Federico Parra / AFP
Federico Parra / AFP

Cenário: Por que opositor venezuelano foi solto agora

Para analista, objetivo do governo é 'baixar a pressão' e enviar 'mensagens de abertura'

Alexander Martínez / AFP, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 05h00

O tabuleiro político venezuelano se estremeceu com a libertação de Leopoldo López, o mais notável dos opositores presos. Ainda que seja preciso aguardar os próximos movimentos, o certo é que o governo retrocedeu diante do que considerava um ponto central, ao passo que López voltou atrás em sua decisão de sair da cadeia apenas com liberdade plena, não sob prisão domiciliar, como ocorreu. Há pelo menos três hipóteses para a decisão:

1. Descompressão. A Venezuela vive desde 1.º de abril os maiores protestos contra o presidente Nicolás Maduro. Em meio a essa ofensiva, o presidente convocou uma Assembleia Constituinte, o que aumentou as tensões, pois a oposição a considera uma manobra do governante para se perpetuar no poder e, por isso, não vai participar da eleição marcada para o dia 30. A libertação de López – condenado a quase 14 anos de prisão – apontaria para uma descompressão do cenário, uma vez que o governo paga um alto preço de desprestígio pela “repressão” contra manifestantes.

O objetivo do governo é “baixar a pressão” e enviar “mensagens de abertura”, diz o analista Luis Vicente León. Para ele, isso convém a um setor da oposição que compreende o risco de se envolver em uma luta sem trégua e, ao final, acabar de mãos vazias. Trata-se de um “golpe de opinião que visa arrefecer os protestos, que já vinham baixando de intensidade, e chegar à eleição da Constituinte com uma imagem mais decorosa”, observou o cientista político Luis Salamanca.

2. Divisões. Os protestos, a Constituinte e uma série de decisões do TSJ contra o Parlamento de maioria opositora abriu rachaduras na coalizão de governo, que perdeu uma de suas maiores aliadas, a procuradora-geral Luisa Ortega Díaz, que enfrenta um processo de destituição. 

Mesmo que a oposição diga que há descontentamento entre alguns militares, não há evidência de fratura nas Forças Armadas, principal sustentáculo de Maduro, que tem dado a ele grande poder político e econômico. Salamanca observa que a libertação de López seria impensável sem a aprovação da cúpula militar.

“Não descarto a possibilidade de problemas internos por causa dos últimos acontecimentos (o caso da procuradora e uma incursão violenta de chavistas no Parlamento) nem que as coisas estejam se movendo. Somente os militares poderiam se impor nesse momento”, comentou León. “Um cenário de mais violência poderia levar o governo a uma “fratura militar”, alerta.

3. Negociação. López foi solto depois de várias visitas à prisão do ex-premiê espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, que no ano passado mediou uma negociação fracassada entre governo e oposição. O encontro mais recente ocorreu em 4 de junho, quando López rejeitou a prisão domiciliar, segundo sua mulher, Lilian Tintori.

“A negociação que o governo pode estar disposto a oferecer ainda está muito longe daquela ansiada pela oposição e, especialmente, pela base opositora, que age como se tivesse ganhado, mas a verdade é que está longe disso”, diz León, advertindo que Maduro não vai entregar o poder e dificilmente cederá na Constituinte.

Uma ala da oposição teme que o diálogo cause perda de apoio, como a que os opositores sofreram no começo desse processo, que se desencadeou exatamente quando a militância reivindicava nas ruas um referendo para revogar o mandato do Maduro. Mas os opositores “mais racionais também sabem que travar uma batalha final sem organização, sem armas e sem um líder específico não é guerra, mas um suicídio”, lembra León. O debate interno na MUD promete pegar fogo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

É JORNALISTA

 

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