REUTERS/Osman Orsal
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CENÁRIO: Tensão permanente com curdos alimenta instabilidade turca

Alertas vindos de Ancara têm sido largamente ignorados pela comunidade internacional. Mas até os mais desatentos enxergam os sinais da fumaça no horizonte.

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2016 | 02h00

Protestos se espalharam pelo país e foram respondidos com truculência pelo governo, mas não silenciados – o descontentamento da população é latente. A oposição se organiza em linhas sectárias. Em algumas regiões, arma-se. No sudeste, rebeldes com antigas demandas por direitos e um histórico de levantes reprimidos pelo governo intensificam a luta pela independência, beneficiados por armas e dinheiro que fluem do Ocidente para uma guerra vizinha, enquanto fundamentalistas islâmicos sustentados por petrodólares atacam os alicerces do poder central e da economia com atentados terroristas letais contra civis. Era esse o cenário da Síria em 2011. E é o da Turquia hoje – agravado pelo influxo de dois milhões de refugiados.

Alertas vindos de Ancara têm sido largamente ignorados pela comunidade internacional. Mas até os mais desatentos enxergam os sinais da fumaça no horizonte.

Principais aliados dos EUA no Iraque e na Síria, e responsáveis pelos maiores avanços contra o Estado Islâmico, os curdos estão em alta – assim como sua capacidade de recrutar e transferir dinheiro e armas para a Turquia – e mais próximos do país independente que buscam. 

Com apoio militar do Ocidente, a milícia Unidades de Proteção do Povo (YPG, na sigla em curdo) já controla território sírio do tamanho do Kuwait e do Catar somados, onde estabeleceram um governo semiautônomo nos moldes do Curdistão iraquiano. Nas trincheiras contra o EI, sua ligação com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela independência dos curdos da Turquia, é evidente. 

A insurgência, antes restrita a vilarejos rurais, se alastrou para as cidades e vem se intensificando há meses, com uma violenta resposta militar de Ancara. Confrontos quase diários já levaram à morte dezenas de civis. Em novembro, o advogado e ativista dos direitos humanos Tahir Elçi foi morto diante das câmeras após uma coletiva de imprensa em que defendia o fim dos confrontos em áreas urbanas com alta densidade populacional. Em dezembro, o Ministério da Educação ordenou o fechamento de três mil escolas em áreas curdas e retirou os professores. Ao menos sete cidades, onde vive 1,3 milhão de habitantes, estão sob toque de recolher, segundo a Fundação de Direitos Humanos da Turquia.

Tais fatos praticamente não chegaram à imprensa internacional, porque revelar a situação não interessa a ninguém – seria uma exposição de fraqueza para o presidente Recep Tayyip Erdogan e obrigaria o Ocidente a posicionar-se, quando não se pode dar ao luxo de abrir mão da Turquia ou dos curdos para vencer o EI. Os terroristas, que vêm perdendo território para os curdos na Síria e no Iraque, só têm a ganhar com a instabilidade da Turquia. A explosão no coração do histórico Sultanahmet, o distrito mais turístico de Istambul, ontem, foi o terceiro ataque em seis meses. Em julho, 32 pessoas morreram em uma explosão em Suruc, na fronteira síria; em outubro, um duplo atentado na capital deixou 100 mortos. 

Erdogan responsabilizou o EI pelo ataque de ontem, mas declarou, ao mesmo tempo, que isso “não importa”, porque ele não vê diferença entre o grupo e o PKK. Mas importa – e muito. Importa porque os curdos são as principais forças terrestres contra o EI e o território sob seu controle é precisamente a longa faixa de fronteira com a Turquia. Qualquer engajamento de Ancara na Síria será retórico e sem acordo com o PKK.

A obsessão de Erdogan com os curdos alimenta o nacionalismo religioso, o que, por sua vez, fortalece grupos islamistas radicais. Além disso, desde os protestos de 2013 e, principalmente, após obter maioria nas eleições de junho, o presidente tem sido implacável contra a oposição secular e a mídia independente.

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