Doug Mills/NYT
Doug Mills/NYT

Cenário: Parede republicana de Trump está erodindo

Pela primeira vez há sinais reais de que uma facção significativa deseja expulsar presidente americano do partido

Steve Peoples* / Associated Press, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 18h38
Atualizado 13 de janeiro de 2021 | 20h09

WASHINGTON - Os republicanos ofereceram apenas uma censura modesta quando o presidente Donald Trump disse que havia "gente muito boa" em ambos os lados de uma manifestação de supremacistas brancos. Eles permaneceram alinhados a Trump quando ele foi pego pressionando um líder estrangeiro e mais tarde defenderam sua forma de lidar com uma pandemia mortal.

Mas com uma força repentina, o muro de apoio republicano que permitiu a Trump enfrentar uma série aparentemente interminável de crises está se desfazendo.

A posição enfraquecida de Trump em seu próprio partido teve um foco mais nítido nesta quarta-feira, quando a Câmara aprovou o impeachment do presidente por incitar um motim no Capitólio dos EUA na semana passada. Dez republicanos votaram pelo impeachment.

Em jogo não está apenas o destino imediato de Trump, que tem apenas uma semana restante em sua presidência, mas a capacidade dos líderes eleitos do partido de superar o magnata – que continua popular com os seguidores do Partido Republicano, mas se tornou tóxico em grande parte de Washington.

“Estamos no momento em que vemos uma fratura, uma quebra, por causa da situação sem precedentes - a sedição, a violência, a morte”, disse Steve Schmidt, um antigo estrategista republicano que deixou o partido por causa de Trump.

A natureza impressionante da insurreição mortal - e o papel de Trump em alimentá-la - abalou muitos legisladores. A deputada Liz Cheney (filha do ex-vice-presidente republicano Dick Cheney), a número 3 na hierarquia republicana na Câmara, deu aos conservadores comuns a luz verde para abandonar Trump em uma declaração contundente na noite de terça-feira.

“Nunca houve uma traição maior por parte de um presidente dos Estados Unidos a seu cargo e seu juramento à Constituição”, acusou ela.

Embora atordoantes, os desenvolvimentos rápidos não garantem que Trump seja forçado a deixar o cargo antes da posse do democrata Joe Biden, no dia 20. Mas, pela primeira vez, há sinais reais de que uma fração significativa de republicanos deseja expulsar Trump de seu partido.

Até agora, três membros do Gabinete Trump renunciaram em protesto à invasão ao Capitólio. O ex-secretário de Justiça William Barr, que deixou a Casa Branca há menos de um mês, acusou seu ex-chefe de uma "traição ao seu cargo".

Demorou quase uma semana para o vice-presidente Mike Pence, cujo relacionamento com Trump azedou consideravelmente desde que ele e sua família foram forçados a se esconder durante o cerco do Capitólio, declarar publicamente que não invocaria a 25ª Emenda da Constituição para remover Trump.

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O presidente ainda desfruta de certo nível de apoio republicano. O deputado Jim Jordan, de Ohio, um importante aliado de Trump homenageado nesta semana na Casa Branca, se recusou na terça-feira a admitir que o presidente eleito Joe Biden venceu a eleição, a mesma alegação de fraude que desencadeou o motim.

Em visita ao Texas na terça-feira, Trump negou qualquer responsabilidade pela insurreição. Antes de sair, ele ofereceu um aviso sinistro aos democratas que lideravam a acusação de destituí-lo do cargo: "Cuidado com o que desejam".

Essa ameaça velada veio enquanto a nação - e os membros do Congresso - se preparavam para o potencial de mais violência antes da posse de Biden. O FBI alertou esta semana sobre os planos de protestos armados em todas as 50 capitais estaduais e em Washington.

Oficiais de segurança do Capitólio tomaram a decisão extraordinária de exigir que os membros do Congresso passem por detectores de metal para entrar na Câmara dos Deputados, começando na terça-feira, embora alguns republicanos resistam à nova regra.

Não está claro se o caos em Washington representa uma ameaça existencial para o partido, mas quase certamente ameaça minar os objetivos políticos de curto prazo do Partido Republicano.

Várias grandes corporações, muitas delas doadores republicanos confiáveis, prometeram parar de enviar doações políticas a qualquer um dos 147 republicanos que perpetuaram as falsas alegações de fraude eleitoral de Trump votando pela rejeição da vitória de Biden na semana passada.

O desafio da arrecadação de fundos chega em um momento ruim para o Partido Republicano. A história sugere que os republicanos, como partido minoritário em Washington, deve retomar o controle da Câmara ou do Senado em 2022.

Ao mesmo tempo, um grupo de republicanos ambiciosos está tentando se posicionar para concorrer à Casa Branca em 2024. Eles também estão lutando contra o legado de Trump.

Um deles, o governador de Maryland, Larry Hogan, lembrou aos repórteres na terça-feira que ele condenou a presidência de Trump desde o início. “Eu estive no mesmo lugar que estive por quatro anos inteiros. Muitas pessoas mudaram de posição ”, disse Hogan, enquanto prometia não deixar o Partido Republicano. “Não quero sair do partido e deixar que essas pessoas assumam o controle.”

Apesar da confiança de Hogan, uma parte significativa da base política do Partido Republicano permanece profundamente leal ao presidente e já mostrou disposição para atacar qualquer pessoa - especialmente os republicanos - que não o seja. Isso ajuda a explicar por que dois outros candidatos a 2024, os senadores Ted Cruzdo Texas, e Josh Hawley, do Missouri, votaram pela rejeição da vitória de Biden na semana passada, mesmo depois do levante.

“Os líderes republicanos não sabem como seguir em frente”, disse o pesquisador republicano Frank Luntz. “Todos têm medo de que Donald Trump diga às pessoas para o seguirem, mas eles também percebem que estão perdendo o centro da América. Eles estão presos."

* É JORNALISTA

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