YURI CORTEZ / AFP
YURI CORTEZ / AFP

Cenário: Para minar Guaidó, chavistas miram volta à Assembleia Nacional

Volta dos deputados ameaça plataforma que líder opositor tem usado para construir sua legitimidade

Anthony Kurmanaev e Ana Herrero / NYT, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 08h30

O partido do presidente Nicolás Maduro anunciou na semana passada que seus deputados retomarão seus assentos na Assembleia Nacional, depois de um boicote de três anos, ameaçando a base de poder do principal rival do chavismo, o líder opositor Juan Guaidó.

Guaidó se declarou o presidente legítimo do país e a Assembleia Nacional é o único órgão de governo não controlado por Maduro. A volta dos deputados ameaça não apenas a independência do Legislativo, mas também uma plataforma que Guaidó tem usado para construir sua legitimidade e contestar o governo de Maduro.

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O anúncio é o mais recente passo numa disputa política complexa, que dura nove meses. Enquanto Maduro controla o Exército e a burocracia de governo, Guaidó recorre ao apoio popular e ao reconhecimento dos EUA e de cerca de 60 países.

Suas tentativas de destituir Maduro por meio de protestos, deserções de militares, sanções americanas e negociações foram respondidas com uma repressão brutal do governo. Sentindo fraqueza, Maduro agora partiu para a ofensiva.

O principal negociador de Maduro, Jorge Rodríguez, assinou o que chamou de “acordo de paz” com vários partidos de oposição menores que estão fora da coalizão de Guaidó. Com isso, afirma Maduro, 55 deputados aliados retomarão os assentos na Assembleia Nacional. Ele prometeu ainda uma reforma do conselho eleitoral e a libertação de alguns presos políticos.

Segundo Rodríguez, “isso mostra a absoluta disposição do presidente de manter todas as portas abertas”. Guaidó rejeitou o acordo, dizendo ser uma tentativa de desviar a atenção da crise devastadora do país. “Eles tentaram essas manobras no passado. Elas só aprofundarão a crise e o isolamento internacional”, afirmou o opositor.

O Legislativo é a principal fonte de legitimidade da oposição, que assumiu o controle da Assembleia Nacional nas eleições de 2015. Os deputados leais a Maduro reagiram, deixando o Congresso, removendo os poderes do órgão e perseguindo dezenas de parlamentares opositores que foram para o exílio.

Os 55 deputados do governo criaram um legislativo paralelo para ratificar as propostas de Maduro. Mas, como são representantes eleitos, podem retomar seus assentos.

Para analistas, o acordo abre caminho para Maduro convocar novas eleições parlamentares em janeiro, apesar das ameaças de boicote por parte da oposição.

Chavismo busca aparência de legalidade

“Ao firmar um acordo com partidos menores, desdenhados por Guaidó, Maduro tenta criar a aparência de um pacto social para legitimar novas eleições”, disse Ricardo Sucre, cientista político da Universidade Central da Venezuela. “Esse acordo deixa a oposição fraturada. É um golpe duro para Guaidó.”

Embora os EUA afirmem que não reconhecerão uma nova eleição com Maduro no poder, novas eleições parlamentares podem ser mais palatáveis para os europeus, cada vez mais frustrados com o limbo diplomático criado por sua aposta presidencial.

A volta dos deputados chavistas ameaça a maioria opositora na Assembleia Nacional. A repressão já reduziu o número de legisladores, deixando a oposição com dificuldade para conseguir quórum e manter o Congresso funcionando. Alguns opositores temem que Maduro retome a maioria ao se aliar a partidos menores, cortejando os desertores.

Os principais partidos de oposição acusaram as facções que assinaram o pacto com Maduro de oportunismo e corrupção. Líderes desses pequenos partidos se defendem, afirmando que qualquer acordo que reduza as tensões é do interesse da Venezuela./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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