HO / AAMAQ NEWS AGENCY / AFP
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Cenário: Respostas começam a surgir no Sri Lanka, mas dúvidas ainda são grandes

Autoridades do país disseram que extremistas islâmicos realizaram as ações em retaliação a atentados contra duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia

Adam Taylor / The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2019 | 05h00

Dias depois de uma série de explosões que aparentemente foram dirigidas contra cristãos e estrangeiros em igrejas e hotéis no Sri Lanka e deixaram mais de 300 mortos, alguns detalhes sobre quem esteve por trás dos ataques e sua motivação estão começando a aparecer.

O Estado Islâmico (EI) reivindicou a responsabilidade pelos ataques na terça-feira, enquanto autoridades do Sri Lanka disseram que extremistas islâmicos realizaram as ações em retaliação a atentados contra duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, em 15 de março, que deixaram 50 muçulmanos mortos.

Mas grandes dúvidas não respondidas permanecem: como foram possíveis os ataques e quais as ligações existentes entre o Estado Islâmico e os extremistas locais, se é que elas existem? Aqui, tentamos responder essas questões: 

Por que a reivindicação de responsabilidade por parte do Estado Islâmico demorou tanto?

Imediatamente após os ataques de domingo, nenhum grupo reivindicou responsabilidade. Autoridades locais apontaram para grupos locais – o National Thowheed Jamaath e Jammiyathul Millathu Ibrahim -, mas sugeriram que houve ajuda externa.

Na terça-feira, a Agência de Notícias Amaq, do Estado Islâmico, assumiu a responsabilidade, divulgando uma declaração segundo a qual cristãos e “países da coalizão” eram alvos dos combatentes de sua organização. A Amaq citou uma “fonte segura” como fonte das informações.

Um comunicado posterior do Estado Islâmico ofereceu mais detalhes, incluindo que sete combatentes participaram dos ataques, de acordo com uma tradução do SITE Intelligence Group. No entanto, uma foto publicada pela Amaq sobre o que foi dito sobre o grupo de ataque mostrava oito pessoas.

O Estado Islâmico já usou anteriormente a agência Amaq para reivindicar a responsabilidade por ataques. No entanto, os analistas observam que muitas vezes o grupo reclama a autoria de ataques nos quais teve um papel ativo na organização, mas também outros que foram simplesmente “inspirados” pelo grupo.

Rita Katz, diretora do SITE Intelligence Group, escreveu no Twitter que a mensagem inicial não confirma que o Estado Islâmico estivesse envolvido no ataque.

“A linguagem desse comunicado também é típica de ataques inspirados no EI”, tuitou.

A demora pode ser significativa. Em casos anteriores, nos quais os atacantes tinham tênues vínculos com o Estado Islâmico, o grupo esperou horas até ter algum tipo de confirmação de que um ataque havia sido inspirado por sua retórica.

“Devemos também ter em mente que a máquina de mídia do EI sofreu um verdadeiro impacto nos últimos meses”, disse Amarnath Amarasingam, especialista em extremismo e terrorismo de Toronto e pesquisador sênior do Instituto de Diálogo Estratégico, referindo-se ao colapso do califado do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Quais são as ligações entre grupos locais e o Estado Islâmico?

O ministro da Defesa, Ruwan Wijewardene, disse ao Parlamento nesta terça-feira que dois grupos locais estavam ligados ao ataque: o National Thowheed Jamaath e o Jammiyathul Millathu Ibrahim.

Nenhum dos grupos é muito conhecido. O National Thowheed Jamaath é um grupo dissidente de um outro grupo mais conhecido, o Sri Lanka Thowheed Jamaath. Ele esteve ligado ao vandalismo contra estátuas budistas no ano passado. O grupo Jammiyathul Millathu Ibrahim é menos conhecido.

Um alto funcionário dos EUA disse ao Washington Post que o grupo Thowheed tem ligações com o Estado Islâmico, mas sua importância não está clara. Acredita-se que um pequeno número de cidadãos do Sri Lanka tenha se juntado ao grupo em seu autoproclamado califado na Síria e no Iraque. Especialistas dizem que o número de combatentes estrangeiros que retornaram ao Sri Lanka provavelmente é reduzido.

“Não se conhece o número de combatentes que retornam, mas não deve passar de um punhado”, disse Kabir Teneja, bolsista do Programa de Estudos Estratégicos da Observer Research Foundation em Nova Delhi, que estudou as ligações do Estado Islâmico no Sul da Ásia.

O primeiro-ministro do Sri Lanka, Ranil Wickremesinghe, disse em uma entrevista coletiva nesta terça-feira que todas as pessoas interrogadas depois dos ataques de domingo eram cidadãos do Sri Lanka e algumas podem ter viajado ao exterior, mas não disse para onde.

Amarasingam disse que se for confirmado que o ataque foi perpetrado por combatentes estrangeiros que regressaram ao Sri Lanka, “seria o maior ataque jamais realizado pelos integrantes do EI que retornaram, em qualquer lugar”. /

Tradução de Claudia Bozzo

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