Rex Curry/Reuters
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Cenário: Quando a estátua que foi derrubada é a do seu tetravô

A destruição de monumentos nos Estados Unidos tornou-se uma reavaliação da história da nação e de muitas famílias

Lucy Tompkins e Nicholas Bogel-Burroughs* / The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2020 | 03h00

NOVA YORK - Clayton Wickham, de 28 anos, disse que considerava a estátua do seu tetravô “uma simples estátua que tinha o meu nome e era agradável passar na frente dela vez por outra”. Mas quando Wickham teve conhecimento de outras coisas a respeito do antepassado, a estátua se tornou um motivo de desconforto, e depois de vergonha.

Por isso, quando os manifestantes de Richmond, Virgínia, nos Estados Unidos, derrubaram recentemente a estátua de bronze de Williams Carter Wickham, general confederado e dono de fazendas, Wickham ficou feliz em vê-la cair.

Mas nem todos os Wickham se alegraram. Como Robert E. Lee IV, um sobrinho neto em quarto grau do general confederado, e Frank Rizzo Jr., o filho do ex-prefeito de Filadélfia, a destruição de monumentos em todo o país tornou-se uma reavaliação da história da nação e da sua família.

O assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis, no mês passado, e os protestos que este fato desencadeou renovaram os esforços para retirar as estátuas de personalidades confederadas de locais públicos. Em 2017, apenas 39% dos cidadãos apoiavam a sua derrubada.

Os descendentes brancos de Wickham são alguns dos que mudaram de opinião nos últimos anos. Em 1995, alguns mandaram limpar e polir a estátua como presente para outro membro da família. Mas, mais recentemente, vários descendentes pediram às autoridades de Richmond que retirassem o monumento, inaugurado em 1891.

Seus pontos de vista mudaram depois de assistirem ao comício dos supremacistas brancos em Charlottesville, Virginia, em 2017, e após uma reunião com os descendentes de uma das 275 pessoas que foram escravizadas por seu ancestral.

Reggie Harris, de 67 anos, é um descendente de Wickham e Bibanna Hewlett, uma mulher negra escrava da plantação de Wickham. Para Harris, músico e professor, a estátua tem sido um doloroso lembrete do abuso sofrido por sua família e da recusa dos Estados Unidos a reconhecer plenamente o seu passado.

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Harris e alguns outros descendentes de Wickham reuniram-se em um jantar em 2012, e quando durante a conversação veio à tona a questão da estátua, eles decidiram visitá-la juntos. “Todos nós entreolhamos e dissemos: ‘Então, o que vamos fazer com isso?’”, disse Harris lembrando de visita ao monumento.

“Nós havíamos conversado a respeito do nosso parentesco, tentando olhar tudo isso com algum distanciamento. E agora tínhamos esta estátua  de bronze e concreto desta pessoa que, como vocês sabem, complicou a história."

Em 2017, Clayton Wickham e seu irmão Will escreveram uma carta ao prefeito de Richmond, pedindo que a estátua fosse retirada, mas ela continuou no seu lugar. Então, este mês, de repente, os manifestantes amarraram uma corda nela e eles mesmos a puseram abaixo. Harris disse que ficou satisfeito ao vê-la cair.

Na quarta-feira, em uma conferência por vídeo com dois Wickham e um repórter, ele também ficou comovido ao ver como as posições dos seus parentes brancos haviam mudado.

“Eu não sabia que vocês haviam votado para que a estátua fosse limpa alguns anos atrás e agora vocês lamentam isto”, ele disse a Clayton Wickham e à tia de Wickham, Wallis Raemer, durante a chamada. “Esta é uma coisa concreta, é a história real. Não é esta coisa idealizada do tipo ‘deixem o passado no passado’. São as pessoas lutando contra todas estas coisas de que estão falando – legado, herança, adotar uma nova maneira de pensar."

Muitos descendentes de personalidades históricas derrubadas pelos manifestantes ou pelas prefeituras locais estão revoltados com essas medidas.

Em Jacksonville, Flórida, um descendente de Charles Hemming, um soldado confederado, disse à WJXT que ficou frustrado pelo fato de o prefeito da cidade ter retirado uma estátua de Hemming sem comunicar à família. E um grupo de descendentes de soldados confederados de Mobile, Alabama, disseram que queriam que a prefeitura mandasse a estátua de Raphael Semmes, um almirante confederado, para eles depois que foi retirada este mês, segundo o AL.com.

A iniciativa de desmantelar as estátuas de confederados se transformou na retirada de estátuas em homenagem a políticos mais recentes e até mesmo a figuras históricas que notoriamente lutaram contra a escravidão. Na semana passada, em São Francisco, alguns ativistas derrubaram uma estátua de Ulysses S. Grant, o ex-presidente que chefiou o exército da União para a vitória e que também era dono de um escravo que mais tarde decidiu libertar. E em Madison, Wisconsin, na noite de terça-feira, manifestantes derrubaram uma estátua de Hans Christian Heg, que morreu combatendo pela União durante a Guerra Civil.

Mas em grande parte, a ira dos manifestantes se voltou contra as estátuas de confederados, e entre os que pediam a sua retirada há um nome inesperado: Robert E. Lee IV.

Lee, de 27 anos, cresceu considerando o general confederado, cujo nome herdou, um herói. Ele, que pendurou uma bandeira dos confederados em seu quarto até ingressar no colégio, quando um professor sugeriu que a retirasse, tinha orgulho da sua herança sulista, e acreditava em sua mitologia da “causa perdida”.

A reviravolta ocorreu quando, em 2017, viu multidões de supremacistas brancos reunidas em torno da estátua do seu ancestral em Charlottesville. “A gente quer amar a família, quer se orgulhar da família, quer se orgulhar do nome que tem, quer que o seu nome signifique alguma coisa”, disse Lee, que é pastor. “Por isso, tudo isto tem sido difícil para mim."

Ao mesmo tempo, afirmou, é algo libertador expiar publicamente o passado da família e fazer parte da correção da maneira como Lee, proprietário de escravos com suas convicções escravagistas, é lembrado.

Pouco depois de a polícia assassinar Floyd, o governador Ralph Northam da Virgínia declarou que mandaria derrubar a estátua de Lee. E os protestos que varrem a nação também influenciaram o pai do jovem Lee. “No Dia dos Pais, ele olhou para mim e disse: ‘Pensei muito a este respeito, e estou percebendo que estas estátuas machucam as pessoas”, lembrou ele.

Harris disse que o fato de os manifestantes destruirem alguns monumentos poderá criar animosidade entre os que se opõem à sua retirada, mas observou que os Wickham tentaram inutilmente durante anos conseguir que fosse dado o sinal verde a este processo. “Então, muitas vezes, como dizem, se você não se adapta, acaba atropelado pelas mudanças”, observou Harris.

Algumas cidades reagiram de maneira mais rápida aos pedidos dos descendentes.

Este mês, a prefeitura de Raleigh, Carolina do Norte, mandou derrubar a estátua de Josephus Daniels a pedido de um grupo de descendentes. Daniels, ex-dono e editor de The News & Observer, defendia as posições dos supremacistas brancos e foi um dos que incitaram ao massacre de 1898 em Wilmimgton, Carolina do Norte, em que casas comerciais de cidadãos negros foram incendiadas e dezenas deles foram mortos.

Frank Daniels III contou que a família decidiu retirar a estátua a fim de mostrar o seu apoio ao movimento pela justiça racial. Ele disse que foi difícil para alguns membros mais velhos da família que conheceram Josephus Daniels pessoalmente e consideraram que a decisão abriu a história da família  às críticas públicas.

Mas ter o controle do processo, permitir que a família  retirasse a estátua em caráter mais privado, facilitou as coisas, segundo Frank Daniels. “Nós tentamos dar a esta decisão um caráter racional e lógico e não emotivo”, afirmou. “A razão para tomarmos esta decisão foi eliminar o aspecto emocional público e dar-lhe um sentido mais privado. Preferimos ser vistos como pessoas que contribuem para a conversação e não o contrário."

Monumentos insensíveis

Em Sacramento, uma estátua de John Sutter, que se fixou na Califórnia durante a corrida ao ouro e que, segundo dizem, escravizou americanos nativos, foi retirada recentemente do Sutter Medical Center depois de ter sido vandalizada.

O tataraneto de Sutter, Ron Sutter, de 72 anos, afirmou que compreende o motivo pelo qual o hospital retirou a estátua, mas não concorda com a decisão. “Não sou um revisionista da história”, ele disse. “Além disso, certas estátuas e monumentos são consideradas insensíveis, e compreendo que sejam retirados”.

Frank Rizzo Jr. falou que a decisão da Filadélfia de retirar a estátua de seu pai, Frank Rizzo, ex-prefeito e chefe de polícia que segundo muitos, cometeu muitos abusos em relação a cidadãos pretos e gays, foi obra de políticos de todos os partidos que quiseram ceder a uma minoria expressiva.

Ele afirmou que quando a estátua de seu pai foi inaugurada no fim dos anos 90, políticos de todos os partidos estiveram presentes à cerimônia.

“Não vejo ninguém que tente deter esta destruição”, disse Rizzo contra a retirada de estátuas na Pensilvânia e em outros Estados. “Compreendo que estes são tempos difíceis para os Estados Unidos, mas é algo necessário agora que a situação está escapando do controle."

No entanto, afirmou, derrubar a estátua de seu pai acenando para os eleitores não apagará as suas memórias. “As pessoas que se preocupam com a cidade de Filadélfia” prosseguiu, “continuarão lembrando de Frank Rizzo, com ou sem estátua."/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Susan  C. Beachy contribuiu para a reportagem

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