EFE/Shawn Thew
EFE/Shawn Thew

Cenário: Os dramas do ex-diretor do FBI

James Comey fará nesta quinta-feira um esperado depoimento ao vivo no Congresso; apesar de dizer que não dá 'a mínima' para as consequências políticas de seus atos, análises de sua biografia mostram que ele está preocupado

Lúcia Guimarães, correspondente / Nova York, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 08h55

NOVA YORK - A descrição da cena poderia despertar incredulidade, não tivesse ela sido documentada em vídeo. Um homem de mais de 2 metros de altura e terno azul escuro tenta se misturar às cortinas da mesma cor, no fundo da sala, para não ser notado. 

Era janeiro, a presidência Donald Trump tinha 2 dias de idade e a Casa Branca oferecia uma recepção para membros dos órgãos de segurança. Pouco antes do fim, o magnata abriu os braços e pareceu jogar um beijo para o principal policial federal do país. James Comey, então diretor do FBI (Polícia Federal americana), não teve saída, senão largar a cortina e atravessar o salão acompanhado das câmeras para estender o longo braço, torcendo para um aperto de mão formal.

Em maio, um amigo do já demitido Comey revelou que ele sentiu “repugnância” no momento em que Trump puxou sua mão para trancá-lo num abraço que sugeria intimidade. Ele já estava investigando a campanha do presidente por possível conluio com a Rússia e se preocupava em preservar sua independência.

Já estava também enfrentando a fúria de democratas pela carta que divulgou 11 dias antes da eleição de novembro, levantando novas suspeitas infundadas sobre o uso de um servidor particular por Hillary Clinton quando era secretária de Estado. A própria candidata e mais de um analista de pesquisas consideram que a carta de Comey pesou para decidir a eleição.

Dramas não faltam na carreira deste ex-promotor federal de 56 anos que vai protagonizar, pela segunda vez, um esperado depoimento ao vivo no Congresso.

Em maio de 2007, Comey eletrizou o Senado com uma revelação bomba sobre uma crise constitucional que conseguiu evitar durante o governo Bush, três anos antes. Ele atuava como secretário de Justiça interino porque seu chefe, o secretário John Ashcroft, estava internado numa unidade de terapia intensiva com uma doença grave.

Numa noite de março de 2004, Comey correu para o quarto de Ashcroft ao saber que o assessor jurídico de George W. Bush, Alberto Gonzalez, e o chefe de gabinete da Casa Branca, Andrew Card, estavam a caminho. Ambos tentariam fazer com que Ashcroft autorizasse, da cama do hospital, a renovação de um programa de vigilância doméstica que o Departamento de Justiça havia considerado ilegal. Comey enfrentou os dois, lembrou que ele estava no controle do Departamento e impediu a assinatura.

O ex-diretor do FBI é conhecido por se dizer apartidário. Ressalta que não dá “a mínima” para consequências políticas de seus atos, mas uma análise de sua biografia mostra que ele parece preocupado com seu papel na história. Ele foi nomeado pelo então presidente Obama para a direção do FBI, um mandato de 10 anos que começou em 2013.

Comey não pode ser dissociado da campanha presidencial de 2016 pela maneira incomum como se descolou da chefe, a secretária de Justiça Loretta Lynch, para falar sobre os e-mails de Hillary em julho e depois novamente em outubro. Donald Trump, que fez questão de demiti-lo de forma humilhante, o acusou de ser pomposo. É um comentário que, para usar o jargão do presidente, não pode ser qualificado como "fake news".

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