instituto Nacional de Saúde, Robert Redfield, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, e Azar, que naquele momento liderava a força-tarefa da Casa Branca – concluiu que logo seria preciso avançar para um distanciamento social agressivo, mesmo correndo o risco de provocar graves perturbações na economia do país e no cotidiano de milhões de americanos.

Se Kadlec ainda tinha alguma dúvida, elas se dissiparam dois dias depois, quando ele se deparou com o email de uma pesquisadora do Instituto de Tecnologia da Geórgia que estava no grupo de pesquisadores acadêmicos, profissionais de saúde pública e especialistas em doenças infecciosas que haviam passado semanas rastreando o surto no grupo Red Dawn.

Uma chinesa de 20 anos havia infectado cinco parentes, apesar de nunca ter apresentado nenhum sintoma. A implicação era grave – pessoas aparentemente saudáveis podiam transmitir o vírus sem saber – e apontava para a necessidade de avançar rapidamente para a mitigação.

“Isso é verdade?!”, Kadlec escreveu de volta para a pesquisadora. “Se for, temos uma falha gigantesca no nosso esforço de triagem e quarentena”. A resposta foi direta: “As pessoas estão carregando o vírus para todos os lugares”.

No dia seguinte, Kadlec e os demais decidiram apresentar a Trump um plano intitulado Quatro Passos para Mitigação, dizendo ao presidente que era necessário começar a preparar os americanos para medidas quase inéditas na história dos Estados Unidos.

Mas, nos dias seguintes, uma explosão de raiva presidencial e disputas internas por território impediram tal movimento. O foco mudaria para postagens nas redes e previsões confiantes, e não para o chamado público para a mitigação.

Esses últimos dias de fevereiro, talvez mais do que qualquer outro momento de seu mandato na Casa Branca, ilustraram a incapacidade ou a relutância de Trump em assimilar os alertas que lhe chegavam. Em vez de tomar decisões diante de uma calamidade de saúde pública, ele se voltou para sua velha cartilha política, desperdiçando um tempo crucial enquanto o coronavírus se espalhava silenciosamente pelo país.

O grupo de Kadlec queria se reunir com o presidente de imediato, mas Trump estava em viagem à Índia, então eles concordaram em apresentar o caso pessoalmente assim que ele retornasse, dois dias depois. Se conseguissem convencê-lo da necessidade de mudar de estratégia, poderiam começar imediatamente uma campanha nacional para preparar a população para a nova realidade.

Um memorando datado de 14 de fevereiro, preparado em coordenação com o Conselho de Segurança Nacional e intitulado “Resposta do governo americano ao novo coronavírus de 2019”, listou como seriam as medidas mais drásticas, entre elas: “limitação significativa das aglomerações públicas e cancelamento de quase todos os eventos esportivos, apresentações artísticas e encontros públicos e privados. Possível fechamento de escolas. Diretivas generalizadas para ‘ficar em casa’ em organizações públicas e privadas, com quase 100% de teletrabalho para algumas delas”.

O memorando não defendia um fechamento nacional imediato, mas dizia que a aplicação direcionada de “medidas de quarentena e isolamento” poderia servir para retardar a disseminação em locais onde a “transmissão comunitária sustentada” fosse evidente.

Em menos de 24 horas, antes mesmo que eles pudessem fazer sua apresentação ao presidente, o plano foi por água abaixo. 

Trump estava subindo os degraus do Air Force One para voltar da Índia em 25 de fevereiro, quando Nancy Messonnier, diretora do Centro Nacional de Imunização e Doenças Respiratórias, emitiu publicamente o abrupto aviso de que todos eles concordavam que as medidas eram necessárias.

Mas Messonnier havia se precipitado. Eles ainda não haviam dito nada ao presidente, muito menos conseguido seu consentimento.

Nas dezoito horas de voo para casa, Trump espumou de raiva ao ver o mercado de ações despencar depois das declarações de Messonnier. Furioso, ele ligou para Azar assim que aterrissou, por volta das 6 horas da manhã de 26 de fevereiro, rugindo que Messonnier havia assustado as pessoas sem a menor necessidade. Já na corda bamba com o presidente por causa de série de outras questões e à frente do fracasso em produzir com rapidez um teste eficaz e amplamente disponível, Azar logo veria sua autoridade reduzida.

A reunião daquela noite para defender o distanciamento social perante Trump foi cancelada e substituída por uma entrevista coletiva, na qual o presidente anunciou que a coordenação do combate ao vírus da Casa Branca ficaria sob o comando do vice-presidente Mike Pence.

A pressão para convencer Trump da necessidade de uma ação mais assertiva se interrompeu. Com Pence e sua equipe no comando, o foco estava claro: nada de mensagens alarmistas. As declarações e aparições na mídia das autoridades de saúde, como Fauci e Redfield, seriam coordenadas pelo gabinete de Pence. E se passariam mais de três semanas até que Trump anunciasse sérios esforços de distanciamento social, um tempo perdido, durante o qual a propagação do vírus se acelerou vertiginosamente.

Ao longo de quase três semanas, de 26 de fevereiro a 16 de março, o número de casos de coronavírus confirmados nos Estados Unidos aumentou de 15 para 4.226. Desde então, quase meio milhão de americanos testaram positivo para o vírus, e as autoridades dizem que centenas de milhares mais provavelmente estão infectados.

O fator China

Os primeiros alertas sobre o coronavírus se perderam nas águas turbulentas das disputas internas do governo a respeito da China. Os falcões da China foram os primeiros a exigir a proibição dos voos chineses. Mas sua animosidade em relação ao país também mina as esperanças de uma abordagem mais cooperativa entre as duas principais potências do mundo durante a crise global.

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Era início de janeiro e o telefonema de um epidemiologista de Hong Kong deixou Matthew Pottinger abalado.

Pottinger, assessor de conselheiro de segurança nacional e falcão da China, recebeu um alerta incisivo pelo telefonema do médico, um amigo de longa data: um novo surto feroz que, à primeira vista, parecia com a epidemia de Sars que surgira na China em 2003. O novo vírus vinha se espalhando muito mais rápido do que o governo estava admitindo e não demoraria a chegar a outras partes do mundo.

Pottinger trabalhara como correspondente do Wall Street Journal em Hong Kong durante a epidemia de Sars e ainda estava traumatizado com a experiência de relatar a mortandade provocada por esse vírus altamente contagioso.

Agora, 16 anos depois, seu amigo lhe passava uma mensagem bem clara: vocês precisam se preparar. O vírus que se originara na cidade de Wuhan, alertou ele, estava sendo transmitido por pessoas que não apresentavam sintomas – uma realidade que as autoridades de saúde dos Estados Unidos ainda não tinham admitido. Por intermédio de um porta-voz, Pottinger se recusou a comentar o caso.

Este foi um dos primeiros alertas à Casa Branca e ecoava os relatórios de inteligência que estavam chegando ao Conselho de Segurança Nacional. Embora a maioria das avaliações iniciais da CIA não tivesse muito mais dados do que as informações disponíveis publicamente, alguns dos nichos mais especializados do mundo da inteligência estavam produzindo alertas complexos e assustadores.

Em relatório enviado ao diretor de inteligência nacional, o epidemiologista do Departamento de Estado escreveu, no início de janeiro, que o vírus provavelmente se espalharia pelo mundo e poderia se transformar numa pandemia. A partir de uma análise independente, o Centro Nacional de Inteligência Médica, um pequeno posto avançado da Agência de Inteligência de Defesa, chegou à mesma conclusão.

Semanas depois de obter informações iniciais sobre o vírus, ainda no início do ano, especialistas em biodefesa do Conselho de Segurança Nacional, observando o que estava acontecendo em Wuhan, começaram a pedir às autoridades que pensassem no que seria necessário para colocar em quarentena uma cidade do tamanho de Chicago.

Em meados de janeiro, já havia evidências crescentes de que o vírus estava se espalhando para fora da China. Pottinger começou a convocar reuniões diárias sobre o coronavírus. Ele alertou seu chefe, Robert C. O'Brien, conselheiro de segurança nacional.

 

Os primeiros alarmes emitidos por Pottinger e outros falcões da China saíram carregados de ideologia – e até mesmo de uma tentativa de culpar publicamente a China, o que críticos dentro do governo dizem que foi um desvio de atenção, uma vez que o coronavírus já se espalhava pela Europa Ocidental e, em seguida, pelos Estados Unidos.

E os alertas se depararam com a oposição dos conselheiros econômicos de Trump, que temiam que uma abordagem mais dura em relação à China pudesse inviabilizar um acordo comercial que seria o pilar da campanha de reeleição de Trump.

Nas últimas semanas de janeiro, Pottinger se tornou, com o apoio de O'Brien, uma das forças motrizes de uma campanha para convencer Trump a impor limites às viagens da China – a primeira decisão substantiva para impedir a propagação do vírus, a qual o presidente citou, repetidas vezes, para comprovar que estava no controle da situação.

Além da oposição da equipe econômica, Pottinger e seus aliados entre os falcões da China tiveram de superar o ceticismo inicial dos especialistas em saúde pública do governo.

As restrições a viagens costumam ser contraproducentes para gerenciar surtos biológicos, pois impedem que médicos e outros auxílios muito necessários cheguem facilmente às áreas afetadas, disseram as autoridades de saúde. E essas proibições geralmente fazem com que as pessoas infectadas fujam, espalhando ainda mais a doença.

Mas, na manhã de 30 de janeiro, Azar recebeu um telefonema de Fauci, Redfield e outros dizendo que eles haviam mudado de ideia. A Organização Mundial da Saúde declarara emergência global de saúde pública e as autoridades americanas haviam descoberto o primeiro caso confirmado de transmissão comunitária dentro dos Estados Unidos.

A equipe econômica, liderada pelo secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, continuou argumentando que havia grandes riscos em tomar uma medida que provocaria a China e prejudicaria as viagens globais. Depois de uma discussão, Trump ficou ao lado dos falcões e da equipe de saúde pública. As restrições aos voos chineses foram anunciadas publicamente em 31 de janeiro.

Ainda assim, Trump e outros altos funcionários estavam receosos de se indisporem ainda mais com Pequim. Além das preocupações com os impactos sobre acordo comercial, eles sabiam que uma escalada no confronto seria muito arriscada, porque os Estados Unidos dependem fortemente da China para obter produtos farmacêuticos e os tipos de equipamento de proteção necessários para combater o coronavírus.

Mas, em fevereiro, conforme a crise aumentava, os falcões continuaram forçando o governo a tomar uma posição mais dura em relação à China. Pottinger e outros – entre eles assessores do secretário de Estado Mike Pompeo – fizeram pressão para que as declarações oficiais empregassem o termo “Vírus de Wuhan”.


Trump adotou uma postura conciliatória até meados de março, elogiando o trabalho que o presidente da China, Xi Jinping, vinha fazendo.

Mas essa postura mudou abruptamente quando assessores informaram a Trump que um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China havia postado uma nova teoria da conspiração sobre as origens da covid-19: a doença teria sido levada para território chinês por militares do exército americano que visitaram o país em outubro do ano passado.

Trump ficou furioso e correu até sua plataforma favorita para transmitir uma nova mensagem. Em 16 de março, ele escreveu no Twitter: “os Estados Unidos apoiarão poderosamente as empresas, como a Airlines e outras, que estão sendo particularmente afetadas pelo vírus chinês”.

A decisão de Trump de intensificar a guerra de palavras minou qualquer possibilidade remanescente de ampla cooperação entre os governos para enfrentar a ameaça global. Resta saber se essa desconfiança mútua se estenderá aos esforços para desenvolver tratamentos ou vacinas, áreas em que as duas nações agora estão competindo.

As consequências do caos

A atmosfera caótica da Casa Branca de Trump contribuiu para a crise. A falta de planejamento e as falhas de execução, combinadas à prioridade que o presidente dá aos noticiários e à sua preferência por seguir seu instinto, e não os fatos, custaram tempo e, talvez, vidas.

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Na ala oeste da Casa Branca, Navarro, conselheiro comercial de Trump, era abertamente visto como um sujeito irritadiço, arrogante e com mania de se intrometer em todos os assuntos. Ele é um dos mais aguerridos falcões da China e, no final de janeiro, estava se digladiando com os especialistas em saúde do governo para barrar os voos chineses.

Por isso, ele provocou uma exasperação generalizada quando, depois de inicialmente impedido de participar da força-tarefa do coronavírus, passou um memorando em 29 de janeiro, instando Trump a impor restrições de viagem à China, sob o argumento de que não enfrentar o surto de maneira agressiva seria catastrófico e poderia causar centenas de milhares de mortes e trilhões de dólares em prejuízos econômicos.

A mensagem não solicitada entrou em confronto direto com a postura que o presidente adotava naquele momento, a qual tentava minimizar a gravidade da ameaça. Quando assessores levaram a questão a Trump, ele respondeu que não estava feliz por Navarro ter feito seu alerta por escrito.

Desde o primeiro momento em que o vírus foi identificado como uma preocupação considerável, a resposta do governo se viu perturbada pelas rivalidades e pelo espírito de facção que rodeiam Trump e, juntamente com a impulsividade do presidente, minam a tomada de decisões e o desenvolvimento de políticas.

Diante da marcha implacável de um patógeno mortal, as divergências e a falta de planejamento a longo prazo tiveram consequências significativas. Elas retardaram a resposta do presidente e resultaram em problemas com projetos e execuções, entre eles atrasos na busca de dinheiro junto ao Capitólio e uma falha no início dos testes generalizados para vigilância.

Os esforços para moldar a compreensão de Trump a respeito do vírus começaram no início de janeiro, quando seu foco estava em outro lugar: as consequências de sua decisão de matar o general Qassem Soleimani, mentor da segurança do Irã; sua tentativa de fechar um acordo comercial com a China; e seu julgamento de impeachment no Senado, que estava prestes a começar.

Mesmo depois da primeira vez em que Azar o informou sobre a potencial gravidade do vírus, durante uma ligação telefônica em 18 de janeiro, quando o presidente estava em seu resort em Mar-a-Lago, na Flórida, Trump preferiu passar a confiança de que seria um problema passageiro.

“Temos tudo sob controle, totalmente”, disse ele a um entrevistador alguns dias depois, quando participava do Fórum Econômico Mundial, na Suíça. “Vai ficar tudo bem”.

De volta a Washington, vozes de fora da Casa Branca cobriram Trump com avaliações discordantes sobre o que ele deveria fazer e a rapidez com que deveria agir.

As tentativas de decidir as políticas públicas a portas fechadas foram controversas e, por vezes, mal organizadas.

Foi o que aconteceu, por exemplo, quando o Conselho de Segurança Nacional convocou uma reunião de emergência para a tarde de 27 de janeiro. A Sala de Crise tinha virado uma grande sala de espera, repleta de conselheiros da Casa Branca, funcionários de baixo escalão, gurus de mídia social de Trump e vários secretários do gabinete. Não havia lista de verificação sobre os preparativos para uma possível pandemia, da qual teriam de constar testes intensivos, rápida aquisição de equipamentos de proteção e talvez rígidas limitações aos deslocamentos dos cidadãos americanos.

Em vez disso, depois de uma apresentação de vinte minutos na qual Azar descreveu as competências de seu departamento, a reunião descambou quando Stephen E. Biegun, o recém-chegado assessor de secretário de Estado, anunciou planos de emitir um alerta de viagem de “nível quatro”, desencorajando veementemente as viagens dos americanos à China. A sala explodiu em bate-bocas. 

Dias depois, na noite de 30 de janeiro, Azar e Mick Mulvaney, à época chefe de gabinete da Casa Branca, telefonaram para o Air Force One, pois o presidente estava tomando a decisão final de seguir em frente com as restrições às viagens à China. Azar foi direto: alertou que o vírus poderia se transformar numa pandemia e argumentou que a China deveria ser criticada por não ter sido transparente a respeito da situação.

Trump rejeitou a ideia de criticar a China, dizendo que o país já tinha bastantes problemas. Mas, se a decisão do presidente quanto às restrições de viagem sugeria que ele havia entendido a gravidade da situação, sua resposta a Azar indicou o contrário: 

"Chega de pânico", Trump disse a ele. 

Esse sentimento se fez presente ao longo de todo o mês de fevereiro, enquanto os principais assessores do presidente procuravam passar uma mensagem consistente, mas tomavam poucas medidas concretas para se preparar para a possibilidade de uma crise profunda na saúde pública.

O número de infecções nos Estados Unidos começou a aumentar entre fevereiro e início de março, mas o governo Trump não se mexeu para fazer grandes encomendas de máscaras e outros equipamentos de proteção, muito menos de aparelhos hospitalares fundamentais, como respiradores. O Pentágono ficou à espera, aguardando ordens para ajudar a montar hospitais temporários e fornecer qualquer outra assistência.

Com o fim de fevereiro e o início de março, o presidente continuava cercado por facções divididas, ao mesmo tempo em que ficava mais claro que evitar medidas mais agressivas não era uma alternativa viável.

Trump concordara em fazer um pronunciamento do Salão Oval na noite de 11 de março, anunciando restrições aos voos da Europa, onde o vírus estava devastando a Itália. Mas, ouvindo as opiniões de seus amigos de negócios e de outros, ele continuou resistindo aos apelos por distanciamento social, fechamento de escolas e outras medidas que comprometeriam a economia.

Mas o vírus já estava se multiplicando por todo o país – e os hospitais corriam o risco de sucumbir sob a iminente onda de doentes graves, sem máscaras nem outros equipamentos de proteção, sem respiradores nem leitos suficientes para tratamento intensivo. Uma pergunta pairava sobre a cabeça do presidente e de seus assessores, depois de semanas de letargia e estagnação: o que eles iriam fazer?

Logo depois do pronunciamento no Salão Oval, Scott Gottlieb, ex-comissário da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) e caixa de ressonância confiável dentro da Casa Branca, visitou Trump, em parte a pedido de Jared Kushner, genro do presidente. O papel de Gottlieb era convencer o presidente da gravidade da crise. Pence, então encarregado da força-tarefa, também teria um papel importante naquele momento de falar com o presidente de uma maneira que Azar não tinha conseguido. 

Mas, no fim das contas, disseram os assessores, foi Deborah Birx, veterana da pesquisa em aids que se juntara à força-tarefa, quem ajudou a convencer Trump. De fala mansa e apaixonada pelo tipo de tabelas e gráficos que de que Trump tanto gosta, Birx não tinha nenhuma das arestas pontiagudas que poderiam irritar o presidente. Ele sempre dizia às pessoas que ela era elegante.

Na segunda-feira, 16 de março, Trump anunciou novas diretrizes de distanciamento social, dizendo que elas ficariam em vigor por duas semanas. As perturbações econômicas subsequentes foram tão graves que o presidente sugeriu, repetidas vezes, que queria suspender até mesmo essas restrições temporárias. Muitas vezes ele perguntou aos assessores por que a cobertura da imprensa ainda estava responsabilizando seu governo pelas falhas generalizadas, insistindo que a responsabilidade agora era dos estados.

Na última semana de março, Kellyanne Conway, conselheira da Casa Branca que participava das reuniões da força-tarefa, deu voz às preocupações de outros assessores. Ela alertou a Trump que seu desejo de reabrir o país na Páscoa provavelmente não poderia se realizar. E, entre outras coisas, também disse ao presidente que os críticos acabariam por responsabilizá-lo pelas mortes subsequentes causadas pelo vírus.

Poucos dias depois, ele viu na televisão imagens de uma situação calamitosa no Elmhurst Hospital Center, a poucos quilômetros de sua casa de infância, no Queens, Nova York, onde 13 pessoas haviam morrido de coronavírus em 24 horas. Ele não suspendeu as restrições. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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