EFE/Cristian Hernández
EFE/Cristian Hernández

Cenário: Os limites do pensamento típico da Guerra Fria

Líderes esquerdistas mundiais ainda veem os acontecimentos na Venezuela pelo prisma ideológico da Guerra Fria, e festejam Maduro como um 'anti-imperialista', sem se importar com seu prontuário de corrupção e abusos

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2019 | 05h00

A decisão do presidente Donald Trump de liderar a ofensiva contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, levantou compreensíveis preocupações entre os oponentes de Trump. Há muito os críticos vêm condenando a natureza impulsiva e ideológica da política da Casa Branca. Muitos citam o longo e tumultuado histórico de intromissões de Washington em assuntos latino-americanos. Quando o conselheiro para segurança nacional, John Bolton, pareceu na segunda-feira que estava sinalizando com uma incursão militar dos Estados Unidos, só fez aumentar as apreensões.

Quando o governo Trump reconheceu o lider oposicionista Juan Guaidó como presidente da Venezuela, políticos americanos relutaram em se alinhar a Trump. O senadoar Bernie Sanders, independente de Vermont, despachou tuítes condenando as ações de Maduro, incluindo a violenta repressão à dissidência. Mas também adveartiu que os EUA “precisam aprender com as lições do passado a não se envolverem em mudanças de regime ou apoiarem golpes - como fizeram no Chile, Guatemala, Brasil”.

Outros apontaram as discrepânciais entre a suposta ação moralizadora de Trump na Venezuela e seu apoio a monarquias problemáticas do Oriente Médio.

Outros líderes esquerdistas mundiais, entre eles figuras proeminentes como o trabalhista britânico Jeremy Corbyn, ainda veem os acontecimentos na Venezuela pelo prisma ideológico da Guerra Fria. Por essa visão, Maduro é festejado como um “anti-imperialista” que resiste à hegemonia dos EUA – não importando seu prontuário de corrupção e abusos.

“Se o imperialismo é ‘o último estágio do capitalismo’, como disse Vladimir Lenin, então a perversão do anti-imperiaismo alardeado pela esquerda ocidental contemporânea é a mais sórdida encarnação do socialismo contemporâneo”, escreveu o jornalista James Bllodworth na revista Foreign Policy. “Ativistas, manifestantes e políticos de oposição são tratados pelos seguidores dessa doutrina crua em países como Venezuela e Síria como se não tivessem uma agenda e fossem simples marionetes do capital americano.”

Há uma cegueira ideológica similar na direita, com figuras que vão do presidente do Brasil a um colunista conservador de The New York Times tentando caracterizar a crise na Venezuela como um desdobramento natural de políticas defendidas em casa por seus rivais esquerdistas. Segundo essas figuras sugerem, aumentar impostos para americanos ultrarricos ou proteger membros da comunidade LGBT brasileira vai, de algum modo, refletir em cenas de caos e sofrimento na Venezuela.

Essa linha de raciocínio convenientemente ignora em que extensão o desastre na Venezuela é um produto da ganância e da brutalidade, não da doutrina socialista.“A Venezuela não sofre apenas com ideologia, mas com falsa ideologia – um “socialismo” que ignora saúde e educação, um “populismo” que põe traficantes no poder e uma ganância pura e simples”, escreveu a colunista Anne Applebaum, de The Washington Post. “A tragédia venezuelana é o jogo final de uma certa forma de política, o lugar em que tantos dos atuais “democratas não liberais” podem eventualmente terminar.”

De fato, governos não liberais destacam-se entre os poucos que ainda estão ao lado de Maduro. “É só ver quem o apoia: China, Rússia, Turquia, Cuba, Síria, Nicarágua – uma sinistra galeria de ditadores e autocratas de vários matizes ideológicos”, assinalou Frida Ghitis, em Politico. “Eles não querem ver o levante democrático ter sucesso e, no caso de China e Rússia, não querem perder os bilhões que a Venezuela lhes deve.”

Ao mesmo tempo, a relativa variedade de governos que se juntaram a Trump no reconhecimento de Guaidó conta uma outra história. Do presidente de direita da Colômbia ao governo de centro-esquerda do Canadá, muitos acreditam que a saída de Maduro dará início ao longo processo de retirada da Venezuela do abismo. Maduro vem presidindo um trágico colapso econômico e uma crise hemisférica de refugiados sem precedentes.

O caminho para o futuro continua perigoso, como disseram os historiadores Federico Finchelstein e Pablo Piccato no Post do dia 29. Maduro pode tentar conter brutalmente a oposição, talvez precipitando uma intervenção mais direta dos EUA. Ou os militares podem tirar Maduro do poder, mas preservando os privilégios e poderes das Forças Armadas – uma transição não muito diferente da que se viu no Zimbábue. Ou Maduro, desafiando as ameaças americanas e respaldado por mercenários russos e empréstimos chineses, pode se aferrar teimosamente ao cargo e consolidar seu controle do governo.

Inifinitamente preferível, segundo os historiadores, seria uma solução negociada. “Embora muitos países latino-americanos e europeus tenham deixado de reconhecer o governo de Maduro, México e Uruguai não o fizeram”, assinalaram Finchelstein e Piccato. “Nessa condição, eles poderiam intermediar negociações com as diferentes partes, impedindo tanto uma guerra civil como uma intervenção estrangeira.”

Entre os próprios venezuelanos, poucos querem uma mudança feita à força pelos EUA. “Desejo uma mudança – mas não por meio de golpe ou intervenção”, disse ao jornal The Guardian Naikary Agresot, de 17 anos, estudante de classe operária e membro de uma comunidade fortemente pró-regime do oeste de Caracas. “Gostaria que Maduro entendesse que as coisas saíram de controle e abrisse espaço para alguém que pudesse realmente mudar o país.”

O próprio disse que não apoia uma intervenção militar – opção que a Casa Branca se recusa a descartar. Enquanto isso, a crise se aprofunda. O Post informou neste dia 30 que nos protestos do último fim de semana pelo menos 35 pessoas morreram e 800 foram presas. As sanções dos Estados Unidos estão castigando uma economia já enfraquecida , o que levanta a perspectiva de uma escassez de alimentos ainda mais grave.

Em resposta, o governo de Maduro proibiu Guaidó de sair do país e congelou seus bens – medida aprovada pela Suprema Corte na noite de terça-feira. O governo prometeu ainda vagas medidas retaliatórias contra os Estados Unidos.

“Ficou claro para o mundo o que está acontecendo na Venezuela”, disse Guaidó na terça-feira, minimizando as investidas do regime contra ele. “Ameaças e perseguição não nos farão desistir. Nossa luta continuará avançando”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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