IHA via AP
IHA via AP

Cenário: Palco do ataque era símbolo da elite laica da Turquia

O clube Reina, que sempre foi sinônimo do estilo de vida da classe alta de Istambul, tornou-se também um símbolo de uma maneira de viver em que difundiu o hábito das pessoas de se reunir em bares e tomar bebidas alcoólicas

Ilya U. Topper e  Lara Villalón* / EFE, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2017 | 05h09

O clube Reina, alvo do atentado que deixou 39 mortos e 65 feridos em Istambul, é o ponto de encontro mais exclusivo e provavelmente o mais caro da cidade, frequentado tanto pela alta sociedade quanto por estrangeiros. E, como confirmaram as autoridades turcas, a maior parte das vítimas é composta de pessoas provenientes principalmente de países árabes.

O clube, que ocupa uma área de quase mil metros quadrados, grande parte ao ar livre, localizado em frente à margem europeia do Bósforo, é um lugar de encontro para os que querem sentir-se parte da sociedade elegante não apenas turca, mas também internacional.

Não é fácil entrar no seleto clube, que exige uma etiqueta rigorosa, queixam-se alguns clientes frustrados; outros afirmam que buscam o local porque "ali é fácil ver os famosos". O próprio clube se apresenta na internet com fotos de celebridades mundialmente conhecidas, e, não raro, algumas delas chegam a bordo de seus próprios iates.

Mas à 1h30 da manhã de domingo (hora local), do dia 1º de janeiro, o Bósforo foi a via de fuga utilizada por numerosos clientes que preferiram se jogar na água gelada para escapar das balas do assassino, que disparava de maneira indiscriminada contra a multidão.

Uma lancha da Guarda Costeira turca respondeu imediatamente ao ataque e salvou os que haviam se lançado ao mar. Aparentemente não foram registrados afogamentos.

As testemunhas descreveram à imprensa turca um terrível pânico. Todo o episódio durou sete minutos desde a chegada do assassino. Este disparou as primeiras balas com uma arma automática no deck em frente ao local, matando um segurança e um civil antes de correr para dentro do clube.

Outro guarda, que se encontrava em seu interior, confessou aos jornalistas que fugiu ao ouvir os tiros. "Ouvi os tiros de uma arma automática. Saímos correndo, não havia o que fazer", disse o funcionário Emrah Altun à imprensa turca.

O clube Reina, inaugurado em 2002, tem também um restaurante com cozinha turca e internacional, mas o que atrai os visitantes é principalmente sua carta de bebidas, acessível somente aos mais abonados. Nos últimos anos, não é raro ver europeus entre os frequentadores, porque toda a Turquia se tornou um destino cada vez mais procurado pelos turistas provenientes dos países próximos e do Golfo.

O Reina, que sempre foi sinônimo do estilo de vida da classe alta de Istambul, tornou-se também um símbolo de uma maneira de viver em que difundiu o hábito das pessoas de se reunir em bares e tomar bebidas alcoólicas, o que não é comum nas classes sociais que votam no governista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de orientação islamista. 

Talvez por isso, dois pequenos grupos de esquerda, o Partido Socialista dos Oprimidos (ESP) e a Federação de Associações da Juventude Socialista (SGDF), cujos membros em julho de 2016 foram vítimas do atentado jihadista de Suruc, que deixou 30 mortos, convocaram neste domingo uma marcha até o local para deixar flores vermelhas.

Entretanto, os policiais destinados à segurança da zona atingida, não convencidos pelo gesto de solidariedade da classe operária para com a elite econômica, impediram que a marcha se aproximasse do clube e detiveram 14 manifestantes, segundo o jornal Cumhuriyet. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* ILYA U. TOPPER E  LARA VILLALÓN SÃO JORNALISTAS

Mais conteúdo sobre:
IstambulTurquia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.