Brendan Hoffman/The New York Times
Brendan Hoffman/The New York Times

Cenário: Putin volta a pôr gasolina nas chamas da Ucrânia

Naturalmente não é possível descartar a possibilidade de ataques ucranianos na Crimeia; mas é caso também de suspeitar que a Rússia estaria encenando toda a história para criar um motivo para declarar guerra

Leonid Bershidsky* / Bloomberg , O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2016 | 05h00

Este é um momento perfeito para a crise na Ucrânia se intensificar e fatos preocupantes têm ocorrido, suscitando temores de que o presidente Vladimir Putin estaria planejando uma invasão ou outra ação hostil contra Kiev. 

Na quarta-feira, a FSB, polícia secreta da Rússia, informou ter evitado uma série de ataques terroristas na Crimeia e um de seus agentes e um soldado russo foram mortos em trocas de tiros com agentes da inteligência do Ministério da Defesa ucraniano. A agência não deu detalhes sobre os ataques. 

Esse anúncio normalmente seria moderadamente preocupante. Mas foi a linguagem usada por Putin que provocou o alarme. “As pessoas que assumiram o poder em Kiev e continuam aferradas a ele passaram a adotar práticas de terror em vez de buscar saídas para uma solução pacífica”, disse ele. 

Putin cancelou uma reunião entre os líderes da Ucrânia, Rússia, França e Alemanha e pediu para as potências ocidentais pressionarem a Ucrânia para se engajar mais “num acordo pacífico real”, alertando que Moscou “não ficará apenas observando qualquer ação hostil contra a Rússia”.

Esse foi o discurso mais agressivo de Putin com relação à Ucrânia este ano. E sugere que ele não está mais interessado no processo de paz de Minsk intermediado pela chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, François Hollande.

Com base nesse acordo, a Rússia devolveria o controle da fronteira a leste da Ucrânia para Kiev desde que o país garantisse uma anistia para os rebeldes separatistas pró-Rússia, concordasse com eleições nas áreas que eles controlam e desse ampla autonomia a essas regiões. Mas Kiev vem protelando as eleições, afirmando (com alguma justificativa) que seria impossível realizar uma eleição imparcial em áreas que estão sob controle de fato da Rússia. Assim, o conflito semicongelado faz vítimas diariamente.

Esse impasse parece ser perfeito para Putin: a ameaça persistente desestabilizou a Ucrânia, limitou suas ambições de aderir à União Europeia e a pressão econômica sobre o governo é intensa a ponto de se esperar um possível colapso. Mas o status quo significa também que a Rússia continua sob o impacto das sanções ocidentais e a Ucrânia vem aprendendo a viver como um país dividido. Putin pode se ver tentado a dar um empurrão nessa situação.

E é uma boa hora para isso. Os EUA estão envolvidos numa campanha eleitoral contenciosa. Na França, uma série de ataques terroristas tornou a segurança interna a grande prioridade. A Alemanha, do mesmo modo, sofreu diversos atentados e Angela Merkel também está preocupada com a segurança, além dos problemas relacionados ao Brexit. A Ucrânia está à margem da atenção dos líderes ocidentais.

Além disto, os Jogos Olímpicos estão em andamento e esse é um mau sinal. Durante os jogos de Pequim, em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia. Durante os jogos de inverno em Sochi, em 2014, a anexação da Crimeia foi planejada.

Na Ucrânia, a informação da FSB foi rejeitada com fúria. O que realmente ocorreu não é fácil de saber. Naturalmente não é possível descartar a possibilidade de ataques ucranianos na Crimeia. Mas é caso também de suspeitar que a Rússia estaria encenando toda a história para criar um motivo para declarar guerra, uma vez que estaria impaciente com o atual acordo de paz. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO   

*É COLUNISTA

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