Shealah Craighead/White House via AP
Shealah Craighead/White House via AP

Cenário: Para Pentágono, relação com Trump é como um casamento disfuncional, mas duradouro

Nos três anos da presidência do republicano, militares americanos aprenderam a trabalhar com um presidente cujas ordens podem ter uma reviravolta a qualquer momento

Helene Cooper, Julian E. Barnes, Eric Schmitt e Thomas Gibbons-Neff, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2019 | 19h17

WASHINGTON — Dias depois da abrupta decisão do presidente Donald Trump de retirar mil soldados americanos da Síria, o general Mark A. Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, viu um jeito de reverter isso. 

O lado homem de negócios de Trump preocupou-se com o fato de os campos de petróleo sírios ficarem desprotegidos e correndo o risco de cair nas mãos do Estado Islâmico - ou da Rússia ou do Irã. Então, o general Milley propôs a um receptivo presidente Trump que alguns soldados americanos, ao lado de combatente curdos sírios, deveriam guardá-los. Hoje, 800 soldados americanos continuam na Síria. 

"Estamos guardando o petróleo", disse Trump a repórteres na quarta-feira antes de sua reunião com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que o visitou em Washington. "Nós deixamos soldados no país apenas para proteger o petróleo." 

Esse discurso é bem diferente do pronunciamento do presidente no mês passado, quando ordenou que todos os soldados americanos deveriam deixar a Síria. Pela segunda vez em menos de um ano, o Pentágono conseguiu amenizar uma decisão inicial do presidente. 

 

"Eu atribuo a Milley o convencimento do presidente para modificar sua decisão na Síria", disse Jack Keane, um ex-sub-chefe do Exército, que conversou várias vezes com Trump e com o general Milley no mês passado durante os dias frenéticos da política vacilante do presidente para a Síria. 

Com quase três anos de presidência Trump, o Pentágono aprendeu como gerenciar um presidente caprichoso cujas ordens podem mudar radicalmente de uma hora para outra. Os mais altos oficiais do Departamento de Defesa têm aprendido a lidar com ele da maneira mais difícil, com, por exemplo, seus tuítes atacando o Irã ou a Coreia do Norte, ou abandonando aliados na Síria, ou ofendendo aliados da Otan e ou dando apoio público a comandantes militares acusados de crimes de guerra. 

Exageradamente focado em espetáculos

Para esses altos oficiais do Pentágono, de acordo com o New York Times, Trump é imprevisível, frustrante e exageradamente focado em espetáculos como paradas militares. Mas muitos deles gostam do presidente. 

Eles estão felizes com o aumento no orçamento anual dado a eles pelo governo federal - de US$ 585 bilhões, em 2016, para US$ 716 bilhões este ano - e eles estão agradecidos pelo fato de ele ter acabado com o que chamam de microgerenciamento de funcionários da época do governo Obama

Trump também tem dado a comandantes nas zonas de combate um poder de decisão muito maior. E entre uma grande parte dos membros do serviço militar que se espelham em sua base conservadora, ele continua muito popular. 

    

De várias maneiras, os militares americanos continuam a parte do governo mais leal ao presidente dentro de uma grande e fraturada administração, principalmente porque o controle civil das forças armadas está enraizado na Constituição e na psiquê de qualquer soldado americano. 

Mas para Trump, o outro lado dessa moeda é que os militares respeitam a equivalência dos braços do governo, como demonstrou o tenente-coronel Alexander S. Vindman nos últimos dias, ao testemunhar, contra a vontade do presidente, no processo de impeachment contra ele na Câmara. 

Nova liberdade, nova queda 

Ao assumir o cargo, Trump deu ao Pentágono e aos comandantes militares mais espaço na administração. Ele permitiu que o Pentágono acelerace o processo de tomada de decisão para que os militares em campo pudessem agir mais rapidamente em caso de ataques, bombardeios, missões perigosas e armamento de aliados no Iraque, na Síria e em outros lugares. O Pentágono, após oito anos de irritação com o que muitos generais consideravam uma lenta tomada de decisão e adivinhação da Casa Branca de Obama, a princípio abraçou o novo comandante-chefe.

Mas com a nova liberdade, veio também as consequências dela. Trump desvia a culpa para o Pentágono se tudo der errado. Depois de uma operação mal realizada no Iêmen em janeiro de 2017, que levou à morte do suboficial William Owens, membro dos SEALs da Marinha conhecido como Ryan, Trump culpou os militares - uma atitude muito diferente dos presidentes anteriores que, como comandantes-chefe, tradicionalmente aceitaram a responsabilidade por todas as operações militares que ordenaram.

"Eles explicaram o que queriam fazer, os generais, que são muito respeitados", disse Trump à Fox News após o ataque. "E eles perderam Ryan."

Em outra questão importante para o Pentágono, o secretário de Defesa, Mark T. Esper, e o secretário do Exército, Ryan McCarthy, entraram em contato com Trump nos últimos dias para pedir que ele não interfira em vários casos de crimes de guerra. 

Os funcionários do Departamento de Defesa estão preocupados com o fato de os perdões presidenciais poderem minar a disciplina entre as fileiras. O Exército, por exemplo, está processando um boina verde, major Mathew L. Golsteyn, pela morte de um homem ligado ao Taleban no Afeganistão; Trump indicou que pode perdoá-lo. "Tenho plena confiança no sistema de Justiça militar", disse Esper a repórteres.

No caso da Síria, o Pentágono deu a Trump um presente inesperado em troca: o comando americano que levou à morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, deixando o presidente em êxtase, que foi ao Twitter comunicar a notícia assim que as tropas americanas estavam fora de perigo.

No dia seguinte, Trump mencionou triunfantemente o general Milley quatro vezes durante sua entrevista coletiva de 48 minutos sobre o ataque, chamando-o de "incrível" por seu trabalho e agradecendo-o pelo nome antes de qualquer outro funcionário da administração.

Os comandantes também aprenderam a analisar cuidadosamente seus comentários, com receio de que suas palavras sejam interpretadas como críticas sutis ao presidente.

Durante uma entrevista coletiva, o general Kenneth F. McKenzie Jr., chefe do Comando Central dos Estados Unidos, recusou-se a repetir a afirmação de Trump de que o líder do Estado Islâmico estava "choramingando" antes de detonar seu colete suicida depois que tropas americanas invadiram seu esconderijo.

Mas o general McKenzie apoiou a caracterização de Trump de Al-Baghdadi como covarde. "Ele se arrastou para um buraco com dois filhos pequenos, e se explodiu", disse o general. "Então, você pode deduzir que tipo de pessoa toma essa atitude."

Confrontos pela Síria

A relação entre Trump e os militares tem sido mais preocupante com relação à política para a Síria.

Os problemas começaram em dezembro, quando Trump tentou trazer o que era então 2 mil soldados americanos da Síria e Jim Mattis, seu primeiro secretário de Defesa, renunciou ao cargo em protesto. Na tempestade que se seguiu - republicanos, democratas e alguns dos conselheiros de Trump disseram que ele estava desistindo da luta antes que o Estado Islâmico fosse derrotado para sempre - o presidente recuou e concordou em deixar cerca de mil soldados.

Mas, no ano passado, por ordem das autoridades do Pentágono, elas operaram quase em segredo para evitar chamar a atenção para o fato de que as autoridades do Departamento de Defesa haviam convencido o presidente de sua ordem inicial.

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No início de outubro, depois de um telefonema com  Erdogan, Trump sinalizou que aquilo já tinha ido longe demais e anunciou que estava retirando as tropas remanescentes. Mais uma vez, houve outro clamor de republicanos, democratas e assessores de segurança nacional de Trump, que disseram estar abrindo caminho para uma ofensiva turca contra os aliados de longa data dos Estados Unidos, os combatentes curdos, que haviam sofrido o impacto da luta contra o Estado Islâmico. Os militares não queriam abandonar os curdos.

O general Milley, juntamente com Esper, analisou rapidamente como defender novamente o argumento de Trump de que as forças americanas ainda tinham trabalho a fazer na Síria. O Comando Central dos militares havia elaborado dois planos alternativos.

Uma proposta teria mantido uma pequena força para ajudar a controlar uma pequena faixa da fronteira entre o Iraque e a Síria, cerca de 10% da área. Outra opção tentaria manter o controle de uma parte maior do país - mais da metade da área atualmente controlada pelos combatentes americanos e curdos.

Mas depois que Trump disse ao general Milley que queria manter os campos de petróleo, o Pentágono rapidamente "operacionalizou" um novo plano envolvendo as forças americanas e seus aliados curdos para proteger o petróleo e impedir que ele caísse nas mãos do EI. 

Segredo é não parecer contradizer o presidente

O general Milley foi aconselhado por amigos a manter um perfil discreto e a não parecer contradizer as decisões ou a estratégia de Trump. Conhecido por longos monólogos, o general Milley também aprendeu a ser conciso com Trump, oferecendo opiniões claras, mas permitindo que o presidente domine a conversa.

No fim de outubro, Trump havia aceitado o plano do Pentágono.  

Os altos funcionários do Departamento de Defesa e das Forças Armadas dizem que, em alguns casos, é simplesmente uma questão de falar de um jeito que agrade a Trump, enquanto processam uma política de segurança nacional semelhante à do presidente Obama.

"O Pentágono descobriu que eles podem manipular as coisas para gerenciar os preconceitos de Trump de alguma maneira", disse Derek Chollet, ex-subsecretário de Defesa do governo Obama. "Não tente salvar os curdos, faça salvar o petróleo." / THE NEW YORK TIMES 

 

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